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Racismo e xingamento: cresce polêmica sobre brasileiro na seleção da Rússia

Divulgação/RFS
Ari, atacante da seleção russa e do Krasnodar, chegou ao país em 2010 e foi convocado para dois jogos Imagem: Divulgação/RFS

Gabriel Carneiro

Do UOL, em São Paulo

2019-03-21T04:00:00

21/03/2019 04h00

"Só resolvi falar depois que escutei o áudio da entrevista desse babaca aí."

A frase é do atacante Ari, brasileiro naturalizado russo, que está no centro de uma grande polêmica do futebol internacional. Há quatro dias, foi publicada pelo jornal "KP" uma entrevista do atacante Pavel Pogrebnyak. O jogador de 35 anos jogou entre 2006 e 2012 pela seleção da Rússia e reclamou da convocação de jogadores brasileiros naturalizados, como o goleiro Guilherme (Lokomotiv), o lateral-direito Mário Fernandes (CSKA) e o próprio Ari (Krasnodar).

Mas o que rendeu polêmica não foi a opinião, e sim seu teor discriminatório: "Eu trato esse assunto negativamente. É engraçado ter um jogador negro na seleção russa. Eu não entendo o sentido disso. Por que o Ari recebeu um passaporte russo?"

Ari é o primeiro negro da história da equipe.

Reprodução/Instagram
Pavel Pogrebnyak não é convocado pela seleção russa há sete anos. Hoje ele defende o Ural Imagem: Reprodução/Instagram

A afirmação do russo rendeu aprovação, crítica e até uma abertura de investigação sobre seu tom racista. Ao UOL Esporte, Ari disse que decidiu se manifestar só depois de ouvir o áudio original da entrevista e confirmar sua suspeita sobre o sentido da declaração: "Estou supertranquilo, isso não me incomoda em nada. A única coisa que fiquei chateado foi pela forma que ele deu a entrevista, por ele ser um jogador de futebol e por isso acontecer nos dias de hoje. Aqui, na Rússia, eu não tinha mais visto esse tipo de situação nos estádios e nas ruas de cinco anos para cá. Espero que seja tomada alguma providência, que esse cara seja suspenso, pague uma multa ou algo desse tipo. Mas isso não me atinge, já passei por várias situações piores".

Além de Ari, Pogrebnyak também questionou a convocação de Mario Fernandes, a quem Igor Smolnikov, do Zenit, poderia substituir à altura, segundo ele. "Era possível formar a seleção sem estrangeiros", relatou o jogador do Ural, time que briga contra o rebaixamento no Campeonato Russo. Além dos três brasileiros, outros dois jogadores se naturalizaram nos últimos anos para defender a seleção russa: os zagueiros Konstantin Rausch e Roman Neustedter, que têm cidadania alemã. Eles não foram criticados por Pogrebnyak.

Polêmica não é novidade na Rússia

Roman Pavlyuchenko, ídolo no país, ex-Tottenham, disse que não assistiria jogos da Rússia com Ari em campo logo após suas primeiras convocações, em novembro de 2018, nas derrotas contra Alemanha (amistoso) e Suécia (Liga das Nações). Andrei Arshavin, ex-Arsenal, ao jornal "Sport Express", também manifestou contrariedade: "Sempre disse que sou contra naturalizações na seleção. São jogadores que desejam alcançar o máximo, que é a Copa do Mundo, e tomam todas as decisões para isso, inclusive a naturalização. Talvez eu esteja enganado, mas isso é normal? Eu não quero que brasileiros joguem pela seleção russa. Onde eles viverão depois do fim de suas carreiras? Eles são brasileiros, mas jogam pela Rússia, e isso é incompreensível para mim."

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Ari, com a camisa 26, foi titular da seleção russa em 3 a 0 sofrido para a Alemanha em 15/11/2018 Imagem: Divulgação/RFS

Ari reage: "Uma situação dessas só vai me fortalecer cada vez mais, fazer com que eu corra atrás dos meus objetivos e lute ainda mais forte. A gente mostra dentro de campo. E eu vou lutar mais ainda para mostrar para esses caras porque eu fui convocado para a seleção, porque eu jogo há dez anos aqui na Rússia e porque o povo russo tem um carinho imenso por mim. Eu já me sinto em casa. Espero realmente que isso sirva para que não aconteça outro caso parecido e esse cara reflita". O jogador nascido em Fortaleza ainda rendeu elogios a Vladimir Putin, atual presidente da Rússia.

"Admiro muito o presidente da Rússia pela disciplina das pessoas, pelos lugares bonitos, por ser um cara que fez com que o país não tivesse tanta pobreza. Todo mundo tem um bom trabalho, vive bem, é totalmente diferente de outros países, até mesmo do Brasil. Aqui em Moscou você não vê situações como pessoas roubando constantemente, com fome na rua, pessoas pedindo esmola. Que esse mau exemplo sirva para acordar não só o povo russo, mas o mundo todo. É uma vergonha isso acontecer nos dias de hoje. Eu, como atleta e como pai, me preocupo com o respeito entre as pessoas. Que esse caso possa abrir os olhos para que muitas pessoas não tenham um pensamento como o desse cara", desabafa o jogador de 33 anos.

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Cherchesov não convocou Ari para as Eliminatórias, hoje (contra a Bélgica) e domingo (Cazaquistão) Imagem: Divulgação/RFS

"Posso te chamar de branco. É insulto?"

O vice-diretor da Federação Russa de Futebol no âmbito da luta contra a discriminação, Aleksandr Baranov, anunciou no início da semana que o Comitê de Ética da entidade avaliaria as declarações de Pogrebniak. É necessário um apelo formal de alguma entidade ligada a jogadores ou à federação para que a justiça desportiva do país julgue o caso e eventualmente puna o jogador por ato racista. O Ural, time do atacante, saiu em sua defesa: "Ele simplesmente disse 'negro'. Onde está o crime? Eu posso te chamar de branco agora também. Isso é um insulto? Eu, na verdade, concordo com Pavel", disse Grigory Ivanov, presidente do clube.

O conselho presidencial de Direitos Humanos da Rússia, em nome de Mikhail Fedotov, por outro lado, disse que as declarações de Pogrebniak "cheiram fortemente a racismo", o que permite abertura de investigação. A discussão está longe de terminar.

A Rússia joga hoje pelas Eliminatórias da Eurocopa, contra a Bélgica, e no próximo domingo, diante do Cazaquistão. Ari não foi convocado pelo técnico Stanislav Cherchesov para esses compromissos, ao contrário de Guilherme e Mário Fernandes.

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