Jair mostra ansiedade e desconforto no Corinthians, dizem especialistas

Arthur Sandes e Diego Salgado

Do UOL, em São Paulo

Jair Ventura já não é o mesmo desde a sua chegada ao Corinthians. Dois meses e meio após sua apresentação, o treinador vive um fim de temporada angustiante em meio à indefinição sobre sua permanência ou não no cargo em 2019. A postura triste tem ficado visível em treinos e entrevistas. Por isso, o UOL Esporte ouviu dois especialistas em linguagem corporal para tentar entender um pouquinho do que o técnico tem passado.

A entrevista coletiva mais recente do treinador aconteceu no domingo (25), após o empate com a Chapecoense, resultado que livrou de vez o Corinthians do rebaixamento no Campeonato Brasileiro. É sobre esta entrevista de cerca de cinco minutos que os especialistas em linguagem corporal Alexandre Monteiro e Damis Nemitz detalham suas análises da comunicação não verbal de Jair Ventura. Para efeito de comparação com um momento de relaxamento, foi usada a coletiva da apresentação do treinador, em 7 de setembro, na qual ele atendeu a imprensa por cerca de 30 minutos.

Para Alexandre Monteiro, que se apresenta como mestre em "decifrar pessoas", Jair Ventura se mostra como uma pessoa serena, que prefere construir consenso em vez de partir para um confronto. "Ele é ponderado ao falar e prefere se expressar devagar. É bastante racional e valoriza o trabalho em equipe. Cauteloso, não gosta de arriscar e em geral pensa bastante antes de tomar decisões, talvez demorando a agir", analisa. Com base nesta personalidade, a coletiva pós-jogo contra a Chapecoense mostra o treinador bastante incomodado.

O principal elemento é a postura dos braços, cruzados praticamente o tempo todo. "É um gesto pacificador, que demonstra ansiedade e desconforto", avalia Monteiro, no que coincide com a análise de Damis Nemitz, que vê "uma postura defensiva, que dentre outros motivos ocorre quando queremos nos proteger do que nos incomoda".

Em pelo menos três momentos da entrevista, Jair coça o pescoço ou mexe na gola da blusa que veste. Nas análises compartilhadas com o UOL Esporte, tal linguagem corporal é chamada de "gesto pacificador" e geralmente ocorre em momentos de nervosismo e ansiedade. "Este tipo de gesto remonta aos bebês, que ganham carinho das mães quando vivem uma situação desconfortável. Há o intuito de tranquilizar, acalmar. Em adultos, a reação é uma forma de nos pacificar diante de uma situação de desconforto emocional", explica Nemitz.

Em certo momento, Jair Ventura se ajeita na cadeira, o que para Monteiro representa "um movimento de fuga". Para Nemitz, além disso, seria "uma tentativa de retomar a 'dominância' sobre o nervosismo e voltar a um estado emocional mais assertivo". O frequente lamber de lábios também tem a ver com a ansiedade, pois o ressecar da boca é uma resposta do sistema nervoso simpático a situações de estresse.

Na resposta mais esperada da coletiva, Jair Ventura repete que sua permanência segue nas mãos da diretoria. "A gente segue trabalhando", diz o treinador corintiano. Neste ponto, pode-se ver "uma expressão de desprezo na contração dos lábios", dizem Monteiro e Nemitz. Este desprezo dificilmente teria a ver com a pergunta feita, com o repórter ou mesmo com o Corinthians como um todo. Estaria mais próximo de um sinal de arrependimento, embora não seja possível identificar sua razão.

A conclusão, de acordo com Damis Nemitz, é de que "há a predominância de ansiedade e certa tensão" em Jair Ventura durante a entrevista pós-jogo contra a Chapecoense. O especialista em linguagem corporal avalia que, pela postura defensiva do treinador, há um desconforto que resulta até em respostas evasivas.

Técnico está chateado com indefinição

Daniel Augusto Jr. / Ag. Corinthians

Jair Ventura naturalmente não se sente cômodo no Corinthians; pelo contrário. O treinador chegou em momento delicadíssimo da temporada, às vésperas da semifinal da Copa do Brasil, e tem seus méritos por ter montado um time competitivo na decisão. Mas nas últimas semanas, seu trabalho passou a ser questionado a ponto de o clube se acertar com Fábio Carille para a próxima temporada.

O que deixa o treinador chateado é a situação em si, o fato ocupar um cargo sobre o qual lê notícias a todo instante, sendo questionado frequentemente se continuará em 2019. Jair Ventura reiteradamente coloca a decisão nas mãos da diretoria, que tem tentado abafar o provável retorno de Fábio Carille da forma que consegue - já houve até nota oficial negando o interesse.

O porta-voz de todo o caso é o diretor de futebol do Corinthians, Duílio Monteiro Alves, que acabou dando um passo atrás em seu discurso de manutenção do treinador. Na tentativa de apoiar Jair, no último domingo ele acabou admitindo a possibilidade da chegada de um novo técnico. Começou uma entrevista dizendo que "o Jair continua", mas terminou reconhecendo que, "se houver alguma mudança, será vista posteriormente".

Com a imprensa, Jair "segue o mesmo"

Na própria entrevista coletiva analisada por Alexandre Monteiro e Damis Nemitz, o treinador corintiano afirmou que "segue sendo o mesmo" de antes no trato com os jornalistas. Na última quarta-feira (28), manteve a palavra. Durante uma confraternização entre comissão técnica e imprensa, Jair Ventura foi cordial: marcou presença na brincadeira no campo, uma pelada amistosa, e também no almoço. Em sua provável última semana no clube, ele sai de cabeça erguida.

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