Empresário diz ter sido vítima de golpes no Corinthians e provoca demissões

Dassler Marques

Do UOL, em São Paulo

  • Arquivo Pessoal

    Negócio que envolveu jovem Alyson, de 15 anos, derrubou dirigente no Corinthians

    Negócio que envolveu jovem Alyson, de 15 anos, derrubou dirigente no Corinthians

O empresário americano Helmut Niki Apaza gerou verdadeira caça às bruxas no Corinthians nos últimos dias.

Recentemente, Niki, que vive nos Estados Unidos, procurou o departamento jurídico corintiano no Parque São Jorge. Munido de documentos e reproduções de conversas de WhatsApp, o empresário disse ter sido vítima de dois golpes. O clube reconhece ambos episódios, que ocorreram entre o fim de 2015 e início de 2016, e ocasionaram a saída do gerente de divisão de base Fábio Barrozo, que era homem de confiança do ex-presidente Andrés Sanchez, além de outros funcionários do setor. 

Primeiro negócio: venda de direitos econômicos de jogador de 15 anos

Apresentado à direção do clube por meio do conselheiro e líder político Manoel Evangelista, mais conhecido como Mané da Carne, Niki decidiu investir no atacante Alyson, então na categoria sub-15. A negociação, coordenada por Barrozo, permitiria ao empresário americano adquirir 20% dos direitos econômicos do jovem por US$ 60 mil (cerca de R$ 240 mil na cotação da época). 

Ao departamento jurídico do Corinthians, Niki Apaza apresentou um papel timbrado com a marca do clube (ver abaixo), com a assinatura de Barrozo, e reivindicou a participação nos direitos do jogador. Nas conversas, o então gerente argumenta com o americano que Alyson interessava aos também empresários Wagner Ribeiro e Giuliano Bertolucci, mas que ele teria prioridade de compra.

Desde maio de 2015, vale lembrar, é proibida pela Fifa e pela CBF a cessão de direitos econômicos de jogadores para pessoas físicas e jurídicas. Quando o negócio foi feito com o empresário americano, Alyson sequer tinha contrato profissional assinado, o que reforça o caráter ilegal da operação. 

Segundo negócio: carta para representação do Corinthians nos Estados Unidos

Em meio à reta final do último Campeonato Brasileiro e também à negociação para adquirir direitos do garoto Alyson, o empresário Niki Apaza propôs a diretores do Corinthians representar o clube em negociações nos Estados Unidos. As conversas tiveram início em visitas dele ao CT Joaquim Grava e ao Parque São Jorge e se estenderam durante a excursão corintiana para a Flórida Cup, em janeiro. 

Em 4 de fevereiro deste ano, o diretor de futebol Eduardo Ferreira assinou carta (ver abaixo) em nome do clube com a seguinte mensagem: "O Sport Club Corinthians Paulista autoriza o senhor Helmut Niki Apaza como o representante oficial internacional de nosso clube com o propósito de estabelecer parcerias e/ou relações profissionais entre os clubes da Federação de Futebol dos Estados Unidos". 

Nas mensagens entregues ao departamento jurídico do clube, e às quais a reportagem teve acesso, Niki afirma ter investido 50 mil dólares (cerca de R$ 175 mil) para ter a carta, mas alega que o documento não tinha efeito. O empresário ainda recebeu outra carta em que seria autorizado a fazer negócios com o Columbus Crew, da Major League Soccer. Neste papel, porém, não constam assinaturas. De acordo com Fábio Barrozo, essa quantia foi usada para custear a ida de José Onofre Almeida, diretor da base, e a dele próprio, para os Estados Unidos. 

Corinthians diz que apura denúncias, explica demissão e vê negociação de Alyson como irregular

Rogério Mollica, diretor jurídico do clube, prestou os seguintes esclarecimentos.

"O presidente tomou ciência do caso e encaminhou ao jurídico porque envolvia o funcionário (Fábio Barrozo). Ele foi chamado, não explicou nada e pediu demissão. Estamos levantando mais elementos para encaminhar aos órgãos competentes". 

"Não participei da reunião com o empresário. Ele explicou o que houve, entregou documentos e começamos a levantar. Estamos vendo e vamos passar ao presidente e ao Conselho. Que eu saiba, ele não ingressou com nenhuma ação". 

"O clube não recebeu nada do empresário. O Corinthians é vítima". 

"Ao que me consta, as cartas (de representações) para empresários são comuns, existem muitas outras assim". 

"A carta (sobre direitos econômicos de Alyson) é assinada por quem (Barrozo) não tinha poderes para tal. Esse é um negócio completamente fora do normal". 

O que dizem Eduardo Ferreira e Niki Apaza

Eduardo Ferreira afirmou que a cessão de cartas para alguns empresários é procedimento comum dentro do clube. O diretor salientou, ainda, que foi autorizado pelos superiores. "Esta carta é comum no futebol para dar o direito à pessoa falar em nome do clube para aquele determinado assunto. Infelizmente as pessoas querem misturar as coisas colocando a maldade na frente. O que eu fiz foi defender os interesses do Corinthians, quando me foi solicitada a carta, eu comuniquei a direção, que me liberou para que eu a fizesse, como faço sempre". 

O empresário americano Niki Apaza se negou a conceder entrevistas. Em contato com a reportagem, ele disse que o caso está em posse de seu advogado, que também não atenderia jornalistas no momento. Niki se limitou a afirmar que os problemas com o Corinthians começaram justamente por conta da carta de representação e disse ter mais documentos, e-mails e provas guardadas. 

Fábio Barrozo, personagem central do caso, prestou os seguintes esclarecimentos:

Fábio Barrozo nega que tenha recebido pela venda de Alyson ao empresário americano Niki Apaza. De acordo com ele, os pagamentos referentes ao jogador foram feitos para Julio Cesar Polizeli, representante do jovem atleta levado ao Corinthians pelo conselheiro Mané da Carne. A carta de cessão de direitos econômicos entregue a Niki, vale lembrar, é assinada por Barrozo. 

Ainda segundo a versão do ex-gerente, a operação visava ressarcir Julio Cesar. Ao levar o atleta ao Corinthians, ele acordou que ficaria com uma porcentagem de direitos econômicos. Mas, como a legislação da Fifa vetou essa operação, Julio foi autorizado a vender uma comissão para Niki. Barrozo admite ter errado na redação da carta, que fala em direitos econômicos e não em comissão, e diz que participava normalmente de assinatura de contratos e trocas de e-mails em negociações de atletas. 

No que diz respeito às cartas de representações dadas, Barrozo assume ter assinado uma versão inicial em que, segundo ele, Niki Apaza era "autorizado a prospectar futuros negócios para o Corinthians, desde que o clube tenha anuência". O gerente diz que viajou aos Estados Unidos ao lado de José Onofre Almeida, diretor da base, com despesas totalmente custeadas por Niki. Ele afirma ainda que o americano prospectou negócios para jovens jogadores corintianos no Fort Lauderdale Strikers e no DC United. 

A reportagem tentou contato com Julio Cesar Polizeli, mas o empresário não respondeu as mensagens. 

"Essa é uma situação que vem de cima. Isso é cunho político e está além disso. Não está no Fábio, está mais em cima", sugeriu Barrozo. 

Reprodução
Cessão de direitos econômicas de Alyson foi assinada por Fábio Barrozo

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Empresário americano apresentou carta de representação feita pelo Corinthians

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