Fã de Frida, lateral defende Marielle, aborto e alerta sobre democracia

Leo Burlá

Do UOL, no Rio de Janeiro

  • Leo Burlá/UOL

    Com imagem de Frida Kahlo ao fundo, Julião fala sobre Marielle, aborto e outros temas

    Com imagem de Frida Kahlo ao fundo, Julião fala sobre Marielle, aborto e outros temas

Entre referências à pintora mexicana Frida Kahlo e aos mestres renascentistas Leonardo e Michelangelo, o lateral Igor Julião, do Fluminense, constrói um perfil que causa um pouco de estranheza no futebol. Em pouco mais de uma hora de conversa com o UOL Esporte, o tricolor, ao contrário do atleta disciplinado dentro de campo, vai à frente e não tem medo de levar o contra-ataque. Sem censura, o jogador não foge
de bola dividida e faz questão de se afirmar enquanto cidadão.

Parecer "diferente" é corriqueiro na vida do jogador, nascido e criado no subúrbio carioca de Bento Ribeiro, berço de Ronaldo Fenômeno. Famoso por trafegar "pela esquerda", o lateral-direito jura que não vive apenas das leituras do filósofo Nietzsche, dos filmes de Spike Lee ou dos seus amados renascentistas italianos.

Zoações no vestiário

Na concentração, ele afirma, é capaz de conversar sobre todos os assuntos com os colegas de time, que volta e meia zoam sobre seus gostos não muito usuais no mundo da bola. Na última eleição, votou vestido com uma camiseta com a estampa da ex-vereadora Marielle Franco, assassinada, em 14 de março de 2018. A publicação da imagem em seus perfis gerou comentários e, sobretudo, a afirmação de sua personalidade.

"Ela representa a ascensão da mulher negra e favelada. A forma como ela foi calada foi por isso. Você é livre para fazer a camiseta de quem você quiser: fiz a da Marielle. É uma bandeira que a gente levanta, que as mulheres cada vez tenham mais voz nessa sociedade machista", disse o tricolor.

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Imagens de Frida Kahlo estão na casa do lateral Igor Julião

Os temas que podem parecer mais espinhosos não amedrontam Julião, que encara de frente os assuntos. Em uma pequena pausa, disse que foi recentemente à exposição do artista norte-americano Jean-Michel Basquiat, no Centro Cultural Banco do Brasil. Meio de transporte até o Centro do Rio? Metrô. O espanto generalizado causado pelo seu flagra em um dos vagões após o jogo ente Flu e América-MG lhe causou estranheza: "Quero viver numa sociedade na qual que isso não seja notícia, né?", indagou.

Reflexões sobre sociedade e Brasil são frequentes no dia a dia do jovem de 24 anos. Ao lado de Carol, sua esposa, ele defende com unhas e dentes o empoderamento feminino e garante que o jovem casal não se enquadra do esquema "da família tradicional brasileira". Na cozinha de casa, Julião reforça seu desejo de igualdade ao assumir a tarefa de lavar pratos e fazer seu conhecido risoto nos dias de folga. 

"Eu casei cedo para estar perto da pessoa que amo. Imagina quem se ama e não pode se casar no papel? A gente tem de ter mais carinho pelas pessoas. Elas só querem direitos iguais", disse ele, em referência à comunidade LGBT.

Além da luta por igualdade de gêneros, ele diz categoricamente que é favorável à legalização do aborto e pede uma discussão sobre a discriminalização das drogas, embora diga que nunca tenha usado nenhuma substância ilícita. A poucos dias da posse do presidente Jair Bolsonaro, os assuntos têm dividido as opiniões do país e não são defendidos pelo futuro mandatário. O receio pela perda de direitos, contudo, é mais amplo. Ainda que não tenha vivido a ditadura militar, o atleta pede carinho e atenção com a democracia.

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Estatuetas de mestres renascentistas estão na sala de Igor Julião

"Que bom que a gente vive numa democracia e o Felipe Melo pode se posicionar e votar no candidato que ele quiser. Mas nossa democracia é jovem, é frágil. Se a gente conhece um pouco de história, sabemos como determinados países perderam a democracia. Temos de estar alerta com todos os presidentes. Tenho algumas posições diferentes do novo [Bolsonaro], mas temos de estar atentos a todos", disse.

Fã do debate, Julião só não discute uma certeza: a de que 2019 será melhor para o Fluminense. Com a experiência de quem já passou por Kansas (EUA), Samorin (filial do Flu na Eslováquia) e Ferroviária (SP), o carioca faz uma declaração de amor ao futebol e explica como é lidar com o ego em um universo recheado de vaidades. 

"Eu não conseguiria sentir o que eu sinto em outra profissão. Não é só dinheiro, sem hipocrisia nenhuma. Sobre ego, baixar a bola é um exercício diário. Quando estamos mal, o exercício é se levantar.,sair do chão. Temos que tentar manter o equilíbrio".

Com contrato até dezembro de 2020, o jogador ainda tem muito a dizer até lá. No campo e também fora dele.

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