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Fórmula 1

Como acidentes como o de Macau ajudam a federação a aumentar segurança

Julianne Cerasoli

Do UOL, em Abu Dhabi

21/11/2018 04h00

Enquanto a piloto alemã Sophia Floersch se recupera de uma cirurgia bem sucedida na coluna após um impressionante acidente na corrida de F-3 em Macau, um grupo de especialistas trabalha em Genebra, na Suíça, para evitar que batidas como aquela voltem a acontecer.

A Comissão Médica é parte do Departamento de Segurança e uma de suas atribuições é a reconstituição de acidentes. “Algo que pouca gente sabe é da nossa colaboração com os engenheiros. Assim que acontece um acidente, vamos até eles para entender o que deu errado”, explicou o Delegado Médico da FIA, Alain Chantegret, ao UOL Esporte.

Essa interação ocorre até em caso de batidas em competições menores, como ralis regionais, e aumentou significativamente desde que Jean Todt assumiu a presidência da FIA, uma vez que o francês quer deixar como grande legado a questão da segurança em todas as diferentes formas de automobilismo e criou, há cerca de três anos, o Grupo de Estudos de Acidentes Graves. “Focamos no aspecto técnico e também médico, para entender por que o piloto sofreu aquele tipo de lesão, mas às vezes não é tão fácil, dependendo do país”, reconheceu Gérard Saillant, médico que ficou famoso no Brasil por ter operado o jogador Ronaldo antes da Copa de 2002 e que hoje presidente do FIA Institute, que cuida da segurança e procedimentos de salvamento em todas as categorias do automobilismo.

“Muitos acidentes têm uma natureza única, então nosso trabalho é usar os protocolos existentes e tirar lições que precisem ser aprendidas. Todos os incidentes são estudados, em menor ou maior escala, pelo instituto e pela FIA, e isso pode levar a mudanças, que podem ser de qualquer nível, desde a mudança de densidade de uma espuma até algo mais importante”, explicou Ian Roberts, responsável pelos resgates na Fórmula 1 e coordenador do departamento de segurança.

A grande dificuldade da comissão de segurança da federação é justamente com provas como a de Macau, conhecida pelo perigo e acidentes graves. A pista chinesa, que recebe anualmente a mais tradicional prova da Fórmula 3, é especialmente perigosa pela velocidade do traçado combinada com as áreas de escape praticamente nulas por ser um circuito de rua.

“Precisamos ser reativos, mas cada vez mais proativos para antecipar cenários. Na F-1, honestamente, isso não é tão difícil, mas é em eventos de menor escala. É nossa missão na Comissão Médica da FIA fazer com que tudo o que usados e aprendemos na F-1 seja usado em todas as outras formas de automobilismo”, disse Saillant.

O que pode mudar após acidente de Macau
O acidente de Floersch ainda não teve a causa identificada mas, segundo depoimento de Guan Yu Zhou, piloto que viu o ocorrido de perto, Jehan Daruvala freou bruscamente ao avistar bandeiras amarelas e a alemã estava perto demais e em alta velocidade e não conseguiu reagir a tempo. Com o choque no carro do rival e no muro de proteção, ela perdeu as rodas dianteiras e não conseguiu frear, chegando à curva Lisboa a 276.2km/h.

Neste ponto, seu carro levantou voo ao passar por uma zebra instalada neste ano em Macau para evitar que os pilotos cortassem a pista. Trata-se de uma zebra mais alta do que o normal, conhecida como “salsicha” e muito usada inclusive na F-1. Certamente, o uso desta zebra em especial é um dos pontos estudados pelos médicos e engenheiros, pois ela funcionou como um trampolim para o carro de Sho Tsuboi, contato esse que fez o carro voar ainda mais alto.

Por outro lado, o alambrado, que foi aumentado recentemente, tirou um pouco da velocidade do carro, que voou num bunker feito pelos organizadores em Macau justamente para proteger os fotógrafos, que antes ficavam expostos justamente atrás do alambrado. Isso funcionou, uma vez que dois fotógrafos tiveram ferimentos mais leves. Mas o estudo da dinâmica do movimento do carro mostrará se a forma e estrutura do bunker devem ser alteradas ou se a parte exterior da curva Lisboa se tornará uma chamada zona vermelha, ou seja, lugar proibido para fotógrafos ou jornalistas.