Jovem venceu vergonha e diz que negou chance no Santos para denunciar abuso

Gabriel Carneiro

Do UOL, em São Paulo

  • Divulgação/Santos FC

    CT Meninos da Vila recebe as categorias menores do Santos, em que Ruan Petrick atuou

    CT Meninos da Vila recebe as categorias menores do Santos, em que Ruan Petrick atuou

Ruan Petrick marcou três gols pelo Santos no Campeonato Paulista sub-13 de 2011. Muitos garotos (muitos, mesmo) sonham em ser jogadores de futebol, mas poucos conseguem fazer três gols pelas categorias de base de um dos times que mais revelam talentos no Brasil. Isso significa que Ruan Petrick esteve mais perto de realizar este sonho do que muitos (muitos, mesmo) outros garotos. Sete anos depois, aos 19, ele está sem time e no centro de uma grande polêmica: apresentou denúncia de abuso sexual contra um dirigente do clube, que nega a acusação.

O Boletim de Ocorrência contra Ricardo Crivelli, conhecido como Lica, foi registrado na 4ª Delegacia de Repressão e Combate à Pedofilia, que fica no prédio do DHPP (Divisão de Homicídios e Proteção à Pessoa), em São Paulo, há dez dias. O coordenador da base do Santos (observador técnico na ocasião do relato de Ruan) está afastado de suas funções enquanto aguarda determinação para ser ouvido sobre as acusações. Por sua vez, o responsável pela denúncia não se arrepende do que fez mesmo que isso, segundo ele, tenha custado a chance de jogar outra vez na Vila Belmiro.

"Eu estaria voltando para o Santos agora, ia retomar minha carreira, meu empresário (Luciano Pereira) estava negociando lá. Diziam que seria boa essa volta, porque eu iria reencontrar o Lica, que estava comandando a base e trabalhava na minha época também. Aquela informação fez as coisas se complicarem na minha cabeça. Ali eu senti aquela insegurança e as pessoas perceberam. Falei para o meu empresário e para o meu pai e eles me aconselharam a fazer a denúncia. Praticamente abri mão de jogar no Santos para fazer essa denúncia, mas não me arrependo", conta Ruan Petrick, ao UOL Esporte.

De acordo com as informações relatadas no B.O., Lica é acusado de abusar sexualmente de Ruan em março de 2010, quando o garoto tinha 11 anos de idade. Além do relato do jogador, uma testemunha confirma a mesma versão, e a partir da abertura de inquérito o caso passa a correr em segredo de Justiça.

Ruan relata que o caso ocorreu quando ele e outros garotos estavam concentrados em uma casa em São Paulo, à espera de oportunidades no futebol - boa parte destes jovens jogadores vinham de locais distantes, no caso de Ruan a cidade de Marabá, no Pará. "Eu estava dormindo um certo dia e ele dormiu no mesmo local que eu. Foi quando ele tentou, passou a mão em mim. Aí eu acordei e não reagi muito. Achei estranho, mas não reagi. Foi quando ele me aliciou e fez sexo oral em mim. Depois voltei a dormir e quando eu acordei ele não estava mais lá. Foi uma situação realmente desagradável de ficar falando e comentando", relembra.

De acordo com o acusador, depois desta noite ele foi aceito nas categorias de base do Santos e permaneceu por um ano e meio. Neste período é que ele marcou três gols em uma edição do Campeonato Paulista sub-13. Deixou o clube, segundo ele, por não aceitar novas investidas de Crivelli. O pai de Ruan, Régis Santana, disse que estava na mesma casa no dia do ato, e que Lica "nem viu" seu filho jogar futebol antes de levá-lo para o Santos.

Pedro Ernesto Guerra Azevedo/Santos FC
Referência em formação de jogadores no Brasil, Santos está no centro de polêmica

Ironias e trajetória no Santos

Na época, Ruan afirma ter omitido o fato de todos - companheiros de time, amigos, familiares ou empresário. Mesmo assim, a suspeita vazou entre os jogadores da base do Santos e ele se lembra de ter ouvido brincadeiras sobre ser o "queridinho" de Lica no clube: "Alguns companheiros sabiam, sim, e faziam ironias. Mas creio que ninguém tinha certeza, porque nunca falei disso com ninguém."

Apesar das zoeiras, o jovem manteve a história em segredo e também guardou bons momentos da passagem pelo Santos. Ele foi companheiro de jogadores que hoje estão no elenco profissional, como Diogo Vitor e Arthur Gomes, e também promessas da base, a exemplo de Renan Pastre e Marquinhos Tu. Uma das frustrações atuais, inclusive, é que o Santos não tenha prestado qualquer tipo de solidariedade a ele e ainda trate o caso como um problema político contra a gestão de José Carlos Peres.

"Meu pai está comigo, sempre esteve comigo, nunca me abandonou, sempre me dando bons conselhos, me apoiando, fazendo o melhor para que eu conseguisse meus objetivos. O Sindicato dos Atletas chegou a me procurar, procurar meu pai, mas depois não falaram nada. Já o Santos não ofereceu nenhum suporte", diz Ruan, que conheceu pessoalmente o presidente José Carlos Peres. "Tive contato, sim. Não diretamente, mas sempre havia contato, era para eu ser da empresa dele. Digamos que eu sabia quem ele era, mas não tinha muito contato com ele. Se estive com ele foi uma vez ou duas, no máximo."

E depois?

Fora do Santos, Ruan fez testes e tentou carreira em clubes como Corinthians, Red Bull, Internacional, Paraná e até Paderborn, na Alemanha, mas nunca se firmou em lugar nenhum. Ele relata que teve problemas disciplinares durante este período de limbo pós-saída do Santos e acha que o caso de abuso sexual tem a ver com seu comportamento reprovável.

"Creio que atrapalhou sim, de alguma forma. Não posso colocar a culpa só nisso, mas alguma coisa atrapalhou, sim. Então agora é esquecer tudo e fazer um novo começo. Passei por muitas coisas ruins, desperdicei muitas oportunidades na vida, e agora preciso manter o foco, procurar fazer minha vida, uma boa carreira, construir minha família e não deixar que um dia meus filhos passem pelo que eu passei", desabafa.

"Estou tranquilo, com a consciência limpa. Depois de fazer isso (denúncia) me senti mais aliviado, é um novo começo para mim. Agora é procurar esquecer isso, tudo que aconteceu, e fazer uma nova história".

Lica "nega veementemente as acusações" e, de acordo com Adriano Vanni, seu advogado, "a verdade virá à tona, é só questão de tempo". A defesa tem duas alegações: Ruan Petrick teria entrado no Santos seis meses após a data do suposto ato de abuso e, na época, o dirigente estaria atuando na categoria profissional, e não na base.

Futuro de Ruan

Nascido em Marabá, no Pará, e fora de casa há nove anos para tentar o sonho de ser jogador profissional, Ruan Petrick tem dois planos para os próximos meses: incentivar outros jovens e crianças a denunciarem atos de abuso sexual e, como pensava quando foi goleador no Campeonato Paulista sub-13, enfim jogar bola.

"É o que eu sei fazer, o que eu gosto de fazer. Vou continuar jogando, sim, vou persistir até o fim, se Deus quiser vai dar tudo certo. Estou me preparando, treinando à parte e esperando o melhor momento. As pessoas que estão comigo estão vendo propostas e eu estou sendo paciente e esperando a oportunidade aparecer", diz o garoto, otimista por novos tempos também fora de campo.

"Um dos meus intuitos de falar, de trazer esse caso a público, é que outros garotos tenham coragem, deixem o medo de falar, deixem o constrangimento de lado e abram a boca, porque com certeza vamos combater essas coisas que infelizmente acontecem no futebol."

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