Diretor pôs Coritiba em risco de suspensão na Fifa por US$ 2 milhões

Napoleão de Almeida

Colaboração para o UOL

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    Negociação com Dion Henrique expôs Coxa a risco de ser suspenso pela Fifa

    Negociação com Dion Henrique expôs Coxa a risco de ser suspenso pela Fifa

A contratação dos desconhecidos Dion Henrique e Ricardinho pelo Coritiba, com direito a registro no BID e tudo mais, poderia ter custado caro ao clube. A ação, investigada em uma sindicância interna do conselho coxa-branca, seria concluída no final do mês de maio, mas um racha na comissão adiou a divulgação dos fatos. A reunião do Conselho do Coritiba na noite de segunda (29) foi quente, com troca de acusações e cobranças diretas ao presidente Rogério Portugal Bacellar.

A tarefa da comissão era descobrir a participação do clube em uma tentativa de esquema de lavagem de dinheiro e violação dos regulamentos internacionais de transferência da Fifa, tudo por conta da decisão da diretoria em aceitar uma proposta obscura e que está rendendo um grande prejuízo de imagem e uma ação trabalhista ao clube.

Foram ouvidas fontes ligadas à gestão do clube e à própria sindicância durante a última semana de abril e todo o mês de maio de 2017.

E-mails comprometedores

Uma troca de e-mails entre o diretor executivo financeiro Fernando Cabral, os empresários dos jogadores e o departamento jurídico do clube apontam que Cabral tentou fazer o Coxa como ponte para uma transação de origem duvidosa. O UOL Esporte teve acesso exclusivo ao conteúdo destes e-mails. Os documentos estão sob posse do departamento jurídico do clube e com acesso liberado para conselheiros, que relataram para a reportagem todo o conteúdo deles.

Entre maio e junho do ano passado, o Coritiba foi procurado pelo advogado paulista Luiz Antônio Matheus, que se apresentou como representante dos jogadores citados e chegou ao clube através do executivo Cabral, que teria sido apresentado pelo empresário Luiz Alberto, da LA Sports. Matheus, Alberto, Cabral e o presidente Bacellar se sentaram no Couto Pereira diante de uma proposta de entrada de US$ 2 milhões nos cofres do Coritiba "a custo zero para o clube", conforme relatou uma fonte. O negócio seria simples: um clube chinês estaria interessado nos dois atletas representados por Matheus, que precisaria de um clube brasileiro de Série A para concretizar uma negociação de US$ 10 milhões. Depois de rodar outros clubes, chegou-se ao Coritiba. Em um dos e-mails, Matheus chega a dizer que "no Guaratinguetá a gente conseguiria tudo 65% mais barato", cobrando a celeridade. Ele apresentou uma proposta para o Coxa para a compra dos jogadores, que sequer haviam sido registrados ainda, mostrando que usava o nome do clube para valorizar os atletas. 

O departamento jurídico do clube então vetou a negociação, alertando para dois riscos: o de lavagem de dinheiro e a violação desportiva do regulamento de transferências da Fifa, incluído no da CBF no artigo 34, que qualifica como transferência-ponte toda transferência que não envolva finalidade desportiva. Dion e Ricardinho chegaram a ser registrados no BID e estarem aptos a jogar, mas não entraram em campo. De currículos desconhecidos, os jogadores chegaram ao Coxa notoriamente fora de forma entre a saída do então diretor de futebol Waldir Barbosa e a chegada do novo, Alex Brasil, quando o clube estava a cargo de Maurício Andrade, CEO.

Em e-mails, Cabral reenviava pedidos de Luiz Alberto e Luiz Matheus para que se agilizasse a documentação de ambos. Dion, por exemplo, estava nitidamente acima do peso e tinha um contrato mensal de R$ 1 mil por mês, algo incomum para um jogador de futebol profissional da Série A nacional com 32 anos. Ele processou o clube posteriormente, em uma reclamação trabalhista. Cabral insistia para que a operação ocorresse rapidamente, descumprindo também o período mínimo de permanência de jogadores em um clube exigido pela Fifa.

O então CEO Maurício Andrade conversou com a reportagem e afirma que a ordem da contratação dos jogadores partiu da presidência. "Recebi uma mensagem com a foto de um destes atletas da tal parceria com um texto: nova contratação. Achei que era brincadeira inicialmente. Liguei para o presidente e ele me disse que explicaria depois", afirmou. Andrade deixou o clube pouco tempo depois alegando problemas de saúde. Ele conduziu o processo de contratação de ambos, mesmo à revelia do departamento jurídico. Segundo apurou o UOL Esporte, Bacellar era pressionado constantemente por Cabral para aceitar o negócio, enquanto discutia a viabilidade financeira dele.

Dinheiro de origem obscura

Justificar a entrada e saída do dinheiro era um dos problemas. O Coritiba publica balanços frequentemente e teria de informar a entrada do valor proposto ao Conselho de Controle de Atividades Financeiras da Receita Federal, o COAF. Esse valor ofertado como "comissão" seria oriundo de um fundo de investimentos de uma equipe chinesa, nunca indicada, tampouco a origem do tal fundo. Um documento chegou a ser apresentado como garantia, mas não passou no crivo do clube, o que ainda assim não impediu a assinatura dos contratos. O dinheiro prometido passaria pela empresa de Matheus, cujo objeto social não tem nenhuma relação com futebol.

Divulgação/Coritiba
Presidente Bacellar (com o microfone) autorizou a contratação dos desconhecidos

Pressionado, Bacellar confiou na execução e autorizou a contratação. Os jogadores iriam sair rapidamente rumo à China, segundo o acordo (o que contraria o regulamento da Fifa e poderia resultar numa suspensão do clube), mas ficaram por pouco tempo no clube, até a chegada de Alex Brasil. O novo diretor de futebol percebeu o risco e cancelou toda a transação, conduzindo um processo de demissão dos atletas por justa causa, o que acarretou na ação trabalhista agora movida por Dion.

Procurado pela reportagem, Luiz Antônio Matheus se limitou a dizer que não representa mais o jogador e procurou isentar o Coxa. "Quem menos tem culpa é o Coritiba. Apareceu uma negociação, era para ele ir para a China e o Coritiba ia fazer uma parceria. Me parece que ele está processando o clube", desconversou, "Eles teriam uma parceria, iriam para o clube chinês, normal. Só que não evoluiu. Não sei se era real ou quiseram usar o Coritiba sem eles saberem." Matheus disse que Dion agora é representado por outra pessoa e desde então não atendeu mais a reportagem.

Luiz Alberto, empresário que teve sucesso na montagem do elenco do próprio Coritiba entre 2011 e 2012, respondeu a reportagem que não tem qualquer laço com os jogadores ou Matheus, limitando-se a uma "coincidência da chegada dos atletas em conjunto com Guilherme Parede", este último sim seu representado e que acabou saindo nas fotos que foram batidas na sala de imprensa do clube. Segundo a assessoria de imprensa do Coxa, "as fotos nunca foram oficiais e sim uma brincadeira dos jogadores", que acabaram as publicando em seus perfis em redes sociais.

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Dion Henrique e Guilherme Parede na sala de imprensa do Coxa: estrago poderia ser maior

O problema foi revelado em uma reunião do Conselho do clube, que então decidiu abrir processo interno. A sindicância ouviu vários envolvidos no caso, como o ex-diretor Waldir Barbosa, o diretor jurídico Gustavo Nadalin, o advogado Lucas Pedrozo e o ex-CEO Maurício Andrade. Todos apresentaram suas explicações sobre o tema, com várias citações a Fernando Cabral. Funcionário terceirizado do clube com sua própria empresa, Cabral respondeu a convocação da comissão de forma informal. O presidente Bacellar se disse surpreso com o parecer do jurídico quando questionado pelo Conselho na segunda, 26 de maio. Disse ainda ao Conselho que "tudo no Coritiba é feito sob a minha supervisão, quem manda sou eu." Porém, no parecer emitido, consta a assinatura do presidente, de Cabral e do ex-CEO Andrade.

Um processo de impeachment chegou a ser cogitado, mas a proximidade com as eleições no final do ano inibiu a ideia, por ora descartada. Além disso, a sindicância afirma ter "poucas provas que culpem a alguém e deve apenas apontar fatos irregulares a serem proibidos no futuro", ainda que toda a troca de e-mails esteja à disposição no clube. 

Procurados através da assessoria de imprensa, o presidente Rogério Bacellar e o executivo Fernando Cabral não atenderam a reportagem. O departamento jurídico do Coritiba disse que não pode comentar o caso por enquanto "por haver ação em fase de defesa".

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