Topo

Coluna

Campo Livre


Antero Greco: Se Tite pegar o boné, por que não tentar um gringo?

Pedro Martins/Mowa Press
Imagem: Pedro Martins/Mowa Press
Antero Greco

Antero Greco

Antero Greco é paulistano do Bom Retiro, jornalista desde 74. Trabalhou no Grupo Estado, Diário Popular, TV Gazeta, Corriere Dello Sport (Roma), além de colaborações para Folha e TV Band. Entrou na ESPN em 94. Cobriu 11 Copas (7 no local).

05/07/2019 04h00

Ritual inalterável que tenho, ao acordar, consiste em rezar, lavar o rosto, escovar os dentes, olhar o dia pela janela, abrir o UOL, espiar as manchetes e ir direto para o Esporte. No café, a leitura inicial é o blog do Juca. Sempre tem novidade, ponto de partida obrigatório do dia.

Nesta quinta-feira não foi diferente. O mestre que sigo desde criança, quando eu devorava a "Placar" já nas terças-feiras, avisou que Tite pode pegar o boné, no domingo mesmo, após a final da Copa América. Com ou sem título. O responsável pela seleção estaria insatisfeito com o desmanche na comissão técnica e provavelmente "otras cositas más".

Juca tem o cuidado de colocar as alternativas no terreno das hipóteses, pois o cenário lhe foi pintado por gente próxima ao "professor", sem nenhuma declaração oficial. Não duvido de nada, nem da saída tampouco da permanência dele até o Mundial do Catar. Não sabemos de ambições, sonhos, decepções que passam pela cabeça de outra pessoa. Mal sabemos de nós.

Só repito aqui o que já disse para meu parceirão de todas as noites, na tevê, o impagável Paulo Amigão Soares: tenho notado Tite com semblante cansado, envelhecido, sobretudo nas entrevistas. Repare como os cabelos dele embranqueceram com rapidez. Seleção dá visibilidade mas cobra preço salgado, já dizia Telê Santana, ele mesmo vítima do desgaste de tão alto cargo.

Pois bem, suponhamos que Tite resolva ir pra casa cuidar de filhos e netos - e teria meu apoio, se for essa a escolha. Que bom, curtir a vida em primeiro lugar. Nem por isso a seleção brasileira derreteria ou sumiria do mapa. Ela resistiu a gigantes e a aventureiros, não seria diferente agora, para alívio de alguns, aplausos de outros e lamentos de muitos.

Renato Portaluppi - Lucas Uebel/Grêmio FBPA
Renato Portaluppi
Imagem: Lucas Uebel/Grêmio FBPA

Juca diz que Renato Portaluppi e Mano teriam a preferência da cúpula da CBF. O nome do treinador do Grêmio surge naturalmente, como a bola da vez. Normal, em função do que ele fez no tricolor gaúcho e, também, por falta de alternativas gritantes.

Mano corre por fora, pelo retrospecto na própria seleção, depois do fiasco na África do Sul, por aquilo que fez em Corinthians e Cruzeiro, e igualmente por escassez de concorrentes ao posto. Como tem imagem séria, talvez não sofresse intensa rejeição popular.

Tenho dúvidas em relação a ambos. Renato é personagem faceiro, vive melhor fase da carreira, tem habilidade para lidar com boleiros, não inventa. Pertence à linhagem dos treinadores intuitivos, como a maior parte dos que saíram de campo para o banco.

Não o rejeitaria no comando da "amarelinha". Ora, se Lazzaroni, Leão, Dunga, Edu Coimbra, para citar alguns, tiveram chance, por que não ele? Da mesma forma, não criaria expectativa exagerada; iria com cautela. Imagino se teria condições de resgatar um estilo agressivo no time, algo abandonado há muito.

Com Mano, esperaria solidez defensiva, posse de bola e um ritmo entediante. Não necessariamente ineficiente, mas sem empolgar. Aqui comigo penso que já teve sua chance, sem ter sido nem brilhante nem decepcionante. Verdade é que levou um capote de José Maria Marin e a turma que comandava a seleção antes do Mundial de 14.

O que preocupa, amigo que me lê por aqui, é a passividade com que vemos os nomes dos eventuais candidatos. Não há discussão, sabe por quê? Porque nos faltam técnicos de porte para entrar na briga. Temos no mercado muitos novos, medianos ou veteranos sem que provoquem clamor de torcedores.

Espero que a safra de Fábio Carille, Rogério Ceni, Thiago Nunes, Odair Helmann, Fernando Diniz, Rodrigo Santana, Roger Machado, Alberto Valentim ofereça, no futuro, excelentes técnicos para a seleção. Hoje, têm longo caminho a percorrer. Claro que não passa de exercício de futurologia, mas Carille é o mais adiantado nessa turma pelos títulos conquistados no Corinthians.

Os mais rodados? Luxemburgo e Felipão já passaram por lá. Cuca, Abel, Levir e outros calejados têm espaço em clubes ou se encaminham para a aposentadoria.

Mano Menezes - Vinnicius Silva/Cruzeiro
Mano Menezes
Imagem: Vinnicius Silva/Cruzeiro

Daí parecerem óbvios os nomes de Renato e Mano para o momento ou a médio prazo. Porém, repito, não me fazem sonhar.

Sonho mesmo era com a possibilidade de termos experiência com estrangeiro. Num mundo tão misturado como é o do futebol, hoje em dia não soa como ofensa ter gringo na seleção. Muito menos demérito para os nossos patrícios ou manifestação de baixa autoestima brazuca.

Desde que seja profissional de ponta e não um paraquedista, por que não supor como se comportariam nossos atletas com um técnico de fora? A maioria dos craques atua na Europa, eles já vêm com hábitos de lá, sejam positivos ou questionáveis. Por que não vê-los sob as ordens de alguém que os conhece bem e que os acompanha de perto?

Como, você tem um nome para sugerir?! Eu também. Será que é o mesmo? Vejamos. O meu seria Pep Guardiola, com currículo de se tirar o chapéu e que dispensa apresentações. E sobretudo por ser fã de carteirinha da "escola brasileira" de lidar com a bola. Se ele ganharia um Mundial? Ah, não sei. Mas que faria essa rapaziada jogar bonito, apostaria que sim, e sem vacilar.

A CBF teria peito para tanto? Duvido. Mas, como tantas coisas que eu duvidava já aconteceram (e muitas delas ruins), por que não sonhar com algo bacana?

Enquanto isso, lá vamos nós para a decisão da Copa América. Bater o Peru é obrigação; porém, o único peru que morre de véspera é aquele que faz gluglu e vai para mesa na ceia de Natal. Este de Guerrero e Cueva entra em campo como franco-atirador. Olho vivo, portanto.

Mais Campo Livre