"A gente sabia"

Goleiros que conviveram com Alisson (e perderam a vaga) sempre tiveram certeza: iria chegar ao topo do mundo

Gabriel Carneiro Do UOL, em São Paulo
A. Pretty/Getty Images for FC Bayern

Alisson foi eleito o melhor goleiro do Campeonato Inglês no começo do mês. É o primeiro brasileiro com esse título na história. No sábado, decide a Liga dos Campeões da Europa pelo Liverpool contra o Tottenham, em Madri. Só dois brasileiros da posição alcançaram esse nível: Dida e Júlio César. Em seguida, ele se apresenta à seleção para disputar a Copa América na condição de titular incontestável. Aos 26 anos, ocupa um patamar de carreira que é para poucos.

Esta ascensão tão rápida deixou muitos concorrentes pelo caminho. Na seleção, nomes experientes como Victor, Fábio, Marcelo Grohe, Neto, Diego Alves e Weverton perderam espaço. Não foi diferente no Liverpool, na Roma e no Internacional - clube que defendeu dos oito aos 23.

O UOL Esporte conversou com algumas das vítimas de Alisson em 18 anos de carreira. São atletas muitas vezes mais velhos, que viveram com o camisa 13 histórias curiosas, de amizade, respeito e solidariedade. E que dividem não só o fato de ter perdido a posição, mas uma admiração pelas qualidades técnicas do companheiro, que o fazem, atualmente, ser um dos melhores da posição no planeta.

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"Na época, até achei um pouco errado", diz Lauro

Lauro era conhecido pelo gol de cabeça marcado pela Ponte Preta contra o Flamengo quando foi contratado pelo Internacional, em 2008. Com boas atuações, adicionou ao currículo o título da Copa Sul-Americana pelo time gaúcho, então dirigido por Tite. Depois, perdeu espaço, foi emprestado duas vezes e assistiu à ascensão dos irmãos Becker no Beira Rio: Muriel e Alisson. Alisson, o Becker mais novo, estreou aos 19 anos. Lauro, então com 33, era quarto goleiro.

"O Alisson se destacava nas categorias de base e subia para treinar com o profissional. No início de 2013, foi colocado para o profissional e eu já estava me preparando para sair do clube. O Dunga colocou Muriel, Agenor e Alisson de maneira igual, mas todos sabiam que ele definiria o Alisson na primeira oportunidade que tivesse. Na época, até achei um pouco errado, porque o Muriel vinha bem. Mas o Alisson entrou sem nenhum tipo de temor e aproveitou a chance porque tinha potencial", conta Lauro.

Ele é muito dedicado, tem gana, odeia perder. Acho que isso e os atributos físicos, porque ele é alto e forte, são o que fizeram ele ser o que é hoje."

Lauro, hoje aos 38, está sem clube desde o fim do ano passado, quando deixou o Joinville. Ele mora em Porto Alegre e diz que em breve definirá se volta a jogar ou anuncia a aposentadoria.

O convívio no Internacional era o melhor possível pelo fato de todos os goleiros terem boa índole. Não tinha uma atitude no Muriel ou no Alisson que poderia gerar algum tipo de ranço. São pessoas do bem, cada um brigando pela sua posição, buscando seus objetivos

Lauro

Lauro, sobre a disputa por posição no Inter

O importante do goleiro é ter porte físico, força, reação e técnica. Tudo no Alisson é bom. O próprio Taffarel disse que ele é melhor que o Buffon. É merecido o que tem hoje. No Brasil muitos não reconhecem, mas ele é um fenômeno e em breve será melhor do mundo

Lauro, sobre o ex-companheiro

Lucas Figueiredo/CBF Lucas Figueiredo/CBF

Jogo simples: a escola Taffarel

Todo jovem goleiro formado pelo Internacional deveria ter um pôster de Taffarel colado na parede de casa. Ele é a síntese do que o clube espera com sua escola de goleiros: frieza, simplicidade e personalidade. O Colorado não costuma dar espaço a goleiros espalhafatosos, que dão um passinho de lado só para que o pulo em direção à bola fique "mais artístico". Alisson é o novo símbolo desse processo. Não costuma ser um goleiro de defesas bonitas, mas é eficiente.

Ele é um padrão mundial, um cara que passa segurança e é simples quando precisa ser."

Quem diz é Rafael Copetti, outro goleiro que conviveu com Alisson na base do Inter, e que hoje defende o América-RN. "A escola colorada é parecida com a escola europeia de goleiros altos e rápidos. Ele é um ano mais novo do que eu, mas hoje é um espelho. Sempre foi um grande goleiro, a gente percebia que ele tinha potencial e que seria o que é hoje pela estatura e pela personalidade. A gente sabia que ele ia ter uma grande carreira", diz o antigo concorrente.

Mailson Santana/Fluminense FC Mailson Santana/Fluminense FC

Saída com os pés foi influência de "Ageneuer"

Alisson foi parceiro de Agenor, goleiro do Fluminense, no Internacional durante sete anos. De acordo com profissionais do time gaúcho, "Ageneuer" foi um dos responsáveis por incentivar o companheiro a desenvolver o jogo com os pés.

"Sempre que dava, ele pedia para jogar. Sempre que tinha chance de mostrar o talento, caía para dentro", diz Agenor, antes de completar: "Ele é um cara que teve personalidade desde a base e sempre que jogou, demonstrou isso. Nós todos sempre fomos bastante de brincar, mas quando estávamos, realmente, no trabalho, um ajudava o outro. Isso fez todos crescerem. Esse Alisson que vocês estão vendo hoje a gente já conhecia lá atrás."

Alisson passou na frente de Agenor de maneira curiosa. Três anos mais velho, o atual goleiro do Flu vivia descendo para o time B do Inter para jogar competições menores. Até que pediu para ficar só com os profissionais. A comissão técnica aceitou. Foi então que Alisson começou a ser "emprestado" para o time de baixo. Aí aconteceu o inesperado. Dida cumpriu suspensão, Muriel estava lesionado e a comissão técnica preferir um goleiro com ritmo de jogo. Escolheram Alisson e não Agenor, que só treinava.

Reuters/John Sibley Reuters/John Sibley

Na seleção desde os 15 anos

A impressão dos companheiros de que Alisson seria um grande nome do futebol brasileiro sempre foi reforçada por fatos.

Ele foi convocado para seleções brasileiras de base desde o sub-15. Foi campeão sul-americano da categoria em 2007 como reserva. Também esteve no Mundial sub-17 em 2009, num time com Casemiro, Philippe Coutinho e Neymar que foi eliminado na primeira fase graças a uma falha dele mesmo. Ainda assim, seguiu sendo convocado. Venceu também o Torneio de Toulon com o time sub-21 em 2013. No total, foram seis títulos pelo Brasil na base.

Em 2015, aos 22 anos, Alisson foi convocado pela primeira vez para a seleção principal. Eram amistosos e o técnico era Dunga, responsável por sua estreia como profissional do Internacional dois anos antes. Desde então, são 35 partidas, apenas 16 gols sofridos e a titularidade incontestável com Tite.

Oli SCARFF / AFP Oli SCARFF / AFP

Quando Alisson perdeu a posição

Apesar de badalado, Alisson não teve uma trajetória tão linear quanto você deve imaginar. Pelo sub-20 do Internacional, disputou as edições de 2010 e 2011 da Copa São Paulo de Juniores, mas chegou a perder a vaga depois da estreia na segunda participação. Alisson falhou em um gol e foi barrado pelo técnico James Freitas. Seu reserva, Douglas, foi quem jogou até as semifinais. "Ele meio que deu bobeira e levamos um gol. Aí, quando chegamos no hotel, reuniram a gente para dizer que mudariam o goleiro. Eu deixei o Alisson no banco", conta o goleiro.

O titular de Alisson em 2011 não passou no "funil" para os profissionais do Internacional e jogou em sete clubes desde então - o último foi a Associação Desportiva Jequié, rebaixada no Campeonato Baiano.

O episódio de oito anos atrás faz Douglas destacar outro ponto marcante da personalidade de Alisson: "Se tu pedir para eu dizer alguma coisa que tenha feito nossa relação não ser boa, eu não consigo. Nós nunca tivemos problemas. Até na Taça, quando ele ficou na reserva, não mudou nada a pessoa dele comigo. Continuou sendo do mesmo jeito de sempre, torcendo, dizendo que estávamos juntos, que as coisas dariam certo."

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Casa dos goleiros

Alisson morou com outro goleiro, Guilherme Schelski. A amizade começou na van que levou a dupla de Novo Hamburgo à capital. Aos 17 anos alugaram apartamento que virou ponto de encontro dos goleiros. E de bagunça: "Ele deixava roupa em cima da cama, louça. Mas a gente se dava bem."

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Churrascada

A cumplicidade era reforçada com churrascos e jantares, como conta Rafael Copetti: "O Alisson sempre foi humilde, simples e gostava de estimular essa convivência. No campo, a gente já se estressava tanto que ali era um momento de lazer." Chimarrão e rodas de violão completavam o clima.

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Solidariedade

Alisson se acostumou a presentear jogadores mais jovens e humildes com materiais de treino. Até mesmo goleiros do Internacional (e um deles não quis se identificar) ganharam os itens: "Ele sempre ajudava. Me deu chuteira, luva, me dava as coisas. E não era só para mim. Um cara muito coração."

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Um capitão precoce

Quando tínhamos 12 anos, íamos treinar com as categorias acima. Com 15, ele já treinava no profissional. E sempre fazia tudo bem feito, se esforçava para conseguir treinar bem, no nível dos outros. Ele dizia que ia chegar, que podia demorar, mas que ele ia atingir os objetivos dele. Não é nenhuma surpresa ver onde ele está."

O relato é de Guilherme Schelski, antigo colega de apartamento e padrinho de casamento de Alisson. Antigo concorrente por posição, ele rodou desde a saída do Inter e decidiu se aposentar em 2018. Começou a fazer faculdade de engenharia civil e hoje trabalha como analista de projetos no Rio Grande do Sul. Durante a convivência, identificou outro traço marcante do goleiro da seleção: a personalidade forte.

"O ponto forte dele é o psicológico. Ele tem essa parte mental muito forte, é muito determinado no que faz desde novo. Não se abala com banco, com crítica, com nada. Eu nunca vi, pelo menos. É um cara trabalhador, que vai mais longe do que já foi", conta o ex-goleiro.

Não é à toa que Alisson foi capitão do Inter aos 22 anos e da seleção aos 25.

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Os quadrinhos renderam apelido

Um apelido criado por Daniel Pavan, preparador de goleiros da base do Inter (hoje está no elenco profissional), era bastante repetido entre os goleiros que conviviam com Alisson: Urtigão. É um personagem das histórias em quadrinhos de Walt Disney, um caipira emburrado que vivia empunhando uma espingarda para afastar visitas indesejáveis. Ele é coadjuvante nas histórias do Pato Donald e do Peninha e se irritava com tudo. O apelido para o goleiro da seleção vem daí. Competitivo e sisudo, ele frequentemente perdia a linha quando era provocado.

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Roma

Após um ano e meio como titular do Inter, Alisson foi negociado com a Roma por 8 milhões de euros (R$ 30 milhões). Ele estreou em julho de 2016, mas pouco jogou na primeira temporada. Era reserva do polonês Szczesny, que foi vendido à Juventus. No segundo ano, o brasileiro foi titular e ajudou o time a chegar às semifinais da Liga dos Campeões. Saiu como ídolo e diante de campanhas para que ficasse.

Carl Recine/Action Images via Reuters Carl Recine/Action Images via Reuters

Liverpool

Somente uma temporada como titular da Roma convenceu o Liverpool a desembolsar 72,5 milhões de euros (R$ 322 milhões) pelo brasileiro, que já chegou como titular e fez nova temporada brilhante. Foi vice-campeão inglês, eleito o melhor goleiro da Premier League como menos vazado, e agora tenta o título da Champions, que no ano anterior havia sido impedido pelo próprio Liverpool.

Tem vários jogadores que fizeram sucesso na base, mas que acabaram não conseguindo oportunidades no time principal. Então, procuro manter a cautela. Sempre penso em carreira na Europa. O futebol está cada vez mais precoce. Fico imaginando jogar uma final de Champions League com estádio lotado

Alisson

Alisson, em janeiro de 2011

Reuters/Carl Recine Reuters/Carl Recine

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