Mauricio Stycer

Carta aberta a Galvão Bueno: "Você acertou. Não vai ser fácil"

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Galvão registra festa russa em Moscou após vitória Imagem: Reprodução
Mauricio Stycer

Mauricio Stycer

É jornalista desde 1986. Repórter e crítico do UOL, autor de um blog que trata da alta à baixa cultura, do esporte à vida nas grandes cidades, sempre que possível com humor.

Colunista do UOL

26/06/2018 11h24

Na segunda-feira (25), o UOL noticiou que a Globo e o pai de Neymar estão negociando uma trégua depois das críticas que o narrador Galvão Bueno fez ao jogador nas transmissões das duas primeiras partidas do Brasil na Copa. Nesta terça-feira (26), a Folha traz reportagem com teor semelhante, informando que o pai do camisa 10 procurou a Globo com o objetivo de blindar o filho das críticas que têm recebido.

Estou preocupado. A gente precisa do Galvão. Não dá pra assistir a Copa sem ele. A gente precisa do narrador bem, a gente precisa cuidar dele (e de sua voz) com carinho. Por isso, escrevo estas palavras para Galvão.

(sobe som: “We are the Champions”)

Oi, Galvão. Já falo com você. Antes vou bater um papo com quem está me lendo, tá? Você que está me lendo, não sei a sua idade, mas com 67 anos, onde você estava, ou vai estar? Você gritaria “agora tem que colocar o coração na ponta da chuteira!” com milhões de pessoas te ouvindo?  Você teria frieza aos 40 do segundo tempo com 0 a 0? Ou você gritaria “haja coração!” três vezes seguidas? Você tentaria fazer o mais difícil, e narrar o drama sem perder a cabeça, ou tentaria o caminho mais fácil, como um bom vendedor de emoções?

Sim, é o Galvão. Esse mesmo. Milionário, dono de vinícola, com casa em Monte Carlo, jogador de golfe, e metido. Mas quando você tira tudo isso que já falaram dele, sobra o quê? Um cara que ainda não tem 70 anos e carrega o maior peso da Globo neste Mundial. Me perdoem os outros dois lá, Cléber Machado e Luís Roberto, que são excelentes, mas são vozes menos importantes. Nem se comparam à grandeza da voz mais poderosa, do maior símbolo, hoje, da narração esportiva brasileira. O Galvão tem sobre ele o maior peso das transmissões esportivas do país.

E o Galvão acertou. Ele acertou, sim. Criticou o “gesto artístico” de Neymar. Nesse hora ele só queria o nosso apoio. Uma coisa tão normal, né? Apertar pausa, e ouvir o nosso aplauso. Mas ele não pode. Ele não. E ele sabia. Sabia que a repercussão do comentário poderia quebrá-lo depois do jogo. Sabia que todo mundo já estava com o dedo no teclado do celular, com a manchete pronta. Não foi um pênalti anulado, foi um recado.

Galvão, com você, não vai ser  na base do atalho, do grito... Não vai ser fácil. Você vai sempre ter que escolher o caminho mais difícil. Então, da próxima vez, continue a dizer claramente, sem rodeios, o que você pensa do Neymar. E também comente sobre os vexames dos cartolas brasileiros em Moscou. Proteste contra os desmandos da CBF. Ignore as críticas. Faça eles chorarem.

Se cuida, Galvão. E receba estes abraços que são de todo mundo que torce por você. A gente precisa de você bem. Pra cima deles!

(Texto inspirado na carta de Tiago Leifert para Neymar, lida no programa “Central da Copa” após a partida contra a Costa Rica.)

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