"Reforços indesejados" estão no epicentro da crise entre Dorival e SP

Bruno Grossi e José Eduardo Martins

Do UOL, em São Paulo (SP)

  • Marcello Zambrana/AGIF

    Dorival acredita no time com os garotos, embora tenha escalado os reforços

    Dorival acredita no time com os garotos, embora tenha escalado os reforços

Depois de derrotas seguidas para Santos e Ituano, Dorival Júnior virou alvo em meio a uma nova turbulência do São Paulo. O técnico ficou exposto, recebeu cobranças da diretoria por desempenho e resultados e também externou suas insatisfações. Segundo apuração com pessoas próximas, uma delas está nas contratações de Nenê e Tréllez, consideradas por ele desnecessárias e um empecilho para o desenvolvimento de jovens. Mesmo assim, nos últimos jogos, preferiu usar esses reforços "indesejados" em vez dos garotos. 

Esse movimento que soa contraditório causou questionamentos sobre uma suposta ingerência da diretoria na hora de escalar o time, forçando a entrada dos atletas. O cenário foi rechaçado pelo próprio Dorival. Diretor-executivo de futebol, Raí fez questão de ressaltar, em entrevista ao Globoesporte.com, a "confiança" e a "autonomia" no trabalho do técnico. Então, por que Nenê foi titular em todas as partidas desde que chegou? E Tréllez, por que furou a fila de Brenner como centroavante reserva?

A ideia era mostrar, na prática, que os jogadores escolhidos não se encaixam no perfil do time, deixando o time mais lento e engessado. Na visão do treinador, não dar uma chance aos recém-contratados aumentaria a pressão no São Paulo, o que ajuda a complementar a explicação. Se mantivesse Shaylon como titular e deixasse Nenê no banco, havia o temor de que o jovem, que ainda não convenceu, fosse engolido por críticas da torcida e da imprensa e pela sombra do veterano contratado do Vasco. O mesmo se aplica à concorrência Tréllez-Brenner, embora o ex-centroavante do Vitória cause muito menos barulho do que o próprio artilheiro badalado de Cotia.

Dorival sempre foi apontado como um profissional respeitoso, que não entra em conflito com os superiores e evita reclamações. Quando perdeu Hernanes e Pratto, por exemplo, encarou com naturalidade e mostrou discurso de "arregaçar as mangas e trabalhar com o que tem". A contradição, ou o limite da paciência do técnico, é que agora ele admitiu desagrado com as contratações que não estavam em seus planos.

Com Diego Souza, Jean e Anderson Martins, houve consenso. Valdívia era um pedido do treinador. Gabigol também era um ponto comum, mas o Santos foi mais eficiente nas negociações. Dorival ainda sugeriu Robinho, rejeitado por razões institucionais: o São Paulo não quis negociar com o jogador, condenado por violência sexual na Itália.

O discurso de diretoria e comissão técnica já esteve alinhado quanto à confiança de que os jovens podem render. A presença dos garotos promovidos entre 2017 e 2018 era vista como solução para evitar gastos em negócios periféricos e ainda valorizar o que é produzido em Cotia. Brenner e Shaylon começaram jogando bastante, mas passaram a entrar cada vez menos e com tempo limitado. Outros, como Paulinho Boia e Caique, aparecem e somem como alternativas. Já Paulo Henrique e Pedro Augusto jogaram só na estreia e revezam no banco de reservas.

A diretoria, obviamente, nega que contrate alguém com a obrigação de jogar e apresenta argumentos para a situação de Nenê. Foi uma oportunidade de negócio, sem custos, de salários compatíveis à realidade do clube e que surgiu no momento em que Christian Cueva recebeu proposta para sair e se rebelou por ficar na reserva. Se o peruano fosse caso perdido e saísse, ter um nome de peso como Nenê seria uma forma de amenizar os prejuízos para o elenco e acalmar a torcida com uma reposição rápida. 

Com a reunião de quinta-feira, diretoria e Dorival puderam jogar limpo, abrir o jogo. Isso pode dar fôlego ao treinador, que se sentirá mais seguro para retomar suas convicções e seus ideais de futebol. Para os dirigentes, principalmente com o posicionamento de Raí, é uma chance de mudar o histórico recente de trocas constantes no comando da equipe, de provar que o respaldo não é raso. O diálogo apareceu como caminho para quebrar os paradigmas do clube. Pelo menos até a página dois.

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