Vodca, uísque e energético: fichas indicam bebedeira de Daniel e suspeitos

Adriano Wilkson e Karla Torralba

Do UOL, em São Paulo

  • Reprodução/Instagram

As fichas de consumo da festa de Allana Brittes mostram que a família, presa sob suspeita de participação na morte do jogador Daniel Corrêa, gastou R$ 3.182,90 em garrafas de vodca, latas de energético e ingressos na boate em que se comemorou o aniversário de 18 anos da garota.

Daniel, por sua vez, gastou R$ 380 em uma garrafa de uísque escocês e cinco latas de energético. Além das fichas, o depoimento de testemunhas e o exame de necropsia no corpo do jogador apontam um consumo excessivo de álcool pelos convidados da festa, o que pode ter influenciado nos acontecimentos que levaram ao crime. 

Os documentos, obtidos pelo UOL Esporte, mostram um consumo de álcool menor do que o apontado por Edison Brittes, o Juninho, que confessou ter matado Daniel.

Em seu depoimento à polícia, o comerciante afirmou que a festa da filha contou com 35 garrafas de vodca, mas a ficha de consumo de Allana mostra a compra de:

3 vodcas
3 combos de vodca + 5 energéticos
2 combos de uísque escocês + 5 energéticos
20 energéticos

Na ficha de Juninho consta a compra de apenas seis águas com gás. Na ficha de Cristiana Brittes foi anotado apenas o valor da entrada feminina. As mulheres pagaram R$ 10 para entrar na festa, ao passo que os homens pagaram R$ 30.

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A defesa da família protocolou na última terça-feira (13) uma petição para informar à Justiça os valores de consumo na noite anterior à morte do jogador. O advogado Claudio Dalledone Júnior quis "contrapor o que vem sendo divulgado erroneamente pela mídia" em relação aos gastos na boate de Curitiba.

De acordo com uma pessoa que trabalha na boate, as 35 garrafas de vodca mencionadas por Juninho à polícia poderiam ser o número total consumido por todos os convidados da festa, mas essa conta seria muito difícil de fazer, afirmou. A família Brittes reservou dois camarotes para os amigos de Allana.

Reprodução/Facebook

No dia seguinte à festa, conversando com um amigo, a adolescente afirmou que em sua festa havia "bebida que não acabava mais". "Ficamos muito doidos, ressaca brava hoje", escreveu a aniversariante. Durante os interrogatórios, os investigadores perguntaram para muitos convidados se em algum momento da noite houve consumos de drogas ilícitas. Todos negaram.

Já em casa, quando cerca de dez pessoas se reuniram para um "after party", Juninho saiu para comprar mais vodca e energético. Cristiana Brittes, sentindo-se muito embriagada, acabou indo se deitar antes dos demais convidados.

Foi aí que Daniel, que havia gastado R$ 380 em uísque e energético na boate e, mais cedo, já havia participado de uma primeira festa, entrou no quarto da mulher de Juninho.

Uma testemunha, uma mulher que ficou com Daniel naquela noite, afirmou que o jogador "não aparentava estar embriagado". Já o suspeito Eduardo da Silva, que de acordo com relatos teria ajudado no espancamento de Daniel, disse que "todos estavam bem alterados, estando os mais sãos o interrogado, a namorada dele e o [testemunha em sigilo], já os demais não, pois haviam bebido bastante."

O que o laudo de teor alcoólico pode indicar

Após ser espancado e torturado, o corpo de Daniel foi encontrado parcialmente degolado, jogado em uma plantação de pinheiros e com o pênis cortado. Em um laudo toxicológico feito pelo Laboratório de Toxicologia do IML de Curitiba, consta que ele tinha 13,4 decigramas de álcool por litro de sangue. O exame não detectou drogas ilícitas.

De acordo com o médico Fábio Porto, neurologista do Hospital das Clínicas de São Paulo, o teor alcoólico está próximo ao de uma pessoa que poderia sofrer um desmaio decorrente do etilismo.

Reprodução

"Entre 15 e 16 decigramas por litro de sangue a pessoa tem aquela coisa de cair de bêbado", afirmou o médico. "Se a pessoa bebe muito rápido, vomita, fica com o processamento cognitivo muito alterado", explicou Porto.

Segundo ele, com 30 decigramas de álcool por litro de sangue, o indivíduo entraria em coma alcoólico. O teor etílico no corpo de Daniel tem sido usado pelo delegado Amadeu Trevisan e pelo Ministério Público como um indicativo de que ele seria incapaz de se defender das agressões dos suspeitos e também de cometer estupro contra Cristiana. Juninho diz que só cometeu o crime porque o jogador teria tentado estuprar sua mulher.

Antes do crime, porém, Daniel foi capaz de escrever mensagens pelo celular e tirar fotos. Em um áudio enviado a um amigo, ele "jura" que não está muito bêbado.

"Uma pessoa com o nível muito alto não consegue fazer nada"

Procurado pela reportagem para comentar o caso, o médico psiquiatra Primo Paganini, formado pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), afirma que com 13,4 decigramas de álcool por litro de sangue, uma pessoa teria muita dificuldade de reagir a agressões ou ter uma ereção, por exemplo.

"Nesse nível de álcool, eu não espero a violência como resposta. Espero a passividade e sonolência. Uma pessoa com o nível muito alto não consegue fazer nada", afirma ele.

O psiquiatra diz também que tamanho teor alcoólico teria dificultado a própria locomoção do jogador. "É difícil imaginar que alguém que esteja com o nível muito elevado conseguiria ter energia para estuprar alguém ou reagir."

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