É pra poucos

Sávio cresceu comparado a Zico e hoje carrega na pele três títulos de Champions pelo Real Madrid

Gabriel Carneiro Do UOL, em São Paulo
Matthew Ashton/EMPICS via Getty Images

Velocidade, drible e elegância definiram o futebol de Sávio ao longo de 18 anos como jogador profissional. Agora, já são quase dez anos desde a aposentadoria, quando virou um homem de negócios e se aventurou como comentarista.

No início da carreira ele foi comparado a Zico e ganhou apelido carinhoso. No auge, conquistou três edições da Liga dos Campeões da Europa pelo Real Madrid e marcou de vez o nome na história. E até no fim da carreira ele acertou: foi jogar no Avaí, se apaixonou por Florianópolis e vive por lá até hoje.

Ao UOL Esporte, o "Anjo Louro da Gávea" revisita as melhores e piores lembranças da carreira, um piti do zagueiro espanhol Fernando Hierro, a melhor fase esportiva (que não foi nem no Flamengo e nem no Real, acredita?) e mostra orgulho por uma carreira que ele mesmo define.

Isso é para poucos, né? Não é fácil".

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Estreia com título em 1998: Champions virou até tatuagem

Sávio chegou ao Real Madrid aos 23 anos, depois de 261 partidas pelo Flamengo entre 1992 e 1997. Não é como hoje, que os craques dos times brasileiros são vendidos antes mesmo da maioridade. A responsabilidade logo na chegada ao futebol europeu foi proporcional ao peso que ele já tinha como profissional.

A estreia rolou em 4 de março de 1998, no jogo de ida das quartas de final da Liga dos Campeões, contra o Bayer Leverkusen. Ele foi titular da ponta esquerda no time que tinha Hierro, Roberto Carlos, Seedorf e Raúl. Empate em 1 a 1 na Alemanha.

O time espanhol terminou campeão aquele ano. Sávio ficou no banco na vitória por 1 a 0 da final sobre a Juventus, mas cravou seu nome na história do principal torneio de clubes do mundo. O curioso é que o Real Madrid encarava um jejum de 32 anos sem ganhar a Champions. Quem vê o time de hoje, tricampeão consecutivo e rei absoluto do torneio com 13 taças, não imagina como foi o vazio entre 1966 e 1998. "Nem dá para imaginar. Era uma pressão. Até natural, mas era. E a cada fase a pressão parecia que triplicava. Bayer, Borussia, Juventus... Foi realmente muito especial."

"Se não ganhássemos seriam 33 anos sem título, então não ia valer nada chegar na final sem ganhar. Mas vencemos por 1 a 0 e quebramos esse tabu. Foi uma festa muito bonita, Madrid parou, Plaza de Cibeles, carreata, eu nunca tinha vivenciado uma festa tão grande. Acho que foi pela expectativa, pelo tempo sem conquistar a competição", relembra o jovem camisa 20 merengue.

Os títulos da Champions marcaram tanto que ele resolveu colocá-la na pele: ele tem uma tatuagem da taça na panturrilha esquerda.

AP AP

"Teve uma passagem com o Fernando Hierro, que era um dos nossos capitães na Liga dos Campeões 1997/98. Quando nos classificamos em Dortmund para a final, foram colocadas caixas de champanhe pelos organizadores da Uefa no nosso vestiário. Para comemoração da vaga mesmo. O Hierro abriu a porta e botou as caixas para fora. Ele disse ao grupo, daquele jeito incendiando, que nada tinha sido conquistado ainda, que tinha mais uma etapa. Aquilo ali foi interessante para mim, porque realmente era só mais uma final. Você precisa ganhar o título depois de 32 anos e menos do que isso não vale. Ali eu vi um grupo realmente muito comprometido com aquele ano, aquele campeonato. Foi marcante."

Sávio, ex-Real Madrid (30 gols em 160 partidas)

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Papel decisivo na final de 2000

Sávio ainda ganhou a Liga dos Campeões outras duas vezes pelo Real Madrid. "Complicado falar qual foi o título mais especial", reflete. A conquista de 97/98 foi marcante por representar sua estreia e o fim do longo jejum do time, mas foi em 99/2000 que ele se sentiu realmente importante: fez o primeiro gol da campanha em empate com o Olympiacos, ainda na primeira fase, participou de 11 de 17 partidas (com 3 gols e 5 assistências) e ainda teve papel decisivo na final contra o Valencia.

Aos 30 minutos do segundo tempo, o Valencia cobrou um escanteio curto pelo lado esquerdo do ataque, mas Angulo não aproveitou o cruzamento e cabeceou para trás na altura da segunda trave. Sávio estava um passo à frente da pequena área, dominou com o pé esquerdo e lançou em velocidade, nas costas da defesa adversária. Raúl González correu, correu, correu, driblou Cañizares e marcou o gol do título. Um 3 a 0 com participação de gala brasileira.

O camisa 11 ainda participou do título da temporada 2001/2002, mas não jogou no mata-mata, só na fase de grupos. Ele ainda venceu o Campeonato Espanhol, a Supertaça da Espanha (disputa entre o campeão espanhol e o vencedor da Copa do Rei) e uma edição do Mundial de Clubes, em 1998. Curiosamente, sobre o Vasco.

Sávio ainda é um dos brasileiros com mais títulos de Champions

  • Casemiro (4)

    Pelo Real Madrid, venceu as finais de 2013/2014, 2015/2016, 2016/2017 e 2017/2018

    Imagem: Gabriel Bouys/AFP Photo
  • Marcelo (4)

    Parceiro de Casemiro nas conquistas sobre Atlético de Madri (duas vezes), Juventus e Liverpool

    Imagem: Denis Doyle/Getty Images
  • Sávio (3)

    Campeão em 1997/1998, 1999/2000 e 2001/2002 pelo Real Madrid. Ainda jogou a edição 2008/2009

    Imagem: Getty Images
  • Roberto Carlos (3)

    Foi parceiro de Sávio nos três títulos conquistados sobre Juventus, Valencia e Bayer Leverkusen

    Imagem: Jorge Araujo/Folhapress
  • Daniel Alves (3)

    Foi campeão pelo Barcelona em 2008/2009 e 2010/2011 (Manchester United), e 2014/2015 (Juventus)

    Imagem: EFE/Alejandro García
  • Com 2 títulos

    Há 5 jogadores: Adriano e Sylvinho (Barcelona), Serginho e Dida (Milan) e Jair da Costa (Inter)

    Imagem: Reptodução
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Sávio sobre Vinícius Júnior: "Ainda está em formação"

Quando Sávio foi para o Real Madrid, em 1997, era um adulto. Tinha cinco anos como profissional, participado de grandes times e conquistado até uma medalha nas Olimpíadas de 1996 (o bronze após a traumática derrota para a Nigéria nas semifinais).

Mais de 20 anos depois, o Flamengo voltou a vender uma grande revelação para o time de Madri: Vinícius Júnior. As semelhanças, porém, param por aí. O novo galáctico é mais jovem (chegou com 17 anos) e fez só uma temporada pelo clube da Gávea.

"Eu saí do Flamengo com 23 anos, cinco temporadas. Ele tem 18 agora. Mas é um processo natural ir do Flamengo ao real, só que ele está em formação ainda. Tem a questão de adaptação, de entender a parte tática", conta Sávio.

O agora ex-jogador conheceu Vinícius Júnior há pouco tempo, quando foi a Madri para eventos como embaixador do clube: "Conheci um menino maduro, que sabe da importância dessa adaptação. Ele me recebeu em Madri com toda a família. E vi que ele tem alegria no olhar. É um menino que quer fazer história".

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Campeão de tudo pelo Real, mas melhor fase foi no... Zaragoza

Uma série de lesões e a falta de oportunidades fizeram Sávio jogar só oito vezes na temporada 2001/2002. No último ano de contrato com o Real Madrid, foi emprestado ao Bordeaux, da França. Lá, conseguiu atuar com frequência. Foram 36 partidas. Mas a redenção ocorreu, mesmo, na temporada seguinte, quando assinou com o Real Zaragoza, recém-promovido à elite espanhola.

O brasileiro tem impressão que foi por lá que viveu seu auge técnico. Foram três temporadas, 131 partidas, 29 gols e 23 assistências. Além de dois títulos, a Copa do Rei de 2003/2004 e a Supertaça da Espanha, de 2004/2005, dois dos maiores da história do clube.

"Sempre que falam de mim é sobre Flamengo e Real Madrid, mas talvez minha grande conquista atuando, que foi realmente marcante e que pouca gente lembra, foi o título pelo Zaragoza. Não é fácil, pela situação do time, tinha acabado de voltar da segunda divisão. Tiramos o Barcelona do Ronaldinho Gaúcho e na final vencemos justamente o Real Madrid. E eu jogando bem. Foi muito marcante, o título mais difícil da minha carreira", lembra o camisa 10 que se despediu como ídolo.

Sávio decidiu voltar para o Brasil em 2006. Seu pai tinha morrido no fim do ano anterior e ele tinha a ideia de ficar mais perto da família. Voltou, lógico, para o Flamengo.

Patrícia Santos/Folha Imagem Patrícia Santos/Folha Imagem

Uma vez Flamengo

A identificação de Sávio com o Flamengo é gigante. Segundo uma nota do site do clube em 2014, ele é "um dos maiores ídolos da Era Pós-Zico, ao lado de Junior e Romário". Foram mais de 250 jogos pelo clube entre 1992 e 1997, além de alguns poucos na segunda passagem. A maior conquista foi o Campeonato Carioca invicto de 1996, mas há outros grandes feitos, como a artilharia da Copa do Brasil do ano anterior e os gols decisivos na Copa Ouro ou na Taça Guanabara.

Ele também fez parte do "ataque dos sonhos", em 1995, quando o Fla reuniu o melhor jogador segundo a Fifa no ano anterior (Romário), um dos craques do time campeão brasileiro do ano anterior (Edmundo) e sua maior revelação dos últimos anos, comparado até a Zico (ele mesmo, Sávio). O time naufragou. Fez a quarta pior campanha de um campeonato com 24 clubes, encarou a ironia de ser chamado de "pior ataque do mundo" e logo se desmanchou.

Mas a parte boa também entra nas memórias: ele ganhou no Flamengo o apelido de "Diabo Louro da Gávea" do locutor esportivo Januário de Oliveira - depois, atendendo a um pedido da avó de Sávio, virou "Anjo Louro da Gávea".

Patrícia Santos/Folhapress Patrícia Santos/Folhapress

Não acho que tinha como dar certo porque faltou organização. Era o melhor jogador do mundo e o melhor jogador do Brasil naquela época. Mas, sem estrutura, as coisas não acontecem. Eram bons jogadores, mas dentro de um período muito conturbado que durou cinco meses. Porque, em 1996, eu e o Romário tivemos resultados melhores, conquistamos título

Sávio

Sávio, sobre o ataque dos sonhos

Até hoje me emociono quando vou ao Rio de Janeiro e um funcionário antigo do Flamengo lembra de mim, chora quando me vê. Tenho contato com ex-jogadores também, é sempre uma alegria. Metade da minha vida foi no Flamengo, tenho uma admiração e uma torcida que não vão mudar. Guardo muito carinho pelo Flamengo

Sávio, sobre a relação com o clube

Agência O Globo Agência O Globo

Na época essas comparações com o Zico não faziam minha cabeça, não. Mas tem aquela coisa: se você é comparado a um cara desses é porque alguma coisa boa tem. Acabamos virando amigos, é um cara que eu admirava muito e se tornou meu amigo. Até hoje o coração aperta quando chego perto dele

Sávio

Sávio, Sobre a relação com Zico

Nabor Goulart/Freelancer Nabor Goulart/Freelancer

Fim de carreira quase aleatório

A segunda passagem de Sávio pelo time onde despontou para o futebol foi decepcionante. Entre junho de 2006 e janeiro de 2007, as lesões atrapalharam, ele enfrentou dificuldades financeiras e não recebeu salário em mais da metade do período. Em dez jogos, não marcou nenhuma vez no Campeonato Brasileiro. "Voltei para ajudar e tive obstáculos", disse o meia-atacante, na época. Ele saiu para o Real Sociedad para não manchar a imagem e depois passou por mais quatro clubes antes de se aposentar de vez, em 2010.

Foram experiências aleatórias. Uma delas pelo Anorthosis Famagusta, do Chipre. Foi o clube pelo qual voltou a disputar a Liga dos Campeões da Europa oito anos depois do terceiro título pelo Real. Foram quatro partidas no Grupo B, de Werder Bremen, Panathinaikos e Inter de Milão. Aos 34 anos, Sávio fez um gol e deu três assistências e fechou sua experiência no torneio: 39 partidas e participação em 24 gols.

Depois, Sávio voltou à Desportiva Ferroviária, do Espírito Santo, onde nasceu e no clube em que jogou até os 14 anos. "Foi um projeto pelo carinho que eu tinha pelo clube, quis ajudar e foi uma experiência importante, cumprir uma vontade minha. Completei o que queria ter atingido". Em 2010, encerrou a carreira no Avaí.

"Consegui encerrar num clube legal, já estava com 36, amadurecendo a ideia de parar. Fui me preparando, trabalhando para isso, fazendo investimentos, de uma forma tranquila e natural. Valeu a pena", diz o ex-jogador. Seu último jogo foi em 19 de setembro de 2010, pelo Brasileirão, contra o Grêmio.

Acervo pessoal Acervo pessoal

Empresário em Florianópolis

O fim de carreira no Avaí serviu para Sávio se encantar por Florianópolis. É lá onde ele vive até hoje.

E de onde administra uma série de negócios, como uma empresa de investimentos imobiliários, investimentos financeiros e até de gestão de carreiras no futebol. Está sempre entre Floripa, Rio de Janeiro e Vitória, onde tem família. E às vezes arruma tempo até para dar palestras e comentar jogos de futebol, em passagens por Esporte Interativo e DAZN. "Essas experiências nos negócios trazem o mesmo prazer de quando eu jogava", resume.

Ele gosta mesmo é do sossego aos fins de semana. Aos 45 anos, consegue acompanhar de perto os primeiros passos na vida adulta de seus três filhos, Breno (21), Hugo (19) e Lucas (16). E contar a história (para poucos) que escreveu no futebol.

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