Raiva e ternura marcam dérbi de imigrantes Portuguesa x Juventus no Canindé

Adriano Wilkson

Do UOL, em São Paulo

Um senhor de mais de 70 anos, camisa verde-rubro número 13, bermuda bege, sapatos pretos, cabelos brancos, ralos e revoltos, está muito, muito irritado.

Caminha de ponta a ponta da arquibancada, jogando os braços ao céu e xingando com palavrões impublicáveis antigos desafetos, diretores e presidentes, jogadores e técnicos, o trio de arbitragem e suas respectivas mães.

Ele parece uma figura fora de lugar. Você olha em volta e não vê motivo para tanta irritação. É uma noite agradável de verão e no campo do Canindé à nossa frente, Portuguesa e Juventus voltam a fazer o "clássico dos imigrantes" depois de três anos de afastamento.

Juventus volta a vencer Portuguesa como visitante após 33 anos

No lado lusitano da arquibancada, famílias inteiras, mulheres e crianças, adolescente e barbudos se reúnem para ver de perto a Portuguesa, que não jogava oficialmente em casa desde outubro do ano passado.

No lado italiano, a torcida do Juventus canta sem parar, criando uma atmosfera de final de campeonato argentino em pleno segunda divisão paulista.

Mas aquele senhorzinho, alheio a tudo isso, se aperta contra o alambrado e profere mais uma vez seu rosário de xingamentos, agora especialmente dirigidos ao bandeirinha, que acabara de marcar impedimento claríssimo contra a Portuguesa. "Você está roubando a gente, seu bandido!"

Todos no Canindé o conhecem como Sardinha, e alguém me explica que ele é o torcedor mais fanático e exigente da Portuguesa. Me aproximo, me apresento como jornalista e peço para tirar uma foto.

Ele reage como se estivesse vendo um ET, esbugalhando os olhos e silenciando por alguns segundos.

"O que você quer?"

"Uma foto"

Ele dá um passo atrás e, ainda com a expressão de quem parece não sorrir há séculos, balança a cabeça autorizando o clique.

Adriano Wilkson / UOL
Sardinha, torcedor da Portuguesa, no Canindé

Raízes

Mas essa noite de futebol tinha começado ainda à tarde, quando encontrei cerca de 40 torcedores juventinos na Mooca, zona leste de São Paulo, e caminhamos em direção ao Canindé, na zona norte.

Eles são muito jovens e articulados, bem alimentados e educados, e fazem parte de uma torcida conhecida tanto pelo amor ao Juventus quanto pelo desprezo a todos os outros clubes do planeta.

(Para ser franco, muitos deles torcem também para times grandes, mas dizem ter um carinho inexplicável pelo Juve.)

Pregam o ódio ao futebol moderno e orgulham-se das raízes operárias, corticeiras do time, embora pareça improvável que algum deles tenha alguma vez pisado no chão de uma fábrica ou de um cortiço.

"Meu pai tem muita grana, é dono de um negócio de aviação particular", me informa um deles depois que eu pergunto sobre o background social da organizada. Trata-se de um garoto baixo e simpático, vestido com uma camisa retrô do Juventus. "Mas eu sempre me identifique com essa coisa operária da Mooca, é uma coisa que a gente não perde fácil."

Dentro do metrô, o pessoal se amontoa em um único vagão e começa o tradicional alento ali mesmo. São cânticos de amor e fidelidade ao Juventus e de provocação aos times "de arena". Um dos caras se empolga e começa a bater no teto do vagão. Outro reage: "Não bate no metrô não, cara, não vamos depredar nosso patrimônio."

Seus cânticos ecoam ainda mais alto nas paredes da estação e, empolgados, eles chegam ao estádio, se juntam a outros juventinos. E todos eles, milhares deles, de repente estão lotando a área destinada aos visitantes.

Faz dois anos que eles não pisam ali, mas parecem se sentir em casa.

Ao todo, mais de 7 mil pessoas assistiram ao clássico, público maior que a soma dos pagantes das partidas de Flamengo, Botafogo e Fluminense no último final de semana.

Adriano Wilkson / UOL

Aos 22 minutos do primeiro tempo, Adriano Paulista acertou um chutaço no canto do goleiro e abriu o placar para o Juventus. O setor visitante explodiu. Seria a primeira vitória sobre a Portuguesa em 33 anos. Seria a segunda vitória do Juventus em 2016.

Por causa disso, quando o juiz apitou o final do jogo, uma parte da torcida cantou, outra parte se abraçou, mas a maioria cantou e se abraçou ao mesmo tempo.

"E na padaria, o portuguêêês
Não quis vendeeer
O sonho doce que o moleque quis comeeer
Já se acabooou..."

"Já se vê, já se vêêê
Quem não canta
é portuguêêês..."

Os "portugueses", do outro lado, faziam fila para sair do estádio e, cabisbaixos, se contentavam em xingar o próprio clube e chamar os rivais de almofadinhas.

Na rua Zurita, em um bar do tipo pé sujo, quatro derrotados afogavam as mágoas em cerveja quando o ônibus transportando os atletas do Juventus saiu do estádio. Os torcedores da Portuguesa então se levantaram. Diante da equipe que acabara de vencê-los e empurrá-los ao fundo da tabela, começaram a aplaudir.

"Jogaram muito!", gritavam para dentro do ônibus, com polegares ao alto para reforçar a intenção. "Isso é que é time!"

Não havia um pingo de sarcasmo naquelas palavras.

"Vamos confessar", iniciou um deles depois que o ônibus sumiu. "Essa torcida do Juventus é inacreditável. O que eles fizeram aqui hoje tem muito time grande que não faz."

Ninguém discordou.

Receba notícias pelo Facebook Messenger

Quer receber notícias de esporte de graça pelo Facebook Messenger?
Clique aqui e siga as instruções.

Veja também

UOL Cursos Online

Todos os cursos