Reforço extracampo do Inter lembra até 7 a 1 contra 'emocional afetado'

Jeremias Wernek

Do UOL, em Porto Alegre

O Internacional tem um reforço de peso fora de campo na luta contra o rebaixamento. Líder no ranking brasileiro de coaching, fundadora de um instituto que possui filial nos Estados Unidos e em Portugal e criadora de uma técnica que promete comunicação clara, assertiva, influenciadora e empática. Tânia Zambon é a palestrante que tentará ajudar o time gaúcho a manter um de seus maiores patrimônios: jamais ter jogado a Série B.

Chamada às pressas para ajudar o elenco do Inter a lidar com a pressão por resultados, ela comandará nova dinâmica de grupo junto ao elenco nesta semana e garante que não há diferença entre jogadores e outros alunos que recebe em seus cursos.

Em entrevista ao UOL Esporte, Tânia Zambon afirma já ter sido procurada por dois outros clubes do Brasil para trabalhar como coaching, mas não vê o futebol como mercado principal.

Cita a seleção brasileira no 7 a 1 contra a Alemanha como exemplo, diz que combate a 'contaminação' emocional e tenta reativar padrões de comportamento junto aos atletas do time gaúcho.

"Quando o Inter me chamou, chamou com esse intuito. Trabalhar a equipe. O Brasil perdeu para Alemanha por não ter equipe, já entrou em campo derrotado. O que a gente vê é uma contaminação, o emocional afetado. O jogador que chega ao nível profissional tem potencial, para se manter tem que ter qualidade de alguma forma. Então o trabalho é para ativar potencialidades", conta.

UOL Esporte: Qual sua missão e trabalho com o grupo do Inter?

Tânia Zambon: O coaching é treinador, o próprio nome diz. E o raciocínio vem dos Estados Unidos. A minha referência é coaching de equipes. Sou a primeira no ranking do Brasil no quesito. Quando o Inter me chamou, chamou com esse intuito. Trabalhar a equipe. O Brasil perdeu para Alemanha por não ter equipe, já entrou em campo derrotado. O jogador para chegar lá tem potencial. Para se manter é pela qualidade. O que a gente vê é a contaminação. O emocional é afetado. Esse momento, de ativar potencialidades, é onde a gente entrar. Trazer de volta qualidades e competências. É como andar de bicicleta, você aprende pequeno e fica anos sem andar e aí precisa trazer à tona.

E como é trabalhar em meio a um campeonato, em meio a um processo?

O melhor trabalho de coaching seria começar em pré-temporada. A gente caiu de paraquedas no momento do Inter, mas o jogo do Flamengo foi decisivo. Ali fizemos um trabalho intenso. Eu tenho duas, três horas e uma palestra não resolve. A gente trabalha com oficinas. Tudo que a gente escuta logo esquece, mas o que a gente faz aprende. É como dirigir, só aprende se for lá no carro e treinar. A palestra é baseada em oficina. Readquirir o padrão comportamental. É um trabalho agressivo, que exige disciplina e concentração. E o foco foi só nos jogadores. Não entendo nada de estratégias, então trabalhamos apenas com os jogadores. Até brincaram na mídia que o time ia virar gladiador. Mas a vitória contra o Flamengo resgatou o emocional. Não conseguimos voltar depois, pelas agendas, mas aquela vitória mexeu. Marcou. Quando o trabalho é rápido, não há escolhas. Aquilo que normalmente mostro em seis dias, tive que expor em uma hora.

UOL Esporte: É possível atacar hábitos, dentro da teoria do poder do hábito, em um trabalho tão curto assim?

Tânia Zambon: Um hábito para ser realizado precisa ser repetido 21 vezes. É preciso estabelecer um ritual. É como ser um padeiro, com uma padaria maravilhosa que pega fogo. Mas se a gente encontrar uma garagem, dá para recomeçar? O cara que sabe, consegue. O que preciso desenvolver é o gatilho da habilidade dele. São técnicas especificas. Eu uso mais de 360 técnicas. Todos nós temos que ter a boa forma emocional. Ela exige que a gente se policie. E tem uma coisa que prejudica muito: a mídia. Ela já tinha decidido que o Inter estava na segunda divisão, não me entenda mal. Mas isso dá notícia, audiência. Existe rivalidade em jogo também. Se o Inter tivesse perdido para o Flamengo e fosse para o Gre-Nal em baixa, seria a glória para o outro lado. Então nós atacamos muito nisso. Depois do Flamengo não consegui mais pegar o Inter, pela agenda. A gente não é milagreiro, nada disso. A gente vai lá, faz trabalho que faz com outros tantos. Temos clientes que faturam R$ 1 milhão em 20 dias. A estratégia é trazer o que há de bom para fora. A nossa habilidade é essa, as pessoas tem as ferramentas lá dentro.

E influencia em algo na dinâmica o fato de mudar o alvo: sai o empresário, entra um time de futebol?

Não, não influencia. Uma empresa é um jogo, eu encaro assim. Quando trabalho com empresários, que é onde tenho maiores cases, vejo da mesma forma que um jogo de futebol. A empresa precisa de resultado, às vezes não vai ter gente que joga bem na empresa, mas dá resultado. Posso ter um time maravilhoso que não sai do zero, que precisa de resultado. É praticamente igual. Quando eu entro em cena, seja em uma empresa prestes a falir ou em um time, encaro da mesma forma. Atuo da mesma forma. Existe um presidente no time e na empresa, um gestor na empresa e um treinador no time. As empresas precisam de resultado. Ganhar sem um belo futebol não é problema meu, o que importa é o resultado. Tenho que trabalhar a equipe. O que não vejo diferença: a pessoa ali é um ser humano. Tanto o jogador como o grande empreendedor com conta de R$ 2 milhões, com pressão desgraçada em cima. Todos eles transam, comem, defecam e dançam. Todos são iguais.

E o fato de ser jogador de futebol, um profissional inserido em contexto bem diferente. Com grande dose de pressão, salário fora do padrão, exposição da figura na opinião pública?

Trabalhei 20 anos em UTI e é lá que se vê quem é fraco e forte. Estes gatilhos com o comportamento humano são minha maior bagagem. Esse gap que tive é que me dá ajuda no meu método. Essa metodologia serve de alavanca profissional e pessoal. Não consigo ver diferença. Tanto que foi bem tranquilo de trabalhar. Os meninos se entregaram, se permitiram. Sou mulher, poderia haver resistência, mas foi muito tranquilo. Para nós é algo extremamente difícil, o tempo é curto e o resultado precisa vir. O time que for esperto, fará coaching desde a pré-temporada. O Tite tem isso, o lado humano. Valorizar o lado humano. Saber lidar com a pressão é igual a de qualquer outro setor. O coaching é isso. Tira do estado atual para o estado desejado. Tira de onde está.

UOL Esporte: O trabalho com o Internacional pode abrir um nicho de mercado grande para você. Já tem planos para seguir atuando com times de futebol?

Tânia Zambon: Olha, dois times do Rio de Janeiro procuraram informações sobre o trabalho. A gente disse não. Quando estou trabalhando com um time, não posso atuar no concorrente. Não temos negociação com outro time. Terminou no Inter? Bom, agora vamos abrir (negociação). Mas o foco não é o futebol. O foco é no trabalho internacional. É bacana, eu gosto, adoro esportes, adoro futebol. Mas não vejo como nossa linha de trabalho. A nossa linha é o ser humano, seja na empresa ou não. Não vai mudar nosso foco. Nossa agenda já está fechada até 2020. É muito inteligente o gestor ter essa visão. Com coaching se chega mais rápido e mais longe. Se trabalha a parte emocional, mas poucos conseguem ver. Com certeza o Inter está sendo um precursor, está abrindo caminhos.

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