Muricy Ramalho, muito antes do tricampeonato brasileiro, foi auxiliar técnico de Telê Santana. Por quase dois anos, a partir de 1995, viu Rogério Ceni praticar cobranças de faltas após os treinos. O time não vinha fazendo gols de faltas, e o goleiro começou a perceber que poderia se arriscar nas cobranças se um dia fosse titular. No fim de 1996, após a definição da saída de Zetti, Muricy comandou o time em amistoso contra o Colo-Colo, no Chile, e anunciou na preleção sem nem avisar o goleiro: se houvesse faltas perto da área adversária, quem cobraria seria o jovem goleiro Rogério, de 23 anos.
“Nessa preleção um conselheiro do São Paulo falou para mim: “Eu posso ver a preleção?”. Ele sentou no último banco. Quando chegou na hora de eu falar quem ia bater as faltas e pênaltis, eu falei assim: “Você bate escanteio, você faz isso, e quem vai bater falta e pênalti é o Rogério”. O conselheiro lá atrás quase caiu da cadeira”, conta Muricy.
“Eu expliquei. Ninguém esperava isso, até os jogadores ficaram cismados. Eu peguei as estatísticas de gol de falta, na época fazia tempo que a gente não fazia gol, e falei para o grupo: “O único que treina aqui é o Rogério, nenhum de vocês treina. Acaba o treino e vocês saem correndo, e o único que fica batendo faltas e mais faltas é o Rogério””, completa.
Não houve faltas perto da área nem pênaltis naquele jogo, que o São Paulo venceu por 4 a 2. A estreia de Rogério como cobrador de faltas ficou na história da preleção, apenas. Três meses depois, porém, ainda sob o comando de Muricy Ramalho, a primeira falta saiu em jogo contra o União São João. Rogério cobrou e marcou o primeiro gol da carreira, que estava começando como titular. Para ele, o gol mais importante da carreira: “Fiz 131 na carreira, todos são fantásticos. Um só? Escolheria o primeiro, através dele todos os outros saíram. Se não sai aquele em 15 de fevereiro de 1997, em março poderia não ter mais essa parte da história da carreira como goleiro”, diz Ceni, hoje.