Lava-Jato, Mundial em 2024 e Manchester: Petraglia fala do Atlético-PR

Napoleão de Almeida

Do UOL, em São Paulo

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Mario Celso Petraglia é o principal nome do Atlético-PR nos últimos 21 anos. Controverso, é do tipo "ame ou odeie": coleciona inimigos e desafetos na mesma medida em que consegue seguidores fiéis, muitas vezes verdadeiros devotos de sua liderança. Seja como for, é impossível ignorar o que ele fez – de bom e ruim – pelo clube e pelo futebol brasileiro à frente do Atlético.

Petraglia raramente fala com a imprensa. Adotou uma distância da mídia, o que foi transferido para o clube institucionalmente até a chegada de Luiz Sallim Emed, o atual presidente de direito do Atlético-PR, uma pessoa de maior diplomacia, que abriu os canais com a imprensa. Petraglia é o presidente do Conselho Deliberativo e, embora não seja mais a cara do clube, ainda é a principal liderança lá dentro.

Na semana em que o Atlético-PR completa 93 anos, Petraglia foi a público. Não para dar uma entrevista, mas para falar a um grupo restrito de sócios, sem contrapontos. No entanto, a palestra de Petraglia foi transmitida ao vivo pelo YouTube. O UOL Esporte acompanhou o que o homem-forte do Atlético-PR projetou para o clube nos próximos anos e separou em tópicos.

Confira:

Copa 2014 e Lava-Jato

"Em 2005, poderíamos ter uma estrela da Libertadores no nosso peito, mas por questões políticas nos impediram. Acabamos sendo desmoralizados e indo jogar (a final contra o São Paulo) no Beira-Rio. Em 2006, o Brasil abriu mão da Copa, a Baixada já havia sido vistoriada para ser estádio da Copa. A Alemanha abrigou, a África seria em 2010, por conta do (ex-presidente africano Nelson) Mandela, para gente só sobraria 2014. Retornamos em 2007 a vinda da Copa para 14, trabalhamos politicamente muito forte. Tivemos brigas seríssimas na cidade com o Coritiba, com a FPF do Onaireves, que queria construir o estádio no Pinheirão. Trombamos de frente. Fomos escolhidos pela Fifa em 2009, mas já sabíamos que Curitiba estava dentro. E eu resolvi sair: 'chega, minha missão está cumprida'. Apoiamos a situação. E fomos traídos no dia da posse."

"Em 2011 conseguimos retomar o poder. Não seria nem a Triunfo, nem a OAS. Já conhecíamos essa história [em referência ao escândalo de corrupção investigado na Operação Lava-Jato] e criamos um conselho gestor pra construir o estádio. Caímos para a segunda divisão, voltamos, fizemos uma campanha maravilhosa de retorno. Iniciamos a construção do estádio, voltamos a primeira divisão. E nesses anos todos nós temos, o clube ficou voltado e destinado com todas as energias para construir esse belíssimo estádio, que tivemos oportunidade de aproveitar o trem bala do futebol Brasileiro, quem embarcasse voaria no futuro e quem ficasse na estação ficaria para trás."

"Nesta caminhada toda, de tudo o que planejamos, a nossa proposta dentro do conselho 2011 contra a OAS*, o que foi prometido, praticamente tudo foi cumprido. A forma que a gente pensou e imaginou que faríamos, aconteceu. Nós desapropriamos 13 propriedades no entorno da Baixada, temos aquela área da frente maravilhosa do boulevard, enriquecemos muito o projeto com a Copa."

*N.R.: Em 2011, a OAS fez uma proposta para o Atlético-PR para a assumir as obras da Arena. Marcos Malucelli era o presidente à época e colocou o projeto em votação para o Conselho. Petraglia articulou forças, apresentou uma proposta de que o clube criasse uma empresa gerenciada por ele para a obra e acabou vencendo a disputa dentro do clube.

As obras na Arena

"Em setembro de 2014, a Fifa nos devolveu o estádio completamente inacabado, pela falta de dinheiro, das condições todas. Conseguimos terminar para terem os jogos; São Pedro nos ajudou, não choveu, Curitiba foi a cidade mais bem avaliada. Foi um sucesso fora de campo. Dentro, foi aquele terrível 7 a 1. O nosso estádio, foi reconhecido o valor em 2014 pela Price [Waterhouse, auditora fiscal], não houve obra mais fiscalizada que o nosso estádio. Tivemos 141 licenças do Corpo de Bombeiros, que eles davam para os jogos, até que nos liberaram. Tivemos problemas elétricos seríssimos. Fizemos em janeiro de 2015 o teto retrátil. Estamos terminando o boulevard com as lojas e o estádio ainda não está 100%. Não tivemos condições de alugar as lojas. A Anvisa exige absolutamente tudo de nós, enquanto nos outros estádios fazem churrasquinho de gato. Tivemos que construir uma cozinha geral, está pronta. Fazer espaço para recepções de voluntários que trabalham nos jogos. Estamos organizando o estádio. Pode ser que no final de 2017 a gente consiga, para alugarmos as lojas e termos as receitas que havíamos planejado."

Veja o vídeo do projeto do complexo da Arena clicando aqui.

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Petraglia quer encerrar projeto da Arena da Baixada até o fim de 2017

Dívidas da Arena: Governo do Paraná assumiu dívida

"Temos objetivos de curto prazo que nós estamos trabalhando. Estamos trabalhando nesse ano - não sozinhos, mas com muita gente, a diretoria administrativa como um todo, colegas do conselho, para concluirmos rapidamente um acordo com Estado e Município. Que eles complementem o (acordo) tripartite com é de direito nosso, os valores que forem além no projeto de 2010. Tivemos inflação no período, várias razões para o aumento. O Estado já nos municiou de um documento que nos garante que o Estado assuma sua parte. Estamos trabalhando agora que o prefeito atual (de Curitiba, Rafael Greca, do PMN) assuma isso. Ficaremos com a parte do Atlético para pagar em 20 anos. A única pendencia de dividas que temos."

Críticas à CBF e a Marco Polo Del Nero

"Em função da crise política, a copa virou uma Geni, essa coisa de PT e PSDB pelas eleições. A crise política... Vivemos uma fase extremamente difícil. E a pior de todas foi a crise moral. Da Fifa, da Conmebol, da CBF. O futebol estava na mão dessas pessoas que... A gente sabia. Felizmente os EUA se sentiram prejudicados com a Copa no Qatar e denunciou todo mundo. As pessoas estão aí no mesmo posto, se sentindo consolidadas, seguras. Nosso presidente da CBF (Marco Polo Del Nero, procurado pelo FBI e pela Interpol) não pode viajar para fora, senão pode ser preso. Essa crise, quando vai passar, se vai passar, não sabemos."

Mobilização da torcida atleticana

"Temos dois grandes itens que não conseguimos. Imaginávamos que assim que terminássemos o estádio, teríamos 40 mil sócios. Não conseguimos passar de 22, 23 mil. Bateu no teto, baixamos os valores, revimos os planos e realmente esse quesito não sei se vamos conseguir. Temos quase 100 mil CPFs diferentes que já foram sócios. E temos uma fidelização em torno de 22%. O sócio entra e sai. Temos uma condição em que saindo, só pode voltar um ano depois, para não ficar entrando em maio e voltando em novembro. Essa geração vai mais feliz que a minha, por que mais perdemos que ganhamos. Não fiz para enriquecer, fizemos um projeto para um clube que será um legado para a cidade. Isso é realmente o que nos motiva."

Campeão do mundo até o centenário (2024)

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'Até o nosso centenário, se continuarmos nessa consolidação, não tenho dúvidas que sermões campeões do mundo', diz Petraglia
"Estamos num momento espetacular do nosso projeto. Está a cada dia mais forte, está caindo de podre para o Brasil, a olhos vistos. A consolidação, as dívidas que não temos, nós somos bons exemplos no Brasil e nas Américas. Agora mesmo o nosso pessoal que esteve lá na Colômbia visitou vários clubes e é um orgulho muito grande de que o pessoal se baseia no Atlético Paranaense para sistemas de Centro de Treinamento. Isso nos dá, nos assegura, a gente sonha um dia e começa a materializar. Não tem fim; tem começo e meio. Depende de nós, o que a gente quer para o nosso clube. Vai fazer 93 anos e com certeza durará mais 100, sei lá quanto. Depende dos futuros atleticanos. Da forma que nós estruturamos o projeto, em 10 anos, até o nosso centenário, se continuarmos nessa consolidação, não tenho dúvidas que sermões campeões do mundo. Nenhuma dúvida."

Inspiração no Manchester United

"Quando nós estivemos (na Inglaterra) em 1997 para conhecer o Manchester United, que em grande parte nos copiamos, eles já estavam trabalhando na Ásia. Hoje eles já tem 560 milhões de consumidores do Manchester United no mundo - não são torcedores, mas entram no site, querem saber notícias. O Barcelona também. Torcedor vai torcer para o time do seu pais, mas ele quer a camisa do Barcelona, dará audiência a TV do Barcelona e tudo isso é transformado em dinheiro."

"São premissas fundamentais. Se não somos os maiores, temos que ser os melhores. Não temos as maiores receitas, não estamos no eixo Rio-SP, não temos o histórico do Rio Grande do Sul e nem a proximidade de Minas Gerais, com uma história forte com São Paulo e Rio. Dentro da nossa realidade, formatamos um projeto. Continuamos com nossos objetivos firmes e fortes na formação. Estamos cada vez mais investindo nisso."

Expansão para os EUA

"(O Atlético-PR tem) parceiras em toda a América do Sul. Agora com o Orlando City. Vamos mandar jogadores acima de 14 anos para estudarem nos EUA e se formarem no Orlando City. Nós não teremos condições de formar os onze (jogadores) em casa. Conseguiremos jogadores acima da média em algumas posições, mas temos que buscar recurso para melhorar isso. Mesclar, buscarmos jogadores para atingirmos nossos objetivos."

Vaidade pessoal

"Ninguém fez isso no Brasil. Nas Américas não tem. E no mundo, clubes que não tem dono, não existe um projeto de transformação. É cabotino da minha parte, parece presunçoso. Mas a liderança foi nossa, claro que pessoas ajudaram, mas o sonho foi nosso."

"Nunca investimos em futebol"

"Brincam que eu gosto de uma obra... E é verdade. Obra você tem controle no começo meio e fim. Viabiliza e constrói. Na bola não é assim, você pode não trazer os resultados. Não que não haja motivação pra investir. Mas o projeto CAP Gigante (nome de sua chapa na última campanha) foi de fazer essa infraestrutura. Nunca investimos seriamente em futebol. O maior foi um de US$ 800 mil, o Alex Mineiro, fez oito gols nas finais e seria um desatino em não ficar com ele. Investimos milhões e milhões em tecnologia e infraestrutura do clube, nos preparando para o futuro. Mesmo com problemas de caixa, fizemos um ginásio e uma academia moderníssima no CT, ou seja: infraestrutura, infraestrutura, infraestrutura. Para competir com aqueles considerados grandes."

"Se a gente esperar que eles vão distribuir melhor as rendas de TV, não acontecerá. Temos que cuidar melhor da nossa vida. Mesmo assim, em 2005, tivemos o vice campeonato (da Libertadores) e depois um interregno de bons resultados. Mas em 2013 fomos pra final da Copa do Brasil e para a quarta Libertadores; ano passado, para a quinta. Mesmo preparando o futuro, em relação ao pouco que investimos em futebol, ainda tivemos bons resultados. Atribuo mais a infraestrutura do que a investir para ganhar. Chegou a hora? Chegou. Estamos praticamente finalizando nosso projeto de infraestrutura, imagem e tecnologia, profissionalização do clube."

Conquista de títulos

"Está infinitamente mais fácil agora. Com tudo isso, a imagem nossa é muito boa. O projeto tem sido avaliado e muito bem reconhecido, até fora do Brasil. Nessa caminhada até chegarmos a sermos campeões do Mundo, temos condições de ganhamos os estaduais, que vínhamos (jogando) com (o elenco) Sub-23. Ano passado ganhamos no mata-mata com nosso principal adversário por 5 a 0 nos dois jogos. Ganharemos outros. Não gosto dessa competição, ultrapassada, que só dá prejuízo. Com certeza vamos ganhar campeonatos brasileiros, Copa do Brasil, temos condições de ganhar Libertadores. Cada vez mais nosso projeto vai entrar nas competições sendo reconhecido. De que entrou para ganhar a competição. Dentro de tudo que podemos ser e fazer, eu sempre garanti que nós seriamos que nos seriamos um dos maiores clubes do Brasil e das Américas. E somos."

Proibição à grama sintética

"Eu não vou me reportar. Vocês sabem de onde surgiu**. o absurdo que é. Como isso vai vazar, estamos gravando, não vamos entrar nisso. Isso é um absurdo, por favor. A história vai resolver. Eu me nego a falar sobre grama sintética. Não seriamos levianos de investir o que investimos se fosse pra tirar. Acreditem, é só isso que eu peço."

**N.R.: Quinze clubes da Série A do Brasileiro votaram pela proibição do uso da grama sintética a partir do Brasileirão 2018, depois de um pedido do presidente do Vasco, Eurico Miranda, desafeto de Petraglia.

Relação com a torcida organizada

"A hora que eu morrer e eu virar uma caveira (exatamente o símbolo da principal organizada do clube), se vocês quiserem usar... Brincadeiras à parte, o Atlético-PR tem caminhado com a torcida organizada. Já tivemos conflitos, mas hoje estamos de uma maneira inteligente e cordata. E não será pela caveira que a Fanáticos deixará de apoiar o Atlético, com o amor que eles tem pela instituição. Tenho certeza que seremos mais fortes."

Criação de uma TV própria

"Vamos criar em cima dessa experiência que tivemos com o Atletiba, que não vendemos o Estadual, foi um sucesso via web, YouTube, Facebook e vamos continuar nessa caminhada e vamos criar o CAP Play, que vai passar todo o conteúdo que não seja por enquanto a partida. Teremos outros conteúdos que não trombem com o sistema e os compromissos a curto prazo. Até 2024, a Globo já comprou a maioria dos clubes do Brasil. Nós queremos veicular esse conteúdo todo do Atlético, que tem uma forca muito grande. Lamentavelmente não vamos poder transmitir as partidas por que ainda depende do adversário concordar. Partidas ao vivo acho muito difícil, quem sabe se coincidir no Atletiba teremos condições de fazê-lo."

Parceria com o rival Coritiba

"Pela primeira vez na história... No Coritiba se sucederam gestões, nós estamos há mais tempo. A gente tem ido a luta, Coritiba e nós, isso nos dá uma força maior. A atual gestão entendeu que seria melhor para a instituição, as outras não pensavam assim. Conseguimos essa da Primeira Liga, o Esporte Interativo, estamos aí no G5 juntos (grupo com a dupla Atletiba, Santos, Palmeiras e Bahia para negociação conjunta de direitos de TV). Vamos tentar vender juntos, o Coritiba tem a mesma cota que nós, é tão injustiçado quanto. Juntos temos mais força. Essa parceria está muito boa, está ótima. Claro que tem uns desencontros. Eles cuidam da vida deles; nós, da nossa. Quando são interesses comuns, estamos juntos. Quanto mais forte o adversário for, melhor pra nós."

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