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Reforma da Previdência ignora atletas, alerta campeã da São Silvestre

Carmen de Oliveira comemora a vitória na final feminina dos 10 mil metros no Pan-Americano de 1995 em Mar del Plata - AFP
Carmen de Oliveira comemora a vitória na final feminina dos 10 mil metros no Pan-Americano de 1995 em Mar del Plata Imagem: AFP
José Cruz

José Cruz

José Cruz, jornalista, trabalha no gabinete do senador Romário

14/03/2019 12h00

Carmem de Oliveira foi a primeira brasileira a vencer a Corrida de São Silvestre, em 1995. Em nível internacional, ela marcou 2h27min na maratona de Boston, recorde sul-americano. Com ótima técnica e bom fôlego, fez do atletismo a sua profissão.

De família humilde, Carmem corria, literalmente, atrás de bons resultados para conquistar prêmios em dinheiro, o seu salário, mas sem direito a férias. Quando melhorava as suas marcas, Carmem valorizava o cachê para prestigiadas corridas, o que facilitava as negociações de novo contrato com o patrocinador. Mas precisava evitar contusões para não parar. Era "trabalho" permanente, com treinos, viagens e competições. Tudo em nome do "pão nosso de cada dia".

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Há mais de dez anos fora das pistas, Carmem revela que não tem aposentadoria como atleta. Pedagoga e militando na política por causas sociais, ela é crítica ao modelo de reforma da Previdência e alerta os colegas atletas ainda na ativa. Veja:

"A reforma da Previdência esqueceu o atleta. Ela não contabiliza como 'trabalho' os dias de treinos, viagens e competições, para efeito de aposentadoria. Nas últimas décadas, explorando o nosso potencial técnico e físico, representamos o Brasil em eventos internacionais. E o próprio governo reconheceu a importância de nosso 'trabalho', recompensando com a Bolsa Atleta, patrocínios das estatais, verbas para projetos etc.

Porém nada disso habilita os atletas a uma aposentadoria digna, porque falta a parte legal do contrato de trabalho com o clube. Por exemplo: quantos competidores recolhem o INSS de seus patrocínios, por anos ininterruptos? Quantos atletas têm carteira ou contrato assinado com um clube e recolhimentos mensais ao INSS? Sem isso, adeus aposentadoria digna.

As autoridades públicas que tanto se orgulham dos feitos no esporte e nos abraçam na hora dos holofotes não têm ideia do que é a rotina dos atletas; não sabem como vivemos durante os escassos anos de nossas carreiras e, muito menos, o abandono que sofreremos, quando paramos de competir.
Hoje, eu vibraria mais com a retirada desse projeto nefasto, que sacrifica os mais necessitados, do que com uma vitória numa maratona importante. Tenho a clareza de que esse projeto visa capitalizar os banqueiros com a chegada de uma Previdência privada.

Atletas, não esqueçam que o governo não estará com vocês na pós-carreira. E, ao contrário das excelências do Judiciário e do Legislativo, não haverá privilégios nem pensões vitalícias!

Digam algo! Ajam agora, pois essa atrocidade de reforma previdenciária não diz respeito aos atletas, os 'trabalhadores' do esporte. Lutem contra esse projeto como se fosse um pódio para o país".

Faz sentido o alerta de Carmem. Até no futebol, onde os atletas param, em média, aos 35 anos, a situação é difícil. Precisam trabalhar mais trinta anos em outro segmento para chegar à aposentadoria. Pior! As estatísticas mostram que apenas 15% dos profissionais brasileiros têm contrato de trabalho o ano todo. Segundo a CBF, 82,4% dos atletas têm renda mensal de até R$1.000,00; 13,7% recebem R$ 5.000,00 e apenas 6,9% dos jogadores recebem acima de R$ 10.000,00.

Ora, se no futebol, a paixão nacional, a situação é essa, o que se passa nas demais modalidades? O alerta de Carmem é oportuno: os atletas precisam estar atentos à legislação e sua atualização para evitar dificuldades na pós-carreira.

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