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Fórmula 1

Por que ser 3º piloto como Sette Camara e Fittipaldi é bom negócio na F1

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Sergio Sette Camara no pódio da F-2 no Bahrein Imagem: Divulgação

Julianne Cerasoli

Do UOL, em Abu Dhabi (EAU)

22/11/2018 04h00

À primeira vista, o título de terceiro piloto ou piloto de desenvolvimento, que os brasileiros Sergio Sette Câmara, na McLaren, e Pietro Fittipaldi, na Haas, terão ano que vem na Fórmula 1, pode soar estranho. Afinal, como seria possível ajudar na evolução de um carro uma vez que a época dos testes constantes na categoria ficou para trás faz tempo? Mas a história recente mostra que este é um ótimo caminho para se tornar titular na categoria. E a falta de testes acaba tendo muito a ver com isso.

É só olhar os exemplos recentes. Até o momento três pilotos têm a estreia confirmada na próxima temporada: depois de ser piloto reserva da Mercedes em 2018, George Russell vai para a Williams. Já Lando Norris se tornou titular da McLaren e Antonio Giovinazzi foi do desenvolvimento da Ferrari para o cockpit da Sauber. Isso sem falar em Daniil Kvyat, que também estava na Scuderia e foi chamado de volta para ser titular na Toro Rosso.

O cargo de piloto de desenvolvimento substitui o antigo “piloto de testes” desde que a F1 passou a adotar medidas para restringir o tempo de pista e economizar, há 10 anos. No atual grid, ainda há alguns pilotos remanescentes daquela época, como Fernando Alonso, que foi piloto de testes da Benetton em 2002, e Sebastian Vettel, que ocupava vaga semelhante na BMW. Quando houve a redução drástica nos ensaios, a função de piloto de testes foi questionada, mas a evolução dos simuladores aumentou a necessidade das equipes terem um piloto disponível para trabalhar na fábrica, o que, dependendo da equipe e da agenda deste piloto, pode acontecer até durante um fim de semana de corrida.

Essa foi a realidade Giovinazzi neste ano: em várias oportunidades, a Ferrari começava mal os treinos livres na sexta-feira e depois se recuperava ao longo do fim de semana. Isso porque o italiano era enviado de volta à sede do time em Maranello para experimentar, no simulador, acertos diferentes para o carro.

Além da utilidade do piloto de desenvolvimento para a equipe, o inverso também é verdadeiro. Afinal, para os pilotos, trata-se de uma boa oportunidade de começar a relação com uma equipe de Fórmula 1. “Muito do trabalho dele tem a ver com o simulador, mas não é só isso. Será uma introdução dele à ‘família’ McLaren, ao trabalho com os engenheiros e uma maior familiaridade, digamos, à preparação física da F-1, além das necessidades de marketing. É um programa bem completo”, disse Gil de Ferran sobre o trabalho de Sette Câmara, que concorda com o novo chefe. “Acredito que, quanto mais você pilotar, melhor você fica. E o simulador é, para mim, como pilotar na vida real. Então é uma experiência que só vai me fazer crescer. E estar ao lado de engenheiros muito bons também é um fator positivo.”

Luiza Oliveira/UOL
Pietro Fittipaldi testará pela primeira vez pela Haas semana que vem em Abu Dhabi Imagem: Luiza Oliveira/UOL
A desejada superlicença
Ao mesmo tempo em que soma experiências importantes, o piloto de desenvolvimento ganha tempo para conseguir a superlicença necessária para correr na F1. O sistema de pontos, que entrou em vigor recentemente, prevê que o piloto que soma 25 pontos pode fazer sessões de treinos livres, mas só quem tem mais de 40 pode disputar corridas. Os pontos são computados ao longo de três temporadas seguidas e dependem da posição no campeonato nas categorias de base.

É por isso que Sette Câmara fará mais uma temporada de F-2 ano que vem. Ele é atualmente o sexto colocado no campeonato que terá sua etapa final neste final de semana em Abu Dhabi. Continuando na mesma posição, somaria 10 pontos, podendo completar sua cota em 2019. “Não acho que vai ser um problema”, acredita o brasileiro. A F-2, por ser o último degrau antes da F-1, é a categoria em que mais pontos são somados e os três primeiros garantem 40 pontos.

Já a situação de Fittipaldi é diferente. O piloto começou na Nascar e apenas em 2013, aos 17 anos, foi para o automobilismo europeu. Com o título da World Series, em 2017, ele obteve 20 pontos para sua superlicença, e tinha o projeto de correr em diversas categorias diferentes neste ano, a fim de ganhar experiência, mas um grave acidente em maio interrompeu sua temporada. Agora, ele precisa ao mesmo tempo buscar seus pontos para ter a possibilidade de chegar aos 40 necessários, e estar à disposição da Haas, usando o simulador da Ferrari em Maranello. “Vou ter que estar em quase todos os finais de semana de corrida [da F-1], mas meu sonho não é só ser piloto de testes, e sim titular. É nossa meta. Então o Guenther [Steiner, chefe da Haas] me falou que é para eu continuar correndo e estamos vendo de correr em vários campeonatos diferentes.”

O papel de Pietro é visto como fundamental para o crescimento da equipe mais jovem do grid, como explicou Steiner. “Decidimos ter nosso próprio programa para podermos ser tão bons quanto as equipes de ponta em termos de acerto de carro e para poder testar antes novidades no carro. Pietro quer fazer isso. Há muitos pilotos jovens que não querem esse papel de piloto de testes, que preferem disputar categorias menores. Não é fácil achar jovens com essa mentalidade. Acho que ele tem confiança em sua habilidade de disputar corridas e quer focar em pilotar e conhecer mais de perto uma equipe de F1.”

A promoção de pilotos de desenvolvimento e de testes é marcante atualmente devido ao ganho de importância dos simuladores e à questão da superlicença, mas não vem de hoje. Tanto, que 13 dos 18 pilotos já confirmados no grid ano que vem passaram por um destes dois papéis. Apenas Lewis Hamilton, Kimi Raikkonen, Carlos Sainz, Sergio Perez e Max Verstappen chegaram à F1 sem antes serem pilotos de desenvolvimento.