Motorista diz que atacante do Sport encomendou morte de desafeto

Adriano Wilkson

Do UOL, em São Paulo

  • Williams Aguiar/Sport

O Corinthians já tinha encaminhado a contratação do atacante Juninho, do Sport, mas uma intensa campanha contrária nas redes sociais fez o clube voltar atrás. No ano passado, o piauiense de 19 anos foi acusado pela polícia e denunciado pelo Ministério Público por três crimes contra a Dhalia Araújo, de 21, sua ex-noiva, com quem morava em Recife: ameaça, violência doméstica e familiar contra a mulher e praticar vias de fato.

Se condenado, ele pode pegar até nove meses de prisão. 

Mas o processo, ao qual o UOL Esporte teve acesso, traz ainda uma segunda acusação grave. Em depoimento à polícia José Luiz Ferreira Júnior, que na época da prisão em flagrante trabalhava como motorista do jogador, disse que Juninho encomendou a morte de um desafeto por R$ 2 mil.

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Em conversa no Whatsapp, jogador ameaça a ex-noiva

Na madrugada do dia 9 de outubro de 2017, Dhalia e Juninho, que já estavam separados, se encontraram em uma casa de shows em Recife. Dhalia já tinha conseguido uma medida protetiva contra o ex-noivo depois de ter feito um boletim de ocorrência relatando ameaças. "Eu não vou ameaçar mais não, fala muito mais outra vez para você ver o que eu faço agora", escreveu Juninho, de acordo com um boletim de ocorrência registrado por Dhalia dias antes desse encontro.

Na festa, Dhalia conversava com um amigo quando viu o atacante do Sport se aproximar.

Os dois conversaram, e Juninho a convenceu a acompanhá-lo a seu apartamento para buscar roupas que ela tinha deixado lá. Ela aceitou desde que outra pessoa fosse junto com eles no táxi. No fim da viagem, os três desceram do carro e, muito exaltado, Juninho deu um tapa em Dhalia. Uma câmera de segurança filmou a agressão, e essa imagem foi citada pela delegada Tereza Nogueira, da Delegacia da Mulher do Recife, como uma prova do crime.

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Print do Whatsapp, a que a polícia teve acesso, mostra diálogo entre Juninho e a ex-noiva

Mesmo assim, Dhalia e Juninho subiram ao apartamento e mantiveram relações sexuais consensuais. Depois, de acordo com o depoimento dela, o atacante teve uma crise de ciúmes e pegou seu celular, crendo que ela estava tendo um relacionamento com o amigo com quem conversava na casa de shows.

Juninho e esse amigo de Dhalia, que também é jogador de futebol e prefere não ser identificado, trocaram mensagens pelo celular. Segundo a polícia, que apreendeu o aparelho, essas mensagens mostram que Juninho estava com ciúmes do amigo da ex.

Em seguida, o atacante entrou em contato com seu motorista particular. Assim a polícia relatou o depoimento do motorista José Junior sobre essa conversa:

José "confirma que na madrugada do domingo para a segunda-feira [...] recebeu uma mensagem de áudio via Whatsapp oriunda do autuado [Juninho] encomendado a morte de um rapaz conhecido como [...], também jogador de futebol, dizendo que pagaria mil reais ao declarante e mais mil para quem fizesse o serviço."

Clique aqui para ler as páginas do processo

De acordo com o depoimento do motorista, Juninho também "mandou uma fotografia" do amigo de Dhalia, para que ele fosse reconhecido.

José Junior disse à polícia que não levou a encomenda a sério e que jamais pensou em matar ninguém. Dias antes, ao registrar um boletim de ocorrência relatando ameaças, Dhalia declarou que Juninho lhe disse, conforme o documento: "Agora eu tô bem protegido porque meu motorista é agente penitenciário e anda armado, pra resolver todos os meus problemas."

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Juninho e Dhalia ficaram noivos e chegaram a morar juntos

A delegada Tereza Nogueira afirmou que não abriu inquérito sobre essa denúncia porque o amigo de Dhalia não prestou queixa. Não está claro se ele ao menos sabia das palavras de Juninho a seu motorista.

Procurado, o amigo de Dhalia preferiu não se pronunciar. Dhalia também não quis dar entrevista. O motorista José Júnior não foi localizado.

O advogado de defesa de Juninho, Ernesto Cavalcanti, minimizou a acusação sobre seu cliente. "Ele não era motorista nada, quis apenas se aproveitar do momento. Todo mundo passou ao largo dessa acusação."

Em nota na noite de quinta-feira, o Corinthians disse que desistiu da contratação de Juninho por conta de seus "antecedentes desabonadores". O piauiense já estava em São Paulo para assinar contrato quando soube da decisão da diretoria.

Mas, segundo o advogado Ernesto Cavalcanti, o jogador permaneceu na capital paulista e está confiante de que o clube voltará atrás e o contratará. "Em seis meses, ele vai arrebentar e isso tudo vai ficar para trás", disse ele.

Se condenado, Juninho pode pegar até nove meses de prisão. Como foi denunciado na Lei Maria da Penha, ele perderia o direito de transformar a pena na simples assinatura de um Termo Circunstanciado de Ocorrência, se comprometendo a não repetir o ato. Mesmo assim, o Judiciário ainda pode converter a detenção em multa.

Leia a nota do Corinthians sobre a desistência da contratação de Juninho:

Ao entabular negociações com o atleta Juninho, o Corinthians visava não só atrair um promissor talento futebolístico, mas também encetar um processo de ressocialização dele. Sabedor de antecedentes desabonadores no seu passado, acreditamos que um jovem devidamente orientado teria condições de mudar de banda e, em vez de frequentar o grupo dos que tratam como corriqueira a agressão à mulher, pudesse se tornar um exemplo de evolução moral.

Ou seja, o episódio deveria representar um passo avante naquela que é bandeira sagrada do Timão: lutar contra qualquer forma de discriminação, abominar a violência, aliar-se aos mais fracos. Entretanto, considerando as inúmeras manifestações de torcedoras e torcedores contrários à eventual contratação de Juninho, informamos que ele não fará parte de nosso quadro de funcionários. O momento exige que o congraçamento de mentes em torno da causa feminista se sobreponha a quaisquer outras considerações.

Ademais, estaremos aumentando a importância do enfrentamento pelo Corinthians de um tema sensível como esse em um ambiente sabidamente machista como o futebol. Atuaremos no sentido de difundir por todas as instâncias do Clube essa doutrina para evitar ocorrências como essa e formaremos parcerias com instituições que também cuidem da ressocialização dos agressores homens para que a violência contra a mulher acabe no Brasil.

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