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SBT na camisa, briga com CBF e Fla: Eurico colecionou polêmicas e desafetos

Do UOL, no Rio de Janeiro

2019-03-12T16:27:09

12/03/2019 16h27

Ao longo de seus 74 anos de devoção pelo Vasco, o ex-presidente Eurico Miranda, que morreu nesta terça-feira (12), colecionou polêmicas, brigas e desafetos por sua atuação no mundo do futebol.

O alvo preferido do cartola sempre foi o arquirrival Flamengo. Para badalar o clássico e consolidar o clube como o maior adversário do Rubro-negro, ele reforçou a sua imagem de inimigo número 1 da "Nação". O que soava como arrogância, era uma estratégia medida e calculada.

"Vasco x Flamengo é um campeonato à parte", dizia ele, que prometia premiações aos jogadores e já distribuiu ovos de Páscoa depois de triunfos sobre o Fla.

Antônio Gaudério/Folhapress
Imagem: Antônio Gaudério/Folhapress

A Rede Globo, veículo de comunicação mais poderoso do Brasil, também foi peitada pelo vascaíno. No mais célebre episódio da briga, ele fez uma provocação que se tornou histórica. E em rede nacional. Insatisfeito com a cobertura jornalística que a televisão fez após a queda do alambrado de São Januário, na primeira partida final da Copa Havelange de 2000, Eurico preparou uma "surpresa" para o novo jogo da final, realizado no dia 18 de janeiro de 2001 no Maracanã. Estampou a marca da SBT na camisa do Vasco, fazendo Galvão Bueno engolir a fala na entrada do time em campo. O gesto rendeu uma guerra velada entre as partes e uma relação que só ficou mais "normal" no último mandato do ex-presidente no clube.

"Tendo sido caluniado, quis o Vasco homenagear quem não o caluniou. Tendo sido vítima de uma odiosa campanha de perseguição, a partir da desinformação e até mesmo da edição de imagens, quis o Vasco homenagear quem dá à opinião pública a verdade dos fatos para que ela os julgue", escreveu Eurico Miranda em uma carta para o SBT, justificando o uso da marca.

O relacionamento com a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) foi intenso. Tão logo Ricardo Teixeira assumiu o poder, em 1989, Eurico foi homem forte da entidade, com poder sobre as seleções e também questões institucionais. Foi ele, por exemplo, um dos grandes mentores da Copa do Brasil, torneio consolidado no calendário nacional até hoje.

Eurico chegou a ter um cargo no início da gestão Teixeira, em 1989, mas deixou a posição meses depois após divergências com o presidente da CBF.

Foi ele também o pivô da briga que culminou com a quase dissolução do Clube dos 13. Escalado para representar os clubes que disputaram a Copa União de 87, Eurico "traiu" as demais agremiações, que não queriam o cruzamento com os times do outro módulo. Campeão e vice daquele ano, Flamengo e Internacional não foram à Libertadores do ano seguinte, e o Sport foi declarado campeão. A matéria foi até o Superior Tribunal Federal, que deu ganho de causa ao Leão.

O Cruzmaltino também teve ação na Conmebol, que foi conivente com uma manobra que tirou o Palmeiras do Mundial de 2000. Nesta competição, O Vasco, que não teria direito a uma vaga, atuou após uma manobra de bastidores. O contexto político conspirou para que a entidade assegurasse o Vasco no Mundial antes mesmo de o Palmeiras decidir a final da Libertadores de 1999 contra o Deportivo Cali. Assim, os vascaínos, vencedores da Libertadores em 1998, garantiram o lugar de um carioca no torneio, o que rendeu apoio político a Teixeira e Maracanã lotado.

Com a imprensa, o relacionamento sempre foi dos mais complicados. Não raro o ex-presidente acusava os repórteres de perseguição. Em um caso que ficou famoso, o então vice-presidente de futebol saiu do Maracanã com a renda de uma partida do Fluminense. A metros de casa, alegou ter sido roubado e a história nunca foi explicada.

Julio César Guimarães/ O Globo
Imagem: Julio César Guimarães/ O Globo

Já em 2004, uma agressão ao repórter Carlos Monteiro, de "O Dia", quase o levou para a prisão. Depois do Fla vencer por 3 a 1 e levantar o Carioca daquele ano, Eurico foi questionado sobre onde estavam os 30 mil litros de chope, promessa feita para a festa do título. Irado, deu um soco no profissional. O cartola foi condenado a seis meses de prisão, mas a pena foi substituída por uma indenização pecuniária.

Nos últimos anos, em seu último mandato à frente do Vasco, novas brigas contra o poder de TV Globo, Flamengo e até CBF: "O respeito voltou, ponto!", repetia Eurico Miranda. O cartola prometia não aceitar diferença no tratamento de entidades e televisão com o cruzmaltino.

Suspeita de fraude em eleição e fim manchado

A saída do poder, no entanto, ficou manchada. Vitorioso nas urnas, em novembro de 2017, viu a Justiça anular a polêmica urna 7 da eleição cruzmaltina e dar a vitória ao grupo de Júlio Brant e Alexandre Campello. O então presidente do Conselho de Beneméritos ainda arquitetou o rompimento entre Campello e Brant, com o médico e aliado de anos assumindo a presidência, mas já não mandava como antes no clube.

Nos últimos meses de vida, a briga era interna na política vascaína. Grupos opositores questionavam as prestações de contas dos seus últimos anos de mandato. Eurico faleceu como viveu quase sempre: envolto em polêmicas, dentro e fora do clube.

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