"Eu e Sócrates fomos sacaneados". Ex-Corinthians comenta não ida à Copa-78

Marcello De Vico e Vanderlei Lima

Do UOL, em Santos (SP)

Campeão e artilheiro da Libertadores de 1976 com o Cruzeiro e peça fundamental em um dos maiores títulos da história do Corinthians, o Campeonato Paulista de 1977, Palhinha viveu o seu auge como jogador de futebol na década de 70. Fez parcerias memoráveis com o Furacão Jairzinho - no clube celeste - e com o Doutor Sócrates - na equipe de Parque São Jorge - e alcançou a seleção brasileira. Para consagrar ainda mais a vitoriosa carreira, faltava uma participação em alguma Copa do Mundo, que poderia ter vindo em 1978. Mas o próprio Palhinha crê que fizeram uma "sacanagem" com ele e o já falecido Sócrates.

Em entrevista exclusiva ao UOL Esporte, Palhinha, hoje com 68 anos e aposentado desde 1985, quando atuou pelo América-MG, dá a sua versão sobre os motivos que fizeram ele e o 'Doutor' não estarem presentes na convocação para a Copa do Mundo da Argentina. Segundo ele, além de haver uma preferência por quem jogava ou treinava no Rio de Janeiro, ainda existiu uma armação por parte de Cláudio Coutinho - então técnico da seleção brasileira - e José Teixeira - na época auxiliar de Coutinho no Brasil e técnico do Corinthians - para que eles ficassem fora.

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"Seleção eu vou te falar o seguinte. Naquela época havia Rio-São Paulo, mais Rio de Janeiro, e eu, naquela época, por exemplo, da Copa de 74, estava muito bem e não tive a felicidade de ser convocado pelo Zagallo. Em 78, eu e o Sócrates estávamos arrebentando em São Paulo e nem eu e nem o Sócrates fomos para a Copa do Mundo da Argentina? Então eu tinha essa preocupação em disputar com jogadores do Rio de Janeiro. Em 78, eles levaram Jorge Mendonça, Roberto Dinamite, Reinaldo, que estava meia boca, machucado, e eu e o Sócrates arrebentando no Corinthians com futebol de alto nível, e o Cláudio Coutinho não chamou nem eu e nem o Sócrates. A imprensa de São Paulo toda meteu o cacete, mas não adiantou nada. Eram os mesmos treinadores do Rio, Zagallo, Coutinho, tinha que ser treinador do Rio, então eles faziam média com os clubes do Rio e esqueciam de outras praças", opina Palhinha.

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"Pensa só se chamam eu e o Sócrates? Mas para não bater com outros jogadores lá, eles não levavam a gente. Tem umas coisas na vida... Olha só a sacanagem que existia: o Professor Teixeira era auxiliar do Cláudio Coutinho, então quem jogasse no domingo poderia ser convocado na segunda-feira pra ir à seleção brasileira para realizar amistosos, e o Teixeira chegou para mim num jogo contra o Palmeiras - nós concentrados em Embu - e falou: 'Palhinha, hoje você não vai jogar porque o campo está pesado, está chovendo muito', Aí eu peguei a minha mala e fui lá para o Morumbi, mas ficar na reserva eu não ia ficar. Aí teve o jogo e eu falei para a imprensa que não joguei porque estava chovendo, campo pesado", recorda o ex-atacante.

"Aí passa uma semana, uma chuva, e o jogo era contra o São Paulo, campo pesado, e ele me colocou, e contra o Palmeiras não me colocou só para eu não ser convocado. Deve ter sido a mando do Cláudio Coutinho. Ou seja: o Teixeira era treinador do Corinthians e auxiliar do Coutinho na seleção e, no jogo contra o São Paulo, chovendo para caramba, eu fui para o jogo. Aí ele me colocou de novo só porque não tinha convocação, e fiz o passe que depois resultou no gol do Corinthians, empatamos 1 a 1, com muita chuva no Morumbi, e aí ele falou: 'Pô, Palhinha, você foi o melhor em campo com chuva', e eu falei: 'Tá vendo, eu não carrego o campo nas minhas costas, com chuva ou não acho que tenho condições de um bom rendimento', e foi isso o que aconteceu. Você vê como tinha tanta sacanagem para eu e o Sócrates não termos chegado na seleção em 78. O Teixeira passava os nomes para ele [Coutinho] se devia ir ou não, então eu e o Sócrates fomos sacaneados em 78, nós deveríamos estar naquela Copa", acrescenta.

"Paulista de 1977 foi o título mais importante da minha carreira"

Apesar de ter conquistado a histórica Copa Libertadores de 1976 com a camisa do Cruzeiro, sendo, inclusive, artilheiro da competição continental com 13 gols (em dez jogos), Palhinha acredita que o título mais importante de sua vida profissional foi um estadual: Campeonato Paulista de 1977, até hoje considerado um dos principais títulos da história do Corinthians e que colocou fim a um jejum de 23 anos sem conquistas do clube de Parque São Jorge.

Reprodução
"Acho que os dois títulos foram de suma importância na minha carreira. A gente tem que analisar o seguinte: até então, só o Santos havia sido campeão da Libertadores, e hoje talvez eu seja o maior artilheiro da Libertadores da América em relação às dez partidas que eu fiz e os 13 gols, então é um marco na minha carreira; mas o título do Corinthians, para mim, foi de suma importância porque naquela oportunidade o Corinthians disputava para contratar grandes profissionais para tentar ser campeão, e naquela época eu fui custando US$ 1 milhão, durante muitos anos fui a contratação mais cara do futebol brasileiro, e eu fiquei assustado porque quando eu cheguei tinha uma limousine me esperando no aeroporto", lembra.

"Eu estava juntamente com o meu pai e com a minha mãe para ir até o Parque São Jorge me apresentar, e depois, à noite, eu dei a volta olímpica no Pacaembu, superlotado, e a torcida toda gritando o meu nome, os meus cabelos até arrepiavam de tanta emoção, e eu falei: 'Poxa, se eu não for campeão aqui, eu não sei o que a torcida vai fazer comigo' [risos], o time na fila, iiii, vai ser mais um, sabe? Até a imprensa falava: 'Está chegando mais um', porque todos que passaram na época não tiveram a felicidade de conquistar o título, então foi o título mais importante da minha vida profissional. Lógico que todos são importantes, mas tem aquele com um pouquinho a mais", admite Palhinha, que defendeu o Corinthians de 1977 a 1980.

Gol antológico 'de nariz' na decisão: "ficou inchado uns 15 dias"

Muita gente - e principalmente o próprio Palhinha - certamente se lembra do antológico gol de nariz marcado pelo atacante corintiano no primeiro jogo da decisão do Campeonato Paulista de 1977, contra a Ponte Preta, no Morumbi. O time da capital venceu por 1 a 0 e abriu caminho para a conquista - que aconteceu depois de derrota na segunda partida (2 a 1) e nova vitória no terceiro e decisivo confronto (1 a 0, com gol mais que histórico de Basílio).

Bem-humorado, Palhinha recorda que seu nariz sofreu por um tempo depois do gol marcado na primeira decisão: "Aquilo ali foi para quebrar a praga corintiana, foi um gol histórico e até hoje eu não sei explicar. O Adãozinho lançou e eu entrei em alta velocidade e chutei forte; a bola pegou na perna do goleiro Carlos e veio no meu rosto, eu nem vi a bola chegando, foi aquele impacto, e eu tive a felicidade dessa bola entrar. Ali o corintiano falou: 'Agora a praga acabou'".

"A bola pegou em cheio no meu rosto e pegou o meu nariz. Meu nariz ficou inchado uns dez, 15 dias. O impacto da bola foi muito forte", recorda o ex-corintiano.

Ficou fora da foto de campeão: "torcedor nunca esqueceu de mim"

Por conta de uma lesão, Palhinha precisou assistir à terceira e decisiva partida da final como um mero espectador, e, com isso, acabou ficando de fora da tradicional foto do título. Isso, porém, não incomoda o ex-atacante, que até hoje é lembrado com carinho pela torcida corintiana.

"Ah, foi mais do que certo, porque eu não estava presente, e eu não fiquei chateado, de forma alguma. O torcedor nunca esqueceu de mim, sempre me tratam com muito carinho. Infelizmente aconteceu um acidente de percurso, uma lesão muscular, e eu não pude estar na partida final. Mas eu era um cara muito felizardo e quase em todas as finais de campeonatos que eu tive a felicidade de participar eu fiz gol. Em 79 [final do Paulista] eu fiz dois gols e o Sócrates fez um, e fomos campeões, então eu dava muita sorte em finais", conta.

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Pai preferia Palhinha como médico ou advogado

Eu comecei no Cruzeiro, no futebol de salão, depois eu fui para o futebol de campo. Quando criança eu jogava muito futebol de campo, depois com 13, 14 anos eu comecei a jogar futebol de salão no Cruzeiro e dali eu fui encaminhado para o futebol de campo. Quando eu era criancinha eu jogava de lateral direito e de beque central, nada a ver, né? Depois é que eu fui jogar para frente. Tinha um treinador do futebol de salão lá do Cruzeiro que me viu jogando e me convidou, mas o meu pai não queria que eu fosse jogador de futebol, não, ele queria me ver formado, estudando, e naquela época os pais queriam que os filhos fossem médicos, advogados, e a classe de jogador de futebol não era bem vista, não. E o que aconteceu? Esse treinador de futebol de salão foi na minha casa para conversar com o meu pai e disse que eu jogando futebol de salão no Cruzeiro não ia atrapalhar em nada nos meus estudos. E daí do futebol de salão eu fui encaminhado para o futebol de campo, e foi onde eu comecei, com 15 anos. O nome do treinador do futebol de salão era Lincoln Alves, já falecido. O meu pai aceitou porque o futebol de salão se jogava só sábado e no sábado não tinha aula na escola.

Chance como titular só veio após saída de Tostão

Acervo/Folhapress
Com 15 anos a gente já treinava contra o time profissional, e com 17 para 18 o diretor de futebol do time principal do Cruzeiro, o seu Carmine Furletti, foi até o presidente, ele achou que eu devia subir para o time principal para eu ir acostumando com o pessoal, mas eu não tinha muita vontade de subir porque eu queria jogar, né? E no juvenil eu jogava, era o rei, e no profissional eu ia jogar no lugar do Tostão? Do Dirceu Lopes? Do Jairzinho? Mas mesmo assim eu subi, então de 68 a 72 eu praticamente fui reserva, jogava de ponta direita e de ponta esquerda. Machucava o Natal, ia o Palhinha, machucava o Evaldo, ia o Palhinha, machucava o Tostão, ia o Palhinha, machucava o ponta esquerda, ia o Palhinha. Isso foi de 68 a 72, e em 72 eu falei para mim mesmo: 'Calma aí, já são quatro anos de entra e sai'. No início a torcida me pedia, depois parou de me pedir, está me entendendo nas partidas, e aí eu falei: 'Eu vou parar de jogar'. Eu pensei em parar de jogar futebol. Aí quando o treinador Yustrich anunciou que o Tostão foi vendido para o Vasco da Gama, então a minha sorte foi essa, o Tostão vendido para o Vasco da Gama (risos). Perdemos um amigo, mas em compensação abriu as portas para mim, porque eu era um quebra-galho no Cruzeiro. Aí o Yustrich chegou e falou: 'Agora, menino, a oportunidade é sua', e nessa época estava na final do Campeonato Mineiro, contra o Atlético-MG. Eu entrei nessa partida e meti os dois gols, vencemos por 2 a 1 e fomos campeões [do Campeonato Mineiro de 1972], e foi aí que eu me firmei em definitivo no Cruzeiro.

Os melhores companheiros de ataque

"Eu tive a felicidade, naquela época do Cruzeiro... Na Libertadores de 76, em que fomos campeões, em dez partidas eu fiz 13 gols, e o Jairzinho fez 12. Foi uma ótima dupla. E a outra foi com o Sócrates. Nós fizemos grandes partidas. Eu acompanhava muito a inteligência do Sócrates, e a gente se entendia muito bem. Com o Jairzinho eu joguei praticamente só um ano, e com o Sócrates eu joguei dois anos, de 78 a 80, e nós fomos campeões também em 79, e as pessoas relembravam a dupla Pelé e Coutinho porque eu e o Sócrates saíamos tabelando do meio de campo, fazíamos aquelas tabelinhas, e foi uma época assim de muita felicidade.

A amizade com o Doutor Sócrates

O Sócrates tinha vindo de Ribeirão Preto e, quando ele chegou, o laço de amizade da gente era muito grande, como se fossem dois irmãos, porque quando ele chegou de Ribeirão Preto eu ajudei ele a localizar prédio para morar com a família, e ele foi morar praticamente no meu prédio, então a gente ia junto para os treinos, para as concentrações, então a gente tinha uma participação muito ativa não só no lado profissional, mas no lado familiar também. Ele já veio passar férias em Belo Horizonte comigo e com a família, foi uma época muito boa.

Mundial contra o Bayern: "não éramos acostumados com neve"

"O que aconteceu foi o seguinte... Você já foi para a neve [risos]? Aquele time do Bayern de Munique tinha vários jogadores da seleção alemã que havia conquistado a Copa do Mundo de 1974, e aí você joga com chuva, e a gente que não era acostumado com a neve. E quando a gente caía no campo, a pele da perna ficava toda cortada por causa dos flocos de gelo, então o nosso time sentiu muito jogando lá, o campo pesado, e o nosso time era leve, de muita habilidade, e com isso eles foram beneficiados porque já eram acostumados com a neve e com o gelo. E o segundo jogo olha o que aconteceu também, parece que foi uma praga mesmo, o santo desse time do Bayern era muito forte. Aqui em BH choveu a noite toda, o dia todo, e na hora do jogo... o campo era aquela grama antiga que você pisava e atolava o seu pé, e com isso nós não tivemos a felicidade de ganhar o jogo; empatamos por 0 a 0 (jogo de ida, na Alemanha, foi 2 a 0 para o Bayern). A circunstância do campo pesou muito contra a gente, então nas duas partidas finais do Mundial a situação climática toda favoreceu os alemães. Mas eu penso o seguinte: aqui o público no Mineirão foi de mais de 113 mil, e se a gente pegasse o Bayern com sol quente, aquele calor, eles iam sentir como nós sentimos na neve, o efeito seria o contrário. E depois do jogo foi uma tristeza, mas o torcedor percebeu que não faltou empenho, não faltou luta, não faltou vontade, o que a gente tinha que fazer nós fizemos, mas infelizmente o futebol nem sempre sai como a gente quer, o torcedor soube compreender.

Brasileiro de 74: "Armando Marques meteu a mão"

O título brasileiro de 74 entre Cruzeiro e Vasco que o Armando Marques meteu a mão na gente lá e o Vasco foi campeão nós tivemos um gol lícito do Zé Carlos, bola de linha de fundo, e o Armando Marques deu impedimento. O Oscar Scolfaro era o bandeirinha e correu para o meio-campo, e não foi impedimento, a bola de linha de fundo, e o Armando Marques anulou o gol. Para você ver como o Armando era malicioso, no início do jogo ele chegou para mim e falou assim: 'Eu não marco uma falta em você, Palhinha', aí o zagueiro Moisés vinha e me dava porrada e ele marcava falta a favor do Vasco, então ele entrou mesmo com o pensamento de fazer o resultado da partida, e eu nunca tive a felicidade de ser campeão nacional. Eu fui vice-campeão nacional duas vezes. E a outra decisão foi com o Atlético-MG, Nacional de 80 lá no Rio de Janeiro, nós perdemos por 3 a 2, e o Aragão [ex-árbitro José de Assis Aragão] não deixava o nosso time andar. O nosso time era muito bom, tinha o Éder, o Reinaldo, eu era o capitão, mas o Flamengo também tinha um bom time. Mas o Aragão prejudicou o nosso time no Maracanã.

Origem do nome veio de irmão 'muito melhor que ele'

Eu tinha um irmão muito bom de bola chamado Roberto, ele faleceu há dois anos, era centroavante, muito habilidoso, muito melhor que eu. Ele não vingou porque era preguiçoso, não gostava de treinar, então ele não quis ser jogador de futebol. E também o futebol te prendia muito cedo; eu com 15 anos entrava em regime de concentração na sexta-feira e saia só no domingo, depois do jogo, e os adolescentes daquela época não queriam se sacrificar. Mas voltando para o apelido, o meu irmão estudava no colégio e o apelido dele era palha de aço, por causa do cabelo dele que era muito crespo, e aí eu entrei no colégio e o pessoal começou a me chamar: 'Olha o irmão do palha de aço', e eu jogava muito bem bola também, então passou a ser Palhinha.

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