Corintianos sem ingresso assistem ao jogo pela TV em bar ao lado da Bombonera
Um evento da grandeza de uma final de Copa Libertadores da América sempre gera inúmeras histórias a se contar. Quando a ele se somam ingredientes como a paixão do corintiano pelo seu time, e o drama de querer assistir ao jogo no estádio, fazendo-se de tudo para alcançar este objetivo, o resultado é digno de um roteiro de Hollywood.
A reportagem do UOL Esporte acompanhou a partida da última quarta-feira em um autêntico boteco argentino, vizinho ao estádio da Bombonera, onde cerca de uma centena de corintianos frustrados pela falta de ingressos se enfureceram, sofreram e, finalmente, sorriram e explodiram no grito de gol.
Há aqueles que compraram pacote que incluía traslado e ingresso para o jogo e descobriram depois que o dono da suposta agência jamais teve os ingressos para vender. Esses chamaram a polícia e recuperaram o dinheiro. Cada um havia pago 1.600 pesos pelo "pacote", pouco mais de R$ 500. Parte desse montante foi gasto na sequência, em um casamento entre o jeitinho brasileiro e a corruptividade de alguns policiais argentinos, e todos puderam assistir pelo menos ao segundo tempo da partida.
Há outros que adquiriram ingressos falsos e simplesmente engoliram o prejuízo, que ficou preso como nó da garganta até ser ejetado no grito de gol. Há ainda aqueles que foram mesmo sem ingresso para Argentina dispostos a tentar a sorte, mas não a tiveram.
De todas as histórias, porém, nenhuma é mais sensacional que a do comerciante Rodrigo Parente, de 31 anos. Corintiano fervoroso e morador do Rio de Janeiro, ele tratou de comprar sua passagem para Buenos Aires no dia seguinte à classificação do Boca Juniors para a final, na quinta-feira (21 de junho) passada.
Parente só não contava que, no intervalo de uma semana, iria perder a carteira, com o RG dentro. Na última segunda-feira, quando foi embarcar para a capital argentina portando sua carteira de motorista, foi informado que não seria possível.
"Então eu resolvi trocar minha passagem para uma até Porto Alegre", conta ele, descrevendo um movimento aparentemente ilógico. Da capital gaúcha, ele tomou um ônibus para Uruguaiana, cidade na fronteira com a Argentina e a 649 quilômetros de Porto Alegre.
Depois de 12 horas de viagem, o corintiano chegou ao município fronteiriço e conheceu um taxista. "Ele me disse que seria impossível atravessar a fronteira até a cidade argentina de Paso de Los Libres sem portar RG ou passaporte".
Parente, porém, nem pensou em desistir. Perguntou ao taxista se não haveria um método menos ortodoxo de cruzar a divisa. Este lhe disse que, durante a madrugada, apenas um agente policial argentino ficava no posto, e que se ele tentasse cruzar a fronteira longe da ponte que fornece o acesso oficial, talvez tivesse uma chance.
Na madrugada de terça para quarta, então, lá foi o corintiano pelo mato invadir a Argentina. "Achei que estava indo bem, mas quando estava chegando perto de uma rua fui parado. Me levaram preso para o posto da fronteira".
O policial, que não estava dormindo, era enérgico e justo. Não dava nem margem para oferta de propina. Mas Parente chorou, e o policial era torcedor fanático do Boca Juniors e sabia da importância daquela partida. "Ele ficou com dó de mim, eu disse que tudo o que eu queria era ver um jogo de futebol. Disse para que eu voltasse para o Brasil no dia seguinte ao do jogo e me desejou boa sorte, mas não muita, porque torcia para o Boca".
O brasileiro, já um imigrante ilegal na Argentina, caminhou até a rodoviária de Paso de los Libres e lá chegou por volta das 2h da manhã da madrugada de terça para quarta. O próximo ônibus para Buenos Aires, distante 677 quilômetros, sairia somente às 4h30.
Então, sentou e descansou. Ao seu lado, dois homens fizeram o mesmo. "Eles tinham cara de suspeitos, de quem tinham feito alguma coisa, e não fui só eu quem achou", segue contando o corintiano. De fato, dois policiais que passavam pela rodoviária também acharam os elementos ali parados suspeitos. Foram revistá-los e, de quebra, aproveitaram para pedir os documentos de Rodrigo Parente também.
"Quando eles viram que eu não tinha passaporte nem RG, quiseram me deportar". Novo desespero, nova negociação, novo final feliz. O corintiano pegou o ônibus, sentiu o frio na barriga ainda uma vez mais, quando o coletivo passou por uma batida policial, mas finalmente chegou a Buenos Aires, no início da noite, e sem ingresso.
Tentou comprar nas imediações do estádio, mas não conseguiu. Achou caro os que lhe ofereceram, e também temia os ingressos falsos, o fantasma de todos os corintianos na Argentina.
Após toda a saga, Parente contava sua história sem pesar, mostrando irritação apenas quando o Corinthians errava um passe ou o juiz deixava de marcar uma falta, ou ainda quando lhe tapavam a visão da TV de tubo de 20 polegadas do boteco.
O fim do primeiro tempo se aproximava, junto com com o término, até aquele momento, da história de Parente. No intervalo, a reportagem fotografaria o torcedor, para que sua imagem servisse de exemplo da fidelidade e fieldade corintiana.
Neste instante, porém, ouve-se um grito vindo de um torcedor que voltava correndo do último e atrasado ônibus da Gaviões da Fiel, que ficara parado no trânsito portenho, mais tumultuado que de costume por causa de uma greve de caminhoneiros. Havia um ingresso a mais, e este gavião de fina pluma, que já ouvira a história de Parente, sentenciou que este ingresso seria dele, Parente.
O repórter ainda tentou segurar Rodrigo Parente, cinco segundos apenas, um segundo apenas, o tempo para ligar a câmera e tirar a foto. Não foi possível, tampouco seria justo. O final feliz já atrasara demais.
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