Na mira corintiana, revelação da Ponte joga pelo pai perdido aos 20 anos

Dassler Marques

Do UOL, em São Paulo

  • Denny Cesare/Estadão Conteúdo

    Clayson, uma das revelações da Ponte, celebra gol marcado contra o Corinthians

    Clayson, uma das revelações da Ponte, celebra gol marcado contra o Corinthians

Entre as principais novidades do Campeonato Paulista e possível reforço corintiano para o Brasileirão, o atacante Clayson tem um motivo especial para se desdobrar pela finalista Ponte Preta: a memória do pai. Rubens, que segundo amigos e treinadores era e ainda é a pessoa mais importante para a revelação de 22 anos, deixou um vazio na carreira do filho quando morreu vítima de um tumor no intestino.

Inseparáveis até 2015, Rubão, como é chamado, e o filho revelação do Paulista, seguem ligados pelos laços criados em duas décadas em que viveram juntos. Responsável por leva-lo aos primeiros testes no União São João de Araras, Rubens também assumiu a criação direta depois que a mãe de Clayson e ele se separaram, o que aumentou um sonho que tinha enquanto trabalhava como porteiro em Botucatu: ver o rebento se tornar jogador de futebol. 

O caminho não foi simples e incluiu passagens pelo União São João, pelo Grêmio, do qual saiu mesmo tendo alcançado destaque, Ituano, em que estreou profissionalmente, e finalmente com a Ponte Preta. "Às vezes, discretamente, ele chora de saudades do pai. Quando termina o jogo, puxo a orelha se tenho de puxar, mas quando elogio a primeira coisa que ele fala é 'o Rubão está feliz no céu'", conta Edvaldo Ferraz, agente de Clayson desde os 15 anos. 

A primeira Copa São Paulo e a saída do Grêmio após se destacar na Alemanha

Arquivo Pessoal
Clayson, Rubão e Edvaldo nos tempos de Grêmio, em 2012

Personagem importante na formação da carreira de Clayson, o empresário Edvaldo conheceu o jogador aos 15 anos, em um amistoso por um combinado de Indaiatuba contra, curiosamente, a Ponte Preta. Fora indicado por Alemão, amigo em comum.

Naquele jogo-treino, o garoto marcou quatro gols e convenceu o agente de que tinha um futuro promissor. Naqueles tempos, vivendo em Botucatu, a vida era apertada para o pai Rubens Vieira e ele. "O Rubão carregava ele nas costas desde os oito, dez anos de idade. Tinha o sonho de vê-lo como jogador profissional", relata Edvaldo. 

Aprovado pelo União São João aos 16 anos, Clayson não precisou de muito tempo para atestar suas qualidades. Meses depois da chegada, em disputa da Copa São Paulo de 2012, impressionou observadores do Grêmio e acabou adquirido por empréstimo até dezembro. Antes da saída, atuou profissionalmente sob o comando de Paulinho McLaren, então treinador da equipe de Araras.

Já no Sul, Clayson se destacou logo e, em poucos dias, foi campeão de um torneio de base na Alemanha como titular e um dos artilheiros. Acabou promovido do Sub-17 para o time B, mas na troca de gestão entre 2012 e 2013 foi liberado por falta de acordo com Rui Costa, então diretor executivo.

Já na época a relação próxima de Rubão e filho, que pela primeira vez vivia em outro estado, era motivo de comentário. "Alertamos que tinha de encarar essa distância, e o garoto entendeu tudo muito bem", conta Marco Biasotto, então responsável pela base gremista. 

No Ituano, ascensão meteórica e mudança para a Ponte Preta

Miguel Schincariol/Ituano
Ituano foi primeiro clube de Clayson entre os adultos

Oferecido a Juninho Paulista, responsável pela gestão do Ituano, Clayson saltou em pouco tempo do Sub-20, em 2013, para os profissionais, no ano seguinte. Foi Doriva, na campanha de título estadual, quem deu as primeiras oportunidades. Depois dele, veio Tarcísio Pugliese, que encontrou um atleta melhor preparado para virar titular e se destacar durante 2015.

"Ele é muito inteligente e intenso, mas um atleta que leva a carreira muito a sério, é bom de trabalho. Assume responsabilidades, quer vencer, não aceita as derrotas", relembra Tarcísio. "Ele mostrava que ia ser diferente. Em 2015, no Paulista, vivi uma situação curiosa, de ele não começar tão bem e a própria diretoria me cobrou um argumento para tira-lo do time e eu disse que não, que ele iria render. O limite dele vai ser aquele que ele estabelecer", conta. 

"Eu era auxiliar quando o vi treinar e falei 'é um menino diferenciado, muito bom'", recorda Doriva. "O Roberto Fonseca, treinador, deu oportunidades, depois ele fez mais uma Copa São Paulo como titular e sempre vi muito talento. Ele tinha qualidade, passava por um processo de amadurecimento. Tanto que depois, quando eu estava na Ponte Preta [Brasileiro 2015], falei 'vamos trazer', ele é do perfil do Biro-Biro [seria vendido à China]. Ele entrou em todos os jogos e na sequência a Ponte comprou em definitivo", comentou. 

O maior desafio da vida de Clayson

Arquivo Pessoal
Clayson chegou aos 16 anos para jogar pelo União São João

No segundo semestre de 2015, levado à Ponte Preta, Clayson deu a maior alegria da vida do pai e grande incentivador, Rubens. "Me lembro que mandei a ele fotos da apresentação e ele chorou bastante", recorda Edvaldo Ferraz. Dias depois, com apenas 53 anos, Rubão teve um mal súbito em casa e morreu em meio a uma luta contra um tumor de intestino. O filho estava concentrado para enfrentar o Vasco e recebeu a notícia por Doriva. 

"Falei para ele ter calma, o empresário vinha buscar com a namorada e o levaram. Procuramos dar o suporte ao dar a notícia, conversar, os jogadores também deram muita atenção a ele. O Clayson mostrou uma maturidade muito grande e dois dias depois estava treinando novamente", lembra Doriva. 

"O pai dele era um cara que acompanhava a carreira toda, era um porto seguro e em quem o Clayson tinha uma confiança imensa. Perdeu o pai no momento mais legal da carreira, de crescimento", comenta Tarcísio. "Mesmo com uma família pouco estruturada, é um garoto vitorioso. Tenho orgulho de ter trabalhado com ele", acrescenta. 

Depois de um 2016 de começo difícil, em que sofreu críticas de torcedores, Clayson cresceu sob o comando de Eduardo Baptista e acabou o último Brasileirão como titular. Fez, inclusive, um gol contra o Corinthians que agora espera contar com seu reforço para o próximo semestre. Antes, ao lado de Lucca e Pottker no ataque da Ponte, tem duas oportunidades de ouro: a maior conquista da equipe de Campinas e dar mais um prêmio para o pai Rubão.

A negociação com o Corinthians

As conversas pela contratação do meia-atacante se iniciaram na reta final da primeira fase do Paulistão e serão retomadas depois da final. A Ponte Preta (tem 40% de direitos econômicos; Ituano tem 60%) tem multa estabelecida em torno de R$ 10 milhões pela rescisão de contrato, mas está disposta a conversar. Uma das possibilidades é o envio de um jogador por empréstimo no negócio

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