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Após perder final para os EUA, seleção brasileira masculina de vôlei fica com a prata

11/08/2009 - 07h07

Prata supervalorizada rende status e 'empregos' mesmo após 25 anos

Roberta Nomura
Em São Paulo
Uma das pratas mais badaladas do Brasil completa 25 anos nesta terça-feira. A derrota da seleção brasileira masculina de vôlei na final dos Jogos Olímpicos de Los Angeles-1984 ganhou status de conquista e rende reconhecimento até hoje. Supervalorizados, os atletas da geração de prata ainda convivem com o assédio do público e veem portas abertas para seguir carreira no esporte.

OPINIÕES SOBRE A PRATA DE 1984 E ATUAL PROFISSÃO DOS EX-ATLETAS
Arquivo Folha
"Só tenho lembranças boas, porque a gente conviveu muito tempo juntos. Aquela geração é muito carismática, porque 25 anos depois ainda somos lembrados", William, técnico do Vôlei Futuro
"Tivemos uma participação fundamental para todo o voleibol. A geração de prata tem o devido reconhecimento", Amauri Ribeiro, atual presidente da Associação Brasileira de Voleibol Paraolímpico
"Prata é para perdedor. Escutei isso direto. A medalha não foi valorizada na época. Foi uma derrota. Agora está se mudando a cultura do brasileiro", Mário Xandó de Oliveira Neto , supervisor da secretaria municipal de esporte
CONFIRA OUTRAS FRASES SOBRE 1984
RELEMBRE EM FOTOS A CONQUISTA
GERAÇÃO DEFENDE BERNARDINHO
Dos 12 jogadores que estiveram em Los Angeles, apenas Antonio Carlos Gueiros (Badá) mudou radicalmente o ramo de atuação. O ex-jogador é dono de uma pousada em Visconde de Mauá (RJ). Os demais integrantes da geração de prata trabalham direta ou indiretamente com o esporte.

"Profissionalmente, o voleibol me deu tudo. Fazer parte daquela geração conta muito até hoje. E eu cheguei a parar de jogar para fazer faculdade de engenharia para ter um futuro. Mas logo em seguida começou a entrar patrocínio nos clubes. Este processo de profissionalização permitiu que eu continuasse nas quadras", afirmou José Montanaro Júnior ao UOL Esporte. Atualmente o ex-atacante é diretor de vôlei do Santander/São Bernardo.

Montanaro esteve em quadra no dia 11 de agosto de 1984, data em que a seleção brasileira perdeu a final olímpica para os Estados Unidos por 3 sets a 0, com parciais de 15-6, 15-6 e 15-7 (na época, a regra determinava o ponto somente quando a equipe tinha a vantagem). Mas ao contrário do que ocorre com frequência, o segundo lugar não foi considerado um fracasso e acabou enaltecido no país.

"Com certeza esta é a prata mais valorizada. Dificilmente você reconhece tanto uma prata como a que o voleibol conseguiu. Aquele grupo foi um marco para esporte amador. Não se desenvolvia trabalho tão bem feito com planejamento e estrutura física. Mostramos que o Brasil podia produzir equipes vencedoras. Foi um modelo na década de 80 e hoje o vôlei está à frente de outras modalidades", disse o ex-levantador William, técnico do Vôlei Futuro.

"Nós não fomos rotulados como geração de prata no sentido pejorativo, muito pelo contrário. Existe uma coisa muito bacana. Já a prata de 2008 as pessoas enxergam como uma frustração. Mas a história fará justiça a isso tudo e colocará de forma correta esta geração", falou o reserva Bernardinho, que atualmente dirige a seleção brasileira e viu seus comandados caírem também diante dos norte-americanos na decisão do ouro olímpico nos Jogos de Pequim.

Treinar todos os dias em dois períodos, com concentrações, viagens e estrutura. Esta realidade passou a fazer parte do voleibol brasileiro a partir da década de 80. "Tudo começou nos Jogos de Moscou. O Nuzman [Carlos Arthur, ex-presidente da CBV e atual do COB] estava na arquibancada com o Braguinha [empresário Antonio Carlos de Almeida Braga], que perguntou o que faltava para o Brasil disputar medalha. Depois de ouvir que era apoio, ele decidiu investir no esporte", contou Marcus Vinícius Freire.

Antes da década de 80, os treinamentos ocorriam apenas de duas a três vezes por semana em apenas um período. "Era completamente amador. Em muitos lugares que a gente ia, conhecia as regras no lugar. Via o adversário receber de manchete, enquanto todo mundo só sabia dar o toque e tinha que tentar fazer no meio do campeonato, sem treinar", relembrou Montanaro.
PROFISSIONALIZAÇÃO TEVE INÍCIO APÓS MOSCOU-1980
PÁGINA DE LOS ANGELES-1984
"Para dimensionar a nossa conquista, faço uma comparação com o futebol. Na chegada da seleção de futebol, os jogadores quase foram agredidos, enquanto a gente deitou nos louros da vitória", relembrou Marcus Vinícius Freire, atleta mais jovem da geração de prata e atualmente superintendente executivo de esporte do COB (Comitê Olímpico Brasileiro).

Amauri, Badá, Bernard, Bernardinho, Fernandão, Maracanã, Montanaro, Marcus Vinícius, Renan, Rui Campos, William e Xandó ainda colhem os frutos da prata conquistada sob o comando do técnico Bebeto de Freitas. Mesmo após 25 anos, os ex-atletas ainda são reconhecidos nas ruas para distribuição de autógrafos e fotos.

"O nosso nome caracteriza a medalha de prata, mas a maior conquista daquela geração foi ter conseguido popularizar o voleibol. Mais do que isso, a gente mostrou que tinha capacidade de ser bom em algo além do futebol. As pessoas me reconhecem na rua, parabenizam e agradecem, mesmo sem cabelos e bem diferente", brinca Montanaro.

"O pessoal que lembra é mais velho, tem mais de 40 anos, mas reconhece em qualquer lugar", contou Amauri, que além de fazer parte da geração de prata esteve na campanha do ouro olímpico de Barcelona-1992.

Embora atualmente as definições mais associadas à geração de prata sejam precursora e pioneira, alguns jogadores revelam que na época ouviram colocações consideradas absurdas. "Teve gente que me perguntou se vendemos a final para os Estados Unidos. Mas não existe um valor para isso, que é o fruto de um trabalho que você se dedica e luta demais. Mas isso é resultado da repercussão que teve aqui", disse Domingos Lampariello Netto, o Maracanã.

A CAMPANHA DA MEDALHA
31/07/1984 - Primeira fase
Brasil 3 x 1 Argentina (15-8, 15-8, 16-18, 15-13) - 113 minutos
02/08/1984 - Primeira fase
Brasil 3 x 0 Tunísia (15-9, 15-9, 15-2) - 45 minutos
04/08/1984 - Primeira fase
Brasil 1 x 3 Coreia (4-15, 13-15, 15-13, 8-15) - 119 minutos
06/08/1984 - Primeira fase
Brasil 3 x 0 Estados Unidos (15-10, 15-11, 15-2) - 110 minutos
08/08/1984 - Semifinal
Brasil 3 x 1 Itália (12-15, 15-2, 15-3, 15-5) - 86 minutos
11/08/1984 - Final
Estados Unidos 3 x 0 Brasil (15-6, 15-6, 15-7) - 79 minutos
O valor histórico da prata olímpica, considerada um marco entre o amadorismo e o profissionalismo do vôlei no Brasil, é incontestável. Mas há quem destaque o peso da derrota na final os Estados Unidos, em Olimpíada marcada pela ausência da União Soviética, Cuba, Bulgária e Polônia. Os soviéticos revidaram o boicote norte-americano em Moscou-1980 e não mandaram delegação a Los Angeles.

"Não considero esta [a prata olímpica] a nossa maior conquista. Os melhores do mundo não estavam lá. Perdemos uma grande oportunidade de ganhar o ouro e o que fica na história é a medalha. Poderíamos ter antecipado 92. Eu não gosto de ficar exaltando porque foi uma derrota e feia, por 3 a 0. Não fiquei nada contente e nenhum companheiro meu ficou. Claro que a gente fez história por ter conquistado muito coisa junto, mas perdemos o ouro por bobeira", explicou Badá.

Decepcionado com o revés para os Estados Unidos, o ex-jogador atirou a medalha logo após recebê-la e permaneceu no pódio sem o prêmio - devolvido a Badá por um membro da delegação brasileira. "Fiquei com raiva, tínhamos feito vários jogos e ganhado dos norte-americanos, fomos perder justo aquele", lamentou.

ALGUMAS CONQUISTAS QUE ANTECEDERAM A PRATA
1981Copa do Mundo3º lugar
1982Mundial2º lugar
1982Mundialito1º lugar
1983Pan-Americano1º lugar
ANOTORNEIOCOLOCAÇÃO
Logo após a partida, a sensação foi mesmo de derrota, segundo Renan Dal Zotto, que atuou em apenas alguns jogos porque machucou o tornozelo pouco antes da Olimpíada. "Demora um pouco até entender que é uma conquista. Mas teve uma atitude do Bernard muito legal. Ele começou a sacudir a bandeira do Brasil quando estávamos no pódio. Quem diz que a prata representa o ouro perdido é porque nunca ganhou uma medalha."

"A prata é um metal muito nobre. E foi por causa dessa medalha que ficamos conhecidos assim e entramos no coração do público brasileiro. Tem muita gente que acompanhava a gente que ainda prefere aquela seleção", disse Rui Campos.

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