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Como um grupo de torcedores em um bar evitou o adeus de seu time nos EUA

Save The Crew/Divulgação
Dono do Columbus Crew quis mudar o time de cidade; movimento da torcida barrou ideia Imagem: Save The Crew/Divulgação

Do UOL, em São Paulo

2019-01-10T04:00:00

10/01/2019 04h00

Desde que a primeira temporada da Major League Soccer foi disputada, em 1996, a competição consolidou o Columbus Crew uma de suas equipes mais tradicionais. Afinal, trata-se de uma das oito franquias que disputou todas as edições do torneio, sendo uma das cinco que nunca trocou de nome.

Mas este cenário esteve perto de mudar a partir do fim de 2017. Em outubro daquele ano, o então proprietário do time, Anthony Precourt, anunciou a intenção de tirar o time da cidade de Columbus (Ohio) e realoca-lo em Austin (Texas). Uma distância de mais de 1,9 mil quilômetros. Mais ou menos como se o Grêmio ou o Internacional deixasse Porto Alegre e fosse jogar em Brasília.

O problema, segundo Precourt, era a pouca torcida em Ohio. Em 2017, a média de público do time foi de 15.439 torcedores (pouco superior à média histórica, de 15.388). Para efeito de comparação, a média dos times mandantes em toda aquela temporada da MLS foi de 22.112 torcedores, sendo que o Atlanta United atingiu a média de 48.200 torcedores por jogo em casa.

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Mas eis que surgiu outro obstáculo: a capacidade do Mapfre Stadium, onde o Columbus Crew manda seus jogos, é de pouco menos de 20 mil torcedores. Para manter o time ali, Precourt esperava que Columbus construísse um estádio maior.

Assim que a notícia se espalhou, a torcida passou a se manifestar contra a mudança. E o que começou com a hashtag #SaveTheCrew, em pouco tempo ganhou força.

"Nós basicamente começamos com uma grande mesa nos fundos de um bar com um grupo de líderes de torcedores que se juntaram e disseram que estavam deprimidos. Então, eles decidiram que precisavam lutar", disse David Miller, diretor de comunicação do movimento Save The Crew, em entrevista publicada ao jornal inglês The Guardian.

Save The Crew/Divulgação
Manifestações do Save The Crew ganharam adesões Imagem: Save The Crew/Divulgação
Começou então o que Miller comparou a uma campanha política, com direito a comícios que atraíram atenção nacional. "Queríamos fazer muito barulho de maneira estratégica. Isso construiu o reconhecimento de nosso nome, nossa habilidade de conseguir reuniões com quem queríamos", explicou. "Tínhamos faixas e bandeiras do Save The Crew em toda a comunidade internacional do futebol".

O crescente movimento da torcida ao longo de 2018, é claro, atraiu políticos da cidade de Columbus. Então, em março de 2018, a torcida conseguiu uma grande jogada legal a seu favor.

A Lei Art Modell

Em 1995, o proprietário do Cleveland Browns, Art Modell, tentou transferir o time para Baltimore. No entanto, diante da rejeição (inclusive jurídica) de torcedores e autoridades de Cleveland, a transferência acabou não acontecendo como o dirigente queria.

Em um acordo, Modell - que detinha o direito de uma expansão da liga - transferiu todo o pessoal dos Browns para Baltimore, onde criou um novo time, o Baltimore Ravens. No entanto, Cleveland manteve o direito de ter os Browns, que ficou inativo até retornar à NFL em 1999.

A transferência foi tão polêmica que, em 1996, acabou virando lei em Ohio, batizada justamente com o nome do principal responsável pela confusão. Segundo a Lei Art Modell, proprietários de franquias esportivas que usem instalações esportivas apoiadas parcial ou totalmente por benefícios fiscais ficam proibidos de levar a sede da equipe para outro estado sem uma comunicação prévia (seis meses), para que interessados locais tenham a oportunidade de comprar o time.

Foi com base nessa lei - que nunca havia sido aplicada - que o Columbus Crew ganhou tempo para se salvar. Em outubro de 2018, surgiram novos interessados em comprar o time de futebol: Jimmy e Dee Haslam, donos do Cleveland Browns. Com eles, entrou também Pete Edwards, por muito tempo o responsável pela área médica do Crew. Em dezembro, o trio foi anunciado como os proprietários do time.

"Somos muito gratos pelos esforços da comunidade de Columbus, bem como pelo apoio da torcida do Crew, que nos ajudaram a preencher os requisitos (de compra do time) no prazo", diz nota assinada pelas famílias Haslam e Edwards. "Ao longo de nossas conversas, ficou agradavelmente claro que o Crew pertence a Columbus, e nós estamos felizes por termos alcançado um acordo para assumirmos uma propriedade na Major League Soccer, operando o Columbus Crew SC."

É claro que o acordo não saiu de maneira fácil. O Columbus Crew já apresentou planos para levantar um estádio maior em sua cidade. E Anthony Precourt, que havia se tornado dono do time em 2013, assegurou os direitos para um time de expansão da MLS. O Austin FC, de propriedade da Precourt Sports Ventures, deve estrear na liga em 2020, ao lado do Inter Miami (o time de David Beckham) e de um time da cidade de Nashville, no Tennessee.

Emilee Chinn/Columbus Crew SC
Columbus Crew permanecerá em sua cidade e ganhará novo estádio; já Anthony Precourt, o antigo proprietário, terá novo time em Austin para disputar a MLS Imagem: Emilee Chinn/Columbus Crew SC

Ainda assim, a permanência do Columbus Crew foi celebrada. "Não havia me expressado até agora, mas caramba, vocês em Columbus salvaram o Crew. Eu não poderia estar mais orgulhoso do esforço e da perseverança de vocês, além da crença em meio às circunstâncias mais sombrias. Vocês merecem os aplausos e, mais do que isso, merecem que o clube de vocês fique em casa", publicou Wil Trapp, meia do próprio Columbus Crew, em seu Twitter.

A reação também foi positiva para David Miller, o líder da reunião de torcedores no bar. "Na questão de propriedade de franquias esportivas, é sempre melhor que seja alguém local. Você vê em Atlanta: eles têm um proprietário local (Arthur Blank) que está na comunidade, que investiu na comunidade, que se importa com a comunidade. Anthony Precourt não era nada disso", disse Miller ao The Guardian.

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