Como um gol de Leto fez Palmeiras demitir técnico e iniciar era vitoriosa

Marcello De Vico e Vanderlei Lima

Do UOL, em Santos (SP)

No Paulistão de 1993, apenas um time foi capaz de superar a 'seleção' montada pelo Palmeiras – então patrocinada pela poderosa Parmalat – em pleno Parque Antárctica. E não foi nenhum de seus arquirrivais. O responsável pelo feito, gigante para a época, foi o Mogi Mirim, que acabou recebendo o carinhoso apelido de Carrossel Caipira. Comandada por Oswaldo Alvarez, o Vadão, a equipe do interior tinha como sua principal arma o ataque formado por Válber, Rivaldo (ele mesmo) e Leto, sendo os últimos os autores dos gols no histórico triunfo por 2 a 1 no Palestra Itália.

A derrota não representou apenas o primeiro resultado negativo do Palmeiras dentro de sua casa no Campeonato Paulista, mas também a saída do técnico Otacílio Gonçalves, abrindo assim espaço para a chegada de Vanderlei Luxemburgo ao comando alviverde, que iniciou uma era vitoriosa do alviverde com o fim do jejum de 17 anos sem títulos e o bicampeonato paulista e brasileiro em 1993 e 1994.

Quem conta melhor a história é Leto, que está com 49 anos e hoje mora na própria cidade de Mogi Mirim. Ele recorda que, depois do bom Estadual feito pelo time do interior em 1993, o trio – além do lateral Ademilson – acabou parando no Corinthians na metade do mesmo ano.

Arquivo pessoal/Leto
"Nós [ele, Rivaldo e Válber] fomos contratados em 93. Em 92 fomos campeões da Copa 90 anos da FPF (Federação Paulista de Futebol) no primeiro semestre, no segundo semestre a gente subiu para a Série A-1 (primeira divisão do Paulista) com algumas rodadas de antecedência, e depois, em 93, casou de a gente fazer um Paulistão bom... Nós ganhamos do Palmeiras de 2 a 1 no Parque Antártica, e ganhar daquele timaço do Palmeiras de 93, lá dentro do Parque Antártica... Sem dúvida foi um grande feito vencer aquele timaço", recorda Leto em entrevista exclusiva ao UOL Esporte.

E engana-se quem acha que o trio formado por Leto, Rivaldo e Válber se conheceu apenas no Mogi Mirim. Os três foram contratados, em 1991, do mesmo clube: o Santa Cruz, de Recife. "Eu sou mais velho que eles. O Válber é de 71, o Rivaldo de 72 e eu sou de 68", conta Leto. "Nós já nos conhecíamos do Santa Cruz. Eu já era profissional e eles eram dos juniores, então eu cheguei a jogar alguns jogos com o Válber e com o Rivaldo. Foi aquele ano em que o Rivaldo foi muito bem na Copa São Paulo de Juniores [1992, Santa Cruz foi o sexto colocado], e eles eram aproveitados no time profissional também, mas o entrosamento fatal foi no Mogi Mirim, com o Vadão", acrescenta o ex-jogador, que ainda passou por Portuguesa e Guarani e encerrou carreira no Villa Nova-MG, em 2002.

Do Santa Cruz para o Mogi Mirim

Reprodução/Álbuns Panini
Destaque no profissional do Santa Cruz após ser puxado para o time de cima por Abel Braga, Leto – além de Rivaldo e Válber – chamou a atenção do Mogi, que tinha Vadão ainda iniciando na carreira de treinador. "De lá [Santa Cruz] eu fui para o ABC de Natal, e nisso o Rivaldo e o Válber, com o Santa Cruz, foram disputar a taça São Paulo de Juniores no mesmo ano. Aí o seu Wilson de Barros, presidente do Mogi Mirim, e o Vadão [técnico] viram o Válber e o Rivaldo, foram para o Recife e trouxeram os dois para o Mogi Mirim; nisso tinha um jogador no Mogi Mirim que jogou lá em Recife, o Marcão, zagueiro, que falou para o presidente Wilson de Barros trazer o Leto também, e foi quando eu, o Válber e o Rivaldo fomos para o Mogi", relembra. "Nós chegamos em dezembro de 91 no Mogi, e teve aquela Copa de 90 anos da FPF. A gente fazia muitos amistosos e passou a se entrosar ali, nesses amistosos, e em 92 nós disputamos o Paulistinha, que era a A-2... Foi na época que surgiu o Carrossel Caipira", diz.

"Vieram os caras lá de cima, eu, Válber e Rivaldo, e outros do Rio Grande do Sul, que não tinham espaço lá e queriam vir para cá para vencer, e a gente sabia que tinha que ganhar de todo jeito... Aí teve o Vadão também, que não era treinador, era preparador físico e estava pegando a oportunidade no Mogi Mirim. Então nós éramos, acredito eu, tudo o que o Vadão queria. Por exemplo, você pega hoje uns caras que têm oportunidade e às vezes não agarram porque ele sabe que, se não agarrar dessa vez, pode ser que ele ainda terá outra oportunidade. Mas naquela época não, ou você fazia ou você ficava preso no clube, e a gente que veio lá do Recife, o Vadão dando a oportunidade, e deu tudo certo", recorda Leto, que nasceu na cidade de Recife e hoje reside em Mogi Mirim. Atualmente, trabalha ajudando a empresariar jogadores.

Arquivo pessoal/Leto
Leto brinca com o neto

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Abel Braga foi responsável por ascensão

Eu tinha um colega que jogava na escolinha do Santa Cruz... Aí eu fui, o treinador gostou e eu fiquei nesta escolinha. Eu comecei no infantil, aí fui para o juvenil, júnior, e o Zecão era o meu treinador nos juniores do Santa Cruz... Aí o Abel Braga me subiu para o profissional, ele que me puxou para o profissional, ele que foi o culpado [risos].

Período curto no Corinthians

Eu queria ter jogado mais no Corinthians, mas o Mário Sergio, que era o treinador e faleceu, falava: 'não tinha como jogar Viola e Leto juntos, eu não ia encaixar muito bem com o Viola', e o Viola estava numa fase muito boa no Corinthians. Mas eu tenho na minha consciência que eu fiz um bom campeonato pelo Corinthians em 93. É claro que eu queria ter ficado no Corinthians, quem é que não queria naquela época; um clube bom, torcida, e o time estava entrosado, mas não deu certo.

O acidente com caminhão

Foi a minha esposa, Eliane, quem estava dirigindo o carro, não fui eu. Muitos falaram que foi o Leto, não é verdade, quem estava dirigindo era a minha esposa. O caminhão, na descida, bateu na quina do carro quando foi ultrapassar, e o carro rodou e infelizmente aconteceu o acidente. Graças a Deus não aconteceu nada comigo e com ninguém que estava no carro, mas infelizmente faleceu o motorista do caminhão, ali foi realmente o meu segundo nascimento.

E a situação atual do Mogi?

É difícil, muito difícil. Eu moro na cidade, ouço os comentários, e é muito difícil saber que o clube pode acabar. Eu ouço que estão querendo derrubar o clube para fazer um shopping... Não estou muito por dentro. A gente que fez grandes jogos naquele estádio saber que um dia pode acabar aquilo ali é triste, mas quem sabe dá jeito também.

Rivaldo tem culpa na crise?

O Rivaldo (que foi presidente do clube) cumpriu com o dever dele, pagou as contas, tudo certinho, saiu sem dever nada para ninguém. Os jogadores que passaram nas mãos do Rivaldo não reclamam, então o Rivaldo não teve culpa. Hoje eu só vejo o pessoal reclamando de descenso... É o quinto rebaixamento do Mogi Mirim, isso é muito triste mesmo. E pelo andar da carruagem a tendência é acabar. Para quem já viu o Mogi Mirim na Série B, a gente fica muito triste, a cidade está um pouco chateada.

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