Em litígio com Cruzeiro e abandonado pelo Galo. Qual o futuro do Mineirão?

Thiago Fernandes

Do UOL, em Belo Horizonte

  • Rodrigo Lima/UOL

    Projeto de novo estádio do Atlético-MG e ação contra o Cruzeiro complicam Mineirão

    Projeto de novo estádio do Atlético-MG e ação contra o Cruzeiro complicam Mineirão

O Mineirão não é mais o mesmo. Esta frase é escutada com frequência nas ruas de Belo Horizonte e, por mais que a ideia remeta à aparência física do estádio, é perfeitamente encaixada em outros aspectos. Desde a reinauguração, o local se tornou menos corriqueiro no cotidiano do povo mineiro e, com a construção da Arena MRV por parte do Atlético-MG, deve ficar restrito ao Cruzeiro.

Em 2009, última temporada completa do estádio antes do início das obras, foram sediadas 69 partidas dos dois principais clubes de Minas Gerais - 38 da Raposa e 31 do Galo. Oito anos mais tarde, o Gigante da Pampulha é usado em menos oportunidades. A média de jogos do Cruzeiro no local se mantém. O time celeste já mandou 31 compromissos no estádio em 2017 e terá pelo menos mais oito duelos no lugar - sete pelo Brasileirão e um pela final da Copa do Brasil. O Atlético, por sua vez, atua com menos frequência no local. Foram apenas três compromissos na atual temporada.

A somatória é de 42 confrontos dos dois maiores clubes do estado até dezembro. O número representa 61,76% do obtido em 2009.

"Preciso comunicar a todos os mineiros que o Mineirão não morreu e não vai morrer. Dizer que vai morrer é uma ofensa para os mineiros, não só para quem administra o Mineirão, mas para todos os mineiros que têm uma relação afetiva com o estádio. Cresci no Mineirão, sou mineiro, tudo o que quero é que esse patrimônio seja preservado. Só em 2017 recebemos 33 partidas de futebol, Delas, três foram do Atlético", disse Samuel Lloyd, diretor comercial da Minas Arena, em entrevista ao SporTV.

Apesar da certeza de Samuel, a verdade é que o local não conta também com o público de outrora. Com capacidade para 61.846 pessoas, o Gigante da Pampulha tem média de 17.620 em jogos da Raposa em 2017. A média do Atlético no local é superior - 35.057 -, mas a equipe alvinegra só esteve em campo em três oportunidades, uma vez que sedia seus compromissos no estádio Independência. No total, incluindo os jogos dos dois maiores rivais, de URT e Villa Nova, a média é de 18.939 pessoas.

No último ano antes de ser fechado para a realização de obras, o local comportava 64 mil pessoas. A presença das torcidas também era maior. Naquele ano, além dos jogos de Atlético e Cruzeiro como mandantes, o estádio recebeu outros três confrontos e contou com uma média de 28.406 torcedores por jogo.

Juliana Flister/Light Press/Cruzeiro

A queda do público serve para atestar a diminuição da relação com o local, mas há também outros aspectos. O Cruzeiro firmou um acordo de fidelidade com duração de 25 anos em fevereiro de 2013, trata o Mineirão como sua casa e não pleiteia construir um estádio próprio em breve. A intenção é se firmar no estádio. Inclusive, os dois concorrentes à presidência do clube tratam a manutenção no lugar como prioridade. Tanto Wagner de Sá Pires quanto Sérgio Santos Rodrigues comentaram o fato ao UOL Esporte recentemente.

As partes, porém, têm um imbróglio judicial desde março de 2016. Segundo o acordo, a Raposa tem a obrigação de pagar 70% das despesas de seus jogos, enquanto o restante é desembolsado pela concessionária. Contudo, os mineiros não arcam com esta parcela desde julho de 2013. O motivo, para a agremiação, é simples.

Os cruzeirenses pedem isenção desta taxa, tal qual a gestora fez com o Atlético na final da Libertadores 2013. A concessionária, por sua vez, aguarda o pagamento. A discussão foi levada à Justiça pela empresa que administra o estádio.

"A relação é longa, um contrato de 25 anos, e existe uma cláusula desse contrato que precisou de um juiz para mediar. O que originou o problema foi a final da Libertadores. Quando não há uma questão clara no contrato, que há uma discordância, existe a necessidade de se resolver judicialmente. Fomos à justiça para pedir o pagamento de 70% das despesas de jogo devidas pelo Cruzeiro. O Cruzeiro entende que não deve, porque lá atrás o Atlético diz que jogou sem ter de pagar esse valor. Mas uma coisa não tem relação com a outra. O que o contrato diz é que, caso a concessionária firme acordo de fidelidade com outro clube, o Cruzeiro tem a chance de assumir os mesmos direitos e obrigações que aquele contrato tem. Não tivemos contrato com o Atlético. Já tivemos duas decisões favoráveis na Justiça, mas a ideia é tentar o diálogo com o clube", contou Samuel Lloyd à ESPN Brasil.

Já o Atlético tem uma parceria com a LuArenas [antiga BWA], gestora do Independência, e costuma mandar os seus compromissos no estádio do América-MG. A aprovação da Arena MRV no Conselho Deliberativo do Atlético em 18 de setembro, acende o alerta da Minas Arena em relação à possibilidade de perda absoluta do clube.

O curioso é que, pouco depois de acertar o acordo com o Independência, o Galo apresentou três ofertas à Minas Arena, todas negadas pela gestora. O UOL Esporte conversou com uma pessoa ligada à cúpula do clube e confirmou o fato.

Washington Alves/VIPCOMM

O clube, a princípio, queria uma participação percentual em bares, estacionamentos e camarotes de seus jogos, aceitando pagar as despesas de aluguel entre 11% e 22% da arrecadação.

A segunda tentativa foi dividir as rendas de bares, estacionamentos e camarotes de suas partidas, mas sem pagar aluguel ou desembolsando um valor reduzido. Por fim, a diretoria atleticana tentou pagar um valor fixo por jogo e ter direito à participação de bares, camarotes e estacionamentos.

Nenhuma das tentativas agradou à Minas Arena. O fato fez com que a parceria com o Campo do Horto se fortalecesse. De lá para cá, as aparições do Galo no principal estádio de Minas Gerais foram reduzidas, o que é normal para Reinaldo, atacante que defendeu o Atlético-MG nas décadas de 1970 e 1980. Maior artilheiro da equipe no Mineirão, com 153 gols assinalados, o ex-jogador apoia a construção da Arena MRV por parte da agremiação:

"Acho importante o Atlético ter o seu estádio, é um clube que terá a sua independência, a sua autonomia. E então é importante ter seu estádio. O Mineirão, com essas negociações que tem feito, fará falta em jogos de grandes decisões. Mas no decorrer do campeonato o Mineirão é até grande demais", disse o ídolo à reportagem, citando a sintonia de décadas passadas:

"Há a sintonia com a massa do Galo, porque além de ser um espaço muito agradável, em uma região boa como a Pampulha, havia ingressos populares e uma presença maciça de 60, 70 mil pessoas sempre. Isso dava uma grande força para o Galo jogar lá".

Como a Arena MRV tem inauguração prevista para 2020, Samuel Lloyd, diretor-comercial da Minas Arena, prevê a possibilidade de utilização do estádio por parte do Galo até a data.

Divulgação/Atlético-MG

"Tem três anos pelo menos para a construção. Até então, o Atlético-MG continua jogando no Mineirão. As portas estão sempre abertas para qualquer clube que queira manter um contrato com o Mineirão, e a gente é muito flexível na negociação também", afirmou ao SporTV.

Nesta quarta-feira (27), o Mineirão receberá um de seus maiores públicos na temporada. O local sediará a finalíssima da Copa do Brasil, entre Cruzeiro e Flamengo, às 21h45 (de Brasília).

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