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Copa do Mundo Feminina - 2019


Capitã dos EUA virou 'heroína' dos liberais e vilã de partidários de Trump

FRANCK FIFE / AFP
Imagem: FRANCK FIFE / AFP

Marianna Brady

Da BBC News em Washington

14/07/2019 17h50

"Sim, somos um grande país, me sinto muito sortuda de estar aqui. Eu jamais poderia fazer muitas dessas coisas em um monte de outros lugares. Mas isso não significa que não podemos melhorar. Não significa que não devemos sempre lutar para sermos melhores."

Ela venceu a Copa do Mundo, foi artilheira durante o torneio e roubou as atenções no desfile de vitória com seu carisma e seu discurso. Megan Rapinoe é a capitã da seleção de futebol dos EUA e se tornou uma figura polêmica no país - 'heroína' da esquerda e vilã para partidários de Trump. Por quê?

Aos 33 anos, Megan Rapinoe tem sido a estrela desse verão nos EUA. Tem aparecido em programas de entrevista e em capas de revista e crianças ao redor dos EUA - tanto meninos quanto meninas - sonham em se tornar uma estrela do esporte como ela.

Mas apenas um dia depois da vitória do time na França, quando a seleção ainda estava comemorando, posters de Megan nos EUA foram alvo de vandalismo.

Xingamentos homofóbicos foram pichados sobre eles, e a polícia de Nova York diz que investiga se é um caso de crime de ódio.

Na internet, onde suas comemorações dos gols e movimentos de dança viraram memes, também é possível encontrar comentários raivosos criticando sua atitude e seu ativismo, alguns até questionando seu patriotismo.

Comentaristas de internet conservadores dizem que ela "é um mau exemplo para meninas". E enquanto a maioria dos críticos dizem que o fato de não gostarem dela não tem nada a ver com sua sexualidade, o tipo de "herói americano" que ela representa - forte, mulher e lésbica - claramente tem irritado algumas pessoas.

"Ninguém sabe o que fazer com a Megan"

Em um vídeo filmado por uma colega de time que viralizou, Megan grita "eu mereço isso" para a câmera antes de tomar um gole de espumante no deck de um ônibus de dois andares viajando por Manhattan, em Nova York.

Esse tipo de demonstração audaciosa de confiança não é comum para mulheres, diz a professora de história Bonnie Morris, da Universidade de Berkeley, na Califórnia. Tradicionalmente é esperado que as mulheres "se coloquem para baixo e sejam modestas".

"Espera-se que as mulheres sejam muito cuidadosas para não parecer assertivas demais ou inteligentes demais, porque acredita-se que isso seja algo pouco atrativo para os homens", diz ela.

No entanto, a atleta, que é abertamente gay, não parece se importar com a forma como vai ser vista pelos homens.

Quando Megan posou confiante com a cabeça erguida depois de um de seus gols na Copa do Mundo, a imagem se espalhou pela internet com muitas pessoas elogiando sua confiança.

Outros, no entanto, a chamaram de egocêntrica.

"Ninguém sabe o que fazer com a Megan porque ela é atraente, esperta e uma excelente atleta", diz Morris. "Ela conquistou o direito de se apresentar como alguém muito capaz, mas mesmo assim muitas pessoas não querem deixá-la mostrar seu orgulho."

Há dois pesos e duas medidas, diz a historiadora.

Atletas do sexo masculino podem ser impertinentes e bater no peito com orgulho, diz Morris, mas como Megan é uma mulher lésbica de cabelo rosa disposta a desafiar o presidente Donald Trump, acaba sendo surpreendente para pessoas que nunca encontraram alguém como ela.

Atleta e ativista

Megan não foi a estrela do time americano apenas no Estádio, ela foi uma voz ativa em favor das jogadoras fora do campo também.

Ela exigiu salários iguais para o time feminino - mas também usou sua plataforma para falar que questões de justiça social, incluindo pontos sobre os quais a opinião pública americana está profundamente dividida.

Ela foi uma das primeiras atletas americanas proeminentes a se ajoelhar durante o hino nacional - o gesto é usado por atletas para protestar contra os altos índices de violência polícial, especialmente contra negros.

Na França, ela ficou de pé durante o hino, mas não colocou a mão no coração.

Durante a Copa do Mundo, um vídeo antigo de Megan dizendo "eu não vou para a [xingamento] da Casa Branca" voltou a ser compartilhado.

Times vencedores são com frequência convidados para a Casa Branca - um honra que Megan aceitou em 2015, quando seu time venceu a Copa do Mundo e Barack Obama era presidente.

O atual presente dos EUA, Donald Trump, não gostou dos comentários da atleta.

Trump fez um post no Twitter dizendo que ela deveria ganhar primeiro, antes de dizer esse tipo de coisa.

E ela ganhou - dois dias depois, Megan marcou dois gols contra a França nas semifinais e mais um na final, vencendo o torneio.

Mas isso não foi suficiente para alguns críticos.

"Ela na verdade é uma pessoa horrível", escreveu o comentarista Brad Palumbo no jornal Washington Examiner. "Rapinoe tem habilidades no futebol, claro, mas sua atitude superficial e antipatriótica é um epítomo do privilégio de primeiro mundo."

"Ame mais, odeie menos"

"Eu acho que sou particularmente e especialmente e profundamente americana", disse Megan quando foi questionada sobre como é jogar para a seleção nacional. "Se o assunto é os ideais que representamos, a música e o hino nacional, e aquilo que nos fundamenta. Acho que sou extremamente americana."

Ela disse que "não é perfeita" e sugeriu que seu país também não.

"Sim, somos um grande país, e há muitas coisas que são tão maravilhosas, me sinto muito sortuda de estar nesse país. Eu jamais poderia fazer muitas dessas coisas em um monte de outros lugares. Mas isso não significa que não podemos melhorar. Não significa que não devemos sempre lutar para sermos melhores."

Megan repetiu a ideia em seu discurso em Nova York na semana passada.

Ela estava falando nos degraus da prefeitura, próxima à estação de metro onde oito pôsteres da jogadora tinha sido vandalizados com pichações homofóbicas.

A cidade, que teve a maior parada do Orgulho LGBT do mundo há duas semanas, está investigando o caso como um possível crime de ódio.

"Muitas pessoas gostariam que ela marcasse um gol e não dissesse nada, porque eles não querem lidar com uma heroína americana que é uma lésbica orgulhosa e querida", diz Morris, da Universidade de Berkeley.

Ela diz que o mundo avançou muito na aceitação de atletas LGBT nas últimas décadas, mas que ainda falta muito.

Apesar do sentimento anti-LGBT que a fama Megan despertou em alguns, muitos outros veem o seu sucesso como um "momento promissor" para atletas mulheres e para a comunidade LGBT.

Morris diz que ter uma lésbica esperta e bem-sucedida trazendo uma vitória para os EUA sob o olhar do mundo é algo que dá esperança.

"As pessoas estão percebendo que a homofobia é um desperdício de talento e conquistas."

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