Ação de Doria para embelezar SP tira esporte de bairro e revolta moradores

Adriano Wilkson

Do UOL, em São Paulo

Na primeira semana de sua gestão, em janeiro deste ano, o prefeito João Doria (PSDB) fez um mutirão para limpar a praça 14 Bis no centro de São Paulo. Durante o processo, ele também retirou da praça pessoas em situação de rua e as realocou provisoriamente em uma quadra poliesportiva que fica embaixo de um viaduto na avenida Nove de Julho. A ocupação foi crescendo e tomou uma segunda quadra poliesportiva, o que vem impedindo crianças e adolescentes de praticar esportes em um bairro carente de espaços públicos.

Nove meses depois, a situação não apenas não foi resolvida como se agravou, a ponto de criar um clima de tensão entre dois grupos: o dos sem-teto, que dizem que só sairão se tiverem um lugar melhor para ir, e o dos moradores, comerciantes e empresários do bairro, que querem a desobstrução de seus espaços de esporte e lazer. 

Os dois lados já dão sinais de revolta.

"O João Doria colocou o pessoal aqui, ele tem que encontrar uma solução pacífica para tirar", disse José Antônio Moreno, um ex-presidiário que hoje trabalha com reciclagem e tem um barraco na ocupação.

"Estamos cansados de promessas, promessas e promessas, queremos ação", disse o empresário Maicon Ferreira, que vive em um apartamento próximo à área ocupada.

O grupo de moradores, comerciantes e empresários se articula para fazer uma manifestação nos próximos dias para chamar a atenção da prefeitura.

Ao tirar os sem-teto do entorno da praça e os alojar nas quadras, a prefeitura prometeu que em até 90 dias os encaminharia a abrigos municipais. Também prometeu que lhes ofereceria trabalho para que pudessem pagar por moradia fixa. Apenas 11 pessoas conseguiram emprego, através do programa Trabalho Novo, segundo a própria prefeitura. "A solução vai ser o João Doria cumprir o que ele prometeu", disse Emerson Aguiar, um dos sem-teto que ocupam as quadras poliesportivas, antes usadas por um time do bairro.

Marcio Komesu/UOL

Em reuniões com representantes da prefeitura, o grupo formado por moradores, empresários e comerciantes do bairro tem pleiteado a construção de um playground, uma academia para a terceira idade e uma quadra poliesportiva embaixo do viaduto. Segundo eles, em uma dessas reuniões, a prefeitura regional da Sé se comprometeu a entregar os equipamentos até agosto.

Como isso não aconteceu, os ânimos se exaltaram. Em uma acalorada reunião na última semana em um condomínio da região, os insatisfeitos planejavam fechar o trânsito da av. Nove de Julho, importante via no centro da cidade.

Em janeiro, o UOL Esporte publicou uma reportagem mostrando que o programa de zeladoria urbana Cidade Linda, recém-inaugurado, tinha danificado uma das quadras. Na ocasião, a quadra ainda estava liberada e os adolescentes ainda podiam jogar. Meses depois, ela acabou ocupada por outras famílias de sem-teto, desalojando a equipe.

Em um e-mail enviado à redação no dia 6 de janeiro, a prefeitura dizia que sua expectativa era que as pessoas fossem encaminhadas a vagas de acolhimento, moradia e emprego "o mais breve possível".

Quadra construída por hospital permanece fechada

A mobilização de vizinhos e comerciantes da Bela Vista conseguiu junto à prefeitura a liberação da construção de uma terceira quadra poliesportiva ao lado das que estão ocupadas. A obra foi feita pelo hospital Sírio-Libanês. O espaço está pronto, mas os moradores reclamam que até hoje a prefeitura não liberou a chave. "É uma quadra para inglês ver", disse Décio Gonçalves, que vive na Bela Vista há 48 anos e tem dois filhos. "Eles passam o dia inteiro dentro de casa por não ter o que fazer fora."

Marcio Komesu/UOL

Até semana passada, algumas crianças jogavam bola na quadra fechada com correntes e cadeado pulando uma grade de mais de dois metros ao lado da avenida, situação que os moradores consideram "clandestina" e "perigosa".

Segundo a prefeitura, a "supervisão de esportes deve começar a organizar a utilização do espaço nos próximos dias". A quadra custou R$ 132.800, e foi bancada integralmente pelo hospital, diz a prefeitura.

Tantos os habitantes do bairro quanto os sem-teto que ocupam as quadras antigas dizem que a melhor situação seria a liberação dos espaços. 

Dentro da ocupação, mulheres, crianças e pessoas doentes vivem em condições sofríveis, em barracos improvisados e com condições mínimas de higiene. No local não há banheiro, por exemplo. A prefeitura ainda instalou uma tela em volta da ocupação, o que impede o contato visual entre quem está dentro e quem está fora.

Marcio Komesu/UOL

Os sem-teto também convivem frequentemente com o medo de uma retirada à força e a possibilidade de confronto com a polícia. Muitos dizem que já passaram por situações como essa e que perderam pertences e documentos nessas ações.

Segundo os outros moradores do bairro, desde que a ocupação surgiu, aumentou a sensação de insegurança na região. Comerciantes se dizem vítimas de furtos e roubos.

"Estou há nove meses falando todo dia com a prefeitura. Todo dia eles passam um prazo diferente para resolver o problema", disse Maicon Ferreira, que diz ter votado em Dória nas eleições de 2016. "Estou vendo a hora que isso aqui vai virar uma nova cracolândia."

Cravado no centro de São Paulo, o bairro da Bela Vista tem poucas opções de áreas verdes e espaços públicos para o esporte. Sua população é majoritariamente de classe média e há muitas crianças e idosos.

O que dizem a prefeitura e o Sírio-Libanês

Procurado pela reportagem, o hospital Sírio-Libanês disse, via assessoria de imprensa, que construiu a quadra e que "todas as respostas sobre ela devem ser buscadas com a prefeitura".

Já a prefeitura afirmou que em janeiro o número de pessoas em situação de rua na região era de 120 e que hoje apenas um terço, cerca de 45, continua no local. Esse número é contestado tanto pelos sem-teto quanto pelos demais moradores e comerciantes do bairro. Suas estimativas mais conservadoras consideram que há ao menos 60 pessoas vivendo ali. A sensação de todos é que a cada dia a ocupação fica maior.

A prefeitura também disse que busca parceiros privados para começar as obras de revitalização de todo o espaço abaixo do viaduto e que, por causa disso, a quadra já pronta não foi entregue à população.

Veja abaixo a íntegra da nota da prefeitura de São Paulo:

Em janeiro, quando a Prefeitura iniciou o diálogo com as pessoas em situação de rua sob o viaduto da Praça 14 Bis, havia cerca de 120 moradores na região. Apenas um terço continua no local – cerca de 45. Os moradores que aceitaram acolhimento foram direcionados para os Centros de Acolhida da Prefeitura, como o Complexo Prates, ou retornaram para o núcleo familiar. Onze pessoas também foram encaminhadas para vagas de emprego por meio do programa Trabalho Novo. Agentes sociais continuam o trabalho de aproximação e encaminhamento com abordagens aos remanescentes três vezes ao dia, para convencê-los a aceitar uma condição melhor do que a que se encontram hoje.

A Prefeitura Regional Sé informa que a quadra sob o viaduto da 9 de Julho ainda não foi inaugurada pois faz parte de um projeto maior de ocupação dos baixos daquele viaduto. A Prefeitura está captando parceiros para finalizar o projeto para o espaço anexo à quadra, cuja obra foi de R$ 132.800,00, integralmente bancada pelo parceiro privado, sem contrapartidas. Informa ainda que, nos próximos dias, a supervisão de esportes deve começar a organizar a utilização do espaço por moradores interessados em realizar a prática esportiva no local. 

 

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