Topo

Vôlei

Prós e contras: entenda o que está em discussão no caso Tifanny

Neide Carlos/Vôlei Bauru
Imagem: Neide Carlos/Vôlei Bauru

Beatriz Cesarini e Demétrio Vecchioli

Do UOL, em São Paulo

24/01/2018 04h00

Não será hoje, ou após o próximo jogo do Bauru Vôlei, ou mesmo até a final da Superliga Feminina de Vôlei, que a medicina e a ciência chegarão a uma conclusão se afinal Tifanny Abreu tem ou não tem vantagem esportiva por ter nascido homem, jogado profissionalmente como Rodrigo até os 29 anos, e só ter passado pelo processo de transgenitalização (mudança do sexo anatômico) na vida adulta. Um grande debate, assim, é o que fazer enquanto isso: liberá-la ou não para jogar.

Com cinco partidas disputadas pelo Bauru desde que assinou contrato, em dezembro, Tiffany já é a dona da melhor média de pontos por set da Superliga: 5,00, ante 4,91 de Tandara, oposto titular da seleção brasileira. As atuações da atleta incitaram um movimento entre clubes e rivais no sentido de proibir Tifanny de seguir jogando.

O principal argumento contra o direito dela jogar é um suposto ganho de performance por ter vivido a puberdade masculina, que a fez ter um esqueleto e memórias celular, motora e musculares de um homem. Com 1,92m, ela é a segunda oposto mais alta da Superliga. Não há, porém, nenhum estudo que comprove esse ganho de performance. Nem que demonstre conclusivamente, por outro lado, que não há vantagem.

"Até este momento, não existem estudos publicados sobre a memória muscular de atletas transexuais. Nós estamos agora estudando uma atleta durante sua transição. Estou esperançosa de que possamos estudar mais atletas em alguns anos", disse, ao UOL, a doutora Joanna  Harper, também ela uma mulher trans, professora no Providence Portland Medical Center, nos Estados Unidos, e membro da comissão do Comitê Olímpico Internacional (COI) que decidiu, em 2015, autorizar atletas trans no esporte com algumas condições.

A falta de exemplos semelhantes ao de Tifanny também dificulta uma opinião precisa de especialistas brasileiros. O endocrinologista Magnus R. Dias da Silva, coordenador do ambulatório trans da Universidade Federal de São Paulo, a Unifesp, é responsável por um dos dois grandes núcleos de atendimentos de pessoas trans em São Paulo e nunca atendeu um atleta de alto rendimento.

Berenice Bilharinho de Mendonça, referência nacional em distúrbios do desenvolvimento sexual, que atende no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, também não. Com poucos indivíduos para serem estudados, uma conclusão não sairá tão cedo.

Neide Carlos/Vôlei Bauru
Imagem: Neide Carlos/Vôlei Bauru

"Ainda não temos um ‘n’ (número) suficiente para estudar 10 atletas cis (as nascidas mulheres) de elite, 10 atletas trans de elite que não fizeram a cirurgia e 10 atletas trans que fizeram a cirurgia para poder avaliar esse impacto", argumenta o endocrinologista da Unifesp.

Assim como Harper, ele milita por oportunidades iguais para os trans. Ainda que ponderem que não há estudos conclusivos sobre performance das atletas trans, ambos defendem o direito de todos competirem. A Prof. Berenice também, afirmando que não vê benefícios para as atletas trans. “Se formos discriminar as mulheres trans por serem mais altas deveríamos também limitar a participação das mulheres cis mais altas”, ela argumenta.

Enquanto isso, outros médicos e profissionais de saúde, alguns que só aceitaram falar sob condição de anonimato, defendem restrições enquanto a ciência não tira uma conclusão. Além deles, o UOL ouviu especialistas internacionais, atletas trans, membros do movimento LGBT e pessoas ligadas ao vôlei. Tudo para explicar abaixo os principais questionamentos sobre o assunto, com os pontos favoráveis e contrários da presença de Tifanny em quadra.

Fazer transição após puberdade faz diferença?

Parece consenso na medicina e no esporte que não há motivos para impedir que uma mulher que passou pelo processo de mudança de sexo antes da puberdade compita contra mulheres cis. Afinal, a constituição óssea, celular e muscular não será notadamente diferente.

"Toda mulher trans que nunca experimentou a puberdade masculina deve ser autorizada a competir esportivamente. À medida que mais e mais pessoas trans são poupadas de passar pela puberdade haverá cada vez menos atletas trans que se transpõem depois de se tornarem atletas de alto-rendimento", argumenta Harper.

Superada essa discussão, o debate se concentra em quem passa pelo processo depois da puberdade, como o caso extremo de Tifanny, que jogou vôlei masculino profissionalmente. De acordo com o ginecologista Théo  Lerner, do ambulatório de sexualidade do Hospital das Clínicas de São Paulo, a mulher tem o osso da bacia (pélvis) mais largo, que faz com que o ângulo de entrada do fêmur seja diferente, causando mais incidência de lesões de ligamento cruzado. “A mulher tem mais propensão a lesões”, alega.

Um médico que trabalha com vôlei feminino e falou sob a condição de anonimato levantou outro tema: a maior incidência de lesões atrapalha o desenvolvimento de carreira de jogadoras, o que não acontecerá com uma mulher trans que teve a puberdade masculina. Há ainda muitas outras diferenças entre os corpos masculino e feminino: tecido gordo, condição cardiorrespiratória, resistência dos ossos.

Berenice Mendonça contra argumenta, apontando que fisicamente, em quadra, Tifanny não é diferente das outras mulheres cis, tendo precisado enfrentar as dificuldades do tratamento cirúrgico e hormonal causadas por um histórico de preconceito.

Desempenho em quadra de Tifanny é muito acima da média?

Após iniciar o processo aos 29 anos, Tifanny só voltou a jogar profissionalmente aos 31, ano passado, na segunda divisão da Itália. No retorno, também causou polêmica. Voltou ao Brasil, recuperou a forma física no Bauru, e ganhou um contrato. Estreou já como oposta titular, jogadora mais acionada do ataque do time. Ainda não enfrentou as melhores equipes da competição, mas foi decisiva em duelos contra rivais que também brigam pela classificação aos playoffs.

"A solução não é excluir a Tifanny, até porque a média de pontos dela não é excepcional. Ela tem uma média alta porque é bastante acionada. Mas é algo que tem que acontecer", opina Renata Mendonça, jornalista do site Dibradoras, que milita no esporte feminino. "A Tifanny realmente é uma jogadora alta, mas tem jogadoras mais altas que ela e existem jogadoras mais fortes também. É totalmente notável que a Tandara ataca muito mais forte do que a Tifanny. A gente que assiste jogo tem a nitidez. Tem atletas que tem o braço mais pesado que o dela. Ela ataca forte, mas não é o mais forte do Brasil", reforça Willy Montmann, produtor cultural e capitão do time de homens gays Angels Volley.

"Eu assisti aproximadamente quatro horas de jogos da Tifanny. Ela é uma jogadora bem sucedida na rede. A altura e a força dela estão acima da maioria das mulheres jogadores. Mas ela não é a mais alta jogadora da liga, nem bate a bola com mais força do que algumas das melhores da competição. Ela também é uma defensora abaixo da média, que geralmente deixa a quadra quando está no fundo", avalia Harper, que se mostra bastante interessada no caso de Tiffany, acompanhando-a à distância.

Afinal, ela é uma das principais pesquisadoras internacionais sobre o esporte trans e, num estudo, concluiu que corredoras trans amadoras não apresentaram ganho de performance na comparação com atletas cis. Mas, nessa pesquisa, ela admitiu que em esportes como vôlei e basquete, a altura e a força podem ter influência expressiva. Quanto ainda é impossível dizer. "É um paradigma emergente", comentou um preparador físico, que também não quis se identificar.

Memória biológica beneficia Tifanny em quadra? 

Para esse preparador físico que preferiu o anonimato, a análise deve ser feita em diversos níveis, o que inclui o fisiológico, o bioquímico, e o anatômico. Ele ainda lembra que a coordenação mecânica é outro fator que influi no debate. Tifanny, então Rodrigo, aprendeu a jogar vôlei masculino e, hoje, atua no vôlei feminino. Aos 32 anos, ela precisa aprender um novo tempo de bola, um novo esquema de defesa, uma nova forma de lidar com seu corpo.

Tudo isso enquanto seu corpo passa por transformações, especialmente ligados à memória celular e muscular. A grosso modo, o corpo de Tiffany aprendeu a existir como de homem e, agora, precisa aprender a ser o de uma mulher. Ela não perdeu altura, mas perdeu força. Quanta força é outra coisa ninguém sabe dizer.

"Nos pacientes trans que a gente tem, nunca ninguém se queixou de ter perdido força no trabalho no dia a dia, mas nós nunca fizemos um estudo para mensurar a força de maneira objetiva. Mas isso no dia a dia, não no esporte", conta a Dr. Berenice Mendonça.

"O grande elemento é a memória. Não é só cerebral, é celular também, é da fibra muscular. A memória está relacionada à aprendizagem. E depois vem a manifestação, o cognitivo. O fato de ela se desenvolver com testosterona alta, depois abaixar, isso traz consequência. Mas não há estudos que digam quanto", explica um médico que não quis se identificar.

O endocrinologista Magnus, da Unifesp, ressalta que não existe hoje nenhuma metodologia que consiga medir com segurança e prever os ganhos esportivos em atletas trans em terapia hormonal cruzada e que essa futura metodologia precisa ser desenvolvida em grandes centros. 

Magnus acredita que é “precipitado” refutar a hipótese de ela ter tido um ganho pela puberdade masculina. Mas deixa claro que a "visão biomédica" não pode ser o único fator a ser considerado. "Nosso gênero é uma constituição multifacetada. Ela envolve a biologia, mas envolve sobretudo outras atitudes, um conjunto de experiências e vivências de gênero. Reduzir essa questão de inclusão do atleta trans no esporte ao ponto de vista exclusivamente biológico é, no mínimo, imprudente", avalia.

Neide Carlos/Vôlei Bauru
Imagem: Neide Carlos/Vôlei Bauru

Como foi o processo de transição de Tifanny?

Durante o processo de transição, Tifanny jogou no vôlei masculino da Bélgica e da Holanda já com a aparência de mulher. "Imagina o nível do preconceito que ela sofria no masculino. Ela era claramente uma mulher que jogava com homens, imagina isso", observa Renata Mendonça, jornalista do site Dibradoras, que milita no esporte feminino.

Há quem questione o motivo de Tifanny não ter feito o processo de transição mais nova e só mudar de sexo após jogar por anos como Rodrigo Abreu. A ativista Amara Moira, que também é trans, faz uma ponderação sobre o quanto é difícil tomar uma decisão dessa magnitude quando você ainda é muito jovem.

“Digamos que a Tiffany tivesse começado a transição (quando) adolescente, no começo dos anos 2000. Quantas pessoas trans você conhece com esse perfil e que hoje ocupam posição de destaque na sociedade? Lançar mão desse argumento, antes de mais nada, sugere que seria possível ela começar a transição 10, 15 anos atrás e ainda assim ser a jogadora respeitada que ela é hoje, e não uma pessoa que teve que abandonar os estudos, fugir ou ser expulsa de casa, ver a prostituição precária e mal remunerada como único modo de continuar subsistindo. (Há nos críticos) a convicção de que foi uma escolha de Tiffany ter transicionado agora e não dez anos atrás, mas essa convicção só faz sentido no momento em que tivermos varrido do mapa a transfobia que faz do Brasil, o país campeão em assassinatos de pessoas transexuais [e travestis]”.

Transexual e presidente do Instituto Nice - que faz a reinserção social, profissional e promoção da cidadania LGBT em especial a de travestis e transexuais –, Valéria Rodrigues contou ao UOL o quanto todo o processo de mudança de gênero é complicado. Para ela, Tifanny sofreu e ainda sofre preconceito, inclusive atrapalhando sua carreira.

"Isso não passa de mais uma transfobia diária que nós trans passamos. A transição nos destrói por dentro, são hormônios que nos enfraquecem e nos causam danos irreversíveis. Nossa força não é a mesma de um homem cis", explica Valéria.

Há risco de trans tomarem espaço de mulheres?

Nenhuma das fontes ouvidas pelo UOL e que têm conhecimento sobre o movimento LGBT acredita que a entrada de transexuais no vôlei seja uma ameaça ao espaço das mulheres cis (que nascem no corpo de mulher) no vôlei mundial. Todos eles tratam a situação hipotética de um time inteiro de trans como algo totalmente fora da realidade.

"Não é todo transexual que é um bom jogador de vôlei. Não é esta característica que faz um bom jogador. Você acha que alguém vai querer ser trans para ter benefício no esporte? É uma vida complexa, de discriminação, troca do nome, aceitação. Ninguém vai se motivar a ser trans para ganhar benefícios no esporte", diz, com assertividade, a doutora Berenice Mendonça, do Hospital das Clinicas da USP.

A opinião dela é compartilhada por militantes da causa LGBT. "O que o vôlei está fazendo é incluir as transexuais. Quando você para para pensar que as trans não conseguem trabalhar, apanham na rua, têm alta incidência de suicídio e homicídio... Sendo o Brasil o país que mais mata transgêneros no mundo, existe uma garota que o gênero é de mulher, ela consegue ir para a Europa e jogar como mulher, vem para o país dela e consegue jogar na liga feminina. Isto é romper barreiras e mostrar que é possível trabalhar com dignidade", exalta Willy Montmann.

Neide Carlos/Volei Bauru
Imagem: Neide Carlos/Volei Bauru

Qual o argumento principal de Tifanny?

Enquanto a ciência não chega a uma conclusão, Tifanny e quem defende sua participação na Superliga Feminina usam um argumento como principal arma nessa discussão toda: ela cumpre todos os requisitos exigidos pelo COI e pela Federação Internacional de Vôlei (FIVB).

"Foram feitos todos os testes nela. Temos que entender que ela teve essas habilidades desenvolvidas antes, mas atendeu todas as exigências. Vejo como um certo ciúme do sucesso, da competitividade, do avanço que está tendo. É fácil assim criar uma desculpa por ela ser destaque. Isso acaba acontecendo com todo mundo que se destaca", interpreta Maria Berenice Dias, presidente da Comissão de Diversidade Sexual e de Gênero da OAB.

No congresso sobre mudança de gênero e hiperandrogenia do COI participaram 20 profissionais, que consentiram em quatro regras básicas para atletas trans mulheres. Elas precisam declarar-se mulheres (ou seja, terem esse reconhecimento civil), o que não pode mudar num período de quatro anos; devem comprovar que estavam com níveis de testosterona inferiores a 10nmol/L nos 12 meses anteriores à estreia; precisam manter esse nível enquanto competirem; e se não mantiverem, ficam suspensas por 12 meses. Para o atleta homem trans, não há qualquer restrição.

Dez nanomol por litro de sangue é uma referência internacional para nível próximo aceitável de testosterona de uma mulher, ainda que o valor para mulheres esteja entre 0,21 e 2,98 nmol/L. O prazo mínimo de 12 meses após o início do tratamento foi uma decisão arbitrária dessa comissão médica, mas ainda causa debate. Uma das hipóteses de revisão é ampliar esse prazo. Ainda este ano, o COI quer publicar uma atualização do seu “consenso” incluindo um anexo médico para ajudar as federações a estabelecer suas próprias regras.

Como incluir as trans em esportes de alto rendimento?

Responsável por um site que fala sobre empoderamento feminino no esporte, Renata acredita que Tifanny coloca na pauta do esporte e do jornalismo um tema relevante, que é a inclusão do trans no alto rendimento. Para ela, a discussão teria que aparecer em algum momento e a solução principal é "jamais excluir". Pelo contrário: encontrar maneiras em "como incluir".

"É difícil falar sobre casos que não aconteceram ainda, e ao mesmo tempo é muito bom a Tifanny ter surgido para essa discussão acontecer. A opção não discutir e simplesmente proibir é ruim. Eles deixaram ela jogar. E para ela deve ser difícil jogar em torno de todas essas discussões. Mas era preciso surgir alguém para começar essa discussão. E eu sou bem positiva em relação a isso. Acredito que em uma década teremos mais espaço para transexuais. Não sei como vai ser... Depende dos critérios. Mas de alguma forma acho que eles têm que encontrar uma maneira de incluí-los", acrescenta Renata.

Ao tomar a decisão que continua norteando as normas para que atletas trans compitam no esporte olímpico o COI ressaltou que "é necessário garantir, na medida do possível, que os atletas trans não sejam excluídos da oportunidade de participar da competição esportiva". À época, em 2015, o conselho formado por 20 profissionais e estudiosos apontou que "o objetivo esportivo primordial é e continua a ser a garantia de concorrência” e que "as restrições de participação são apropriadas na medida em que são necessárias e proporcionais ao atingimento desse objetivo".

"O documento do COI tem consciência dos obstáculos todos que uma pessoa trans tem pela frente para se assumir e ainda lutar por um lugar ao sol no mundo dos esportes, mas mais do que isso: o documento assume que pode ser repensado caso novas descobertas médicas e científicas sejam feitas. Em cima de achismos é que não pode ser tomada essa decisão”, conclui a ativista Amara Moira.


Facebook Messenger

Receba as principais notícias do dia. É de graça!