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Fã de Frida, lateral defende Marielle, aborto e alerta sobre democracia

Leo Burlá/UOL
Com imagem de Frida Kahlo ao fundo, Julião fala sobre Marielle, aborto e outros temas Imagem: Leo Burlá/UOL

Leo Burlá

Do UOL, no Rio de Janeiro

2018-12-28T04:00:00

28/12/2018 04h00

Entre referências à pintora mexicana Frida Kahlo e aos mestres renascentistas Leonardo e Michelangelo, o lateral Igor Julião, do Fluminense, constrói um perfil que causa um pouco de estranheza no futebol. Em pouco mais de uma hora de conversa com o UOL Esporte, o tricolor, ao contrário do atleta disciplinado dentro de campo, vai à frente e não tem medo de levar o contra-ataque. Sem censura, o jogador não foge
de bola dividida e faz questão de se afirmar enquanto cidadão.

Parecer "diferente" é corriqueiro na vida do jogador, nascido e criado no subúrbio carioca de Bento Ribeiro, berço de Ronaldo Fenômeno. Famoso por trafegar "pela esquerda", o lateral-direito jura que não vive apenas das leituras do filósofo Nietzsche, dos filmes de Spike Lee ou dos seus amados renascentistas italianos.

Zoações no vestiário

Na concentração, ele afirma, é capaz de conversar sobre todos os assuntos com os colegas de time, que volta e meia zoam sobre seus gostos não muito usuais no mundo da bola. Na última eleição, votou vestido com uma camiseta com a estampa da ex-vereadora Marielle Franco, assassinada, em 14 de março de 2018. A publicação da imagem em seus perfis gerou comentários e, sobretudo, a afirmação de sua personalidade.

"Ela representa a ascensão da mulher negra e favelada. A forma como ela foi calada foi por isso. Você é livre para fazer a camiseta de quem você quiser: fiz a da Marielle. É uma bandeira que a gente levanta, que as mulheres cada vez tenham mais voz nessa sociedade machista", disse o tricolor.

Leo Burla/UOL
Imagens de Frida Kahlo estão na casa do lateral Igor Julião Imagem: Leo Burla/UOL

Os temas que podem parecer mais espinhosos não amedrontam Julião, que encara de frente os assuntos. Em uma pequena pausa, disse que foi recentemente à exposição do artista norte-americano Jean-Michel Basquiat, no Centro Cultural Banco do Brasil. Meio de transporte até o Centro do Rio? Metrô. O espanto generalizado causado pelo seu flagra em um dos vagões após o jogo ente Flu e América-MG lhe causou estranheza: "Quero viver numa sociedade na qual que isso não seja notícia, né?", indagou.

Reflexões sobre sociedade e Brasil são frequentes no dia a dia do jovem de 24 anos. Ao lado de Carol, sua esposa, ele defende com unhas e dentes o empoderamento feminino e garante que o jovem casal não se enquadra do esquema "da família tradicional brasileira". Na cozinha de casa, Julião reforça seu desejo de igualdade ao assumir a tarefa de lavar pratos e fazer seu conhecido risoto nos dias de folga. 

"Eu casei cedo para estar perto da pessoa que amo. Imagina quem se ama e não pode se casar no papel? A gente tem de ter mais carinho pelas pessoas. Elas só querem direitos iguais", disse ele, em referência à comunidade LGBT.

Além da luta por igualdade de gêneros, ele diz categoricamente que é favorável à legalização do aborto e pede uma discussão sobre a discriminalização das drogas, embora diga que nunca tenha usado nenhuma substância ilícita. A poucos dias da posse do presidente Jair Bolsonaro, os assuntos têm dividido as opiniões do país e não são defendidos pelo futuro mandatário. O receio pela perda de direitos, contudo, é mais amplo. Ainda que não tenha vivido a ditadura militar, o atleta pede carinho e atenção com a democracia.

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Estatuetas de mestres renascentistas estão na sala de Igor Julião Imagem: Leo Burlá/UOL

"Que bom que a gente vive numa democracia e o Felipe Melo pode se posicionar e votar no candidato que ele quiser. Mas nossa democracia é jovem, é frágil. Se a gente conhece um pouco de história, sabemos como determinados países perderam a democracia. Temos de estar alerta com todos os presidentes. Tenho algumas posições diferentes do novo [Bolsonaro], mas temos de estar atentos a todos", disse.

Fã do debate, Julião só não discute uma certeza: a de que 2019 será melhor para o Fluminense. Com a experiência de quem já passou por Kansas (EUA), Samorin (filial do Flu na Eslováquia) e Ferroviária (SP), o carioca faz uma declaração de amor ao futebol e explica como é lidar com o ego em um universo recheado de vaidades. 

"Eu não conseguiria sentir o que eu sinto em outra profissão. Não é só dinheiro, sem hipocrisia nenhuma. Sobre ego, baixar a bola é um exercício diário. Quando estamos mal, o exercício é se levantar.,sair do chão. Temos que tentar manter o equilíbrio".

Com contrato até dezembro de 2020, o jogador ainda tem muito a dizer até lá. No campo e também fora dele.

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