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Com Caboclo, CBF começa luta para se mostrar nova sem condenar passado

Lucas Figueiredo/CBF/Divulgação
Rogério Caboclo, presidente eleito da CBF, tenta passar uma imagem de renovação na entidade Imagem: Lucas Figueiredo/CBF/Divulgação

Pedro Lopes

Do UOL, no Rio de Janeiro

2019-04-11T04:00:00

11/04/2019 04h00

Os dois primeiros dias de Rogério Caboclo como presidente da CBF tiveram como tema a ideia de apresentar uma nova entidade, se afastando do desgaste de imagem causado pelas acusações de corrupção. Na posse do novo mandatário, ontem, foi anunciado um pacote de novidades, passando por logotipo reformulado e criação de um conselho com ex-jogadores e técnicos. Hoje, no Rio de Janeiro, a anfitriã foi a Conmebol, que apresentou seus números financeiros e anunciou projetos para o futuro no seu congresso ordinário. O contraste entre os dois eventos foi perceptível: perto do discurso da entidade sul-americana, que viveu os mesmos problemas, os passos para a nova CBF parecem ainda tímidos e embrionários.

Ao longo de todo o congresso ordinário da Conmebol - é um evento bianual no qual as confederações e federações membro aprovam as contas, orçamento para o período seguinte e discutem projetos para o futebol sul-americano - o presidente da entidade, Alejandro Dominguez, fez questão de fazer duras críticas aos seus antecessores. Três presidentes da confederação sul-americana entre 2000 e 2015 foram presos por corrupção: Nicolas Leoz, Juan Manuel Napout e Eugenio Figueiredo.

"A Conmebol era radioativa. Ninguém queria se meter com ela, tinham preocupação até em aceitar depósitos de dinheiro dela. Hoje isto está mudando. Os dirigentes tinha perdido de vista o objetivo da confederação, que deixou de ser o futebol e passou a ser o dinheiro", disse Dominguez.

Se entrar no mérito da gestão das entidades, é um discurso bem mais incisivo do que o adotado por Caboclo em sua posse. O dirigente brasileiro, ao anunciar a "nova CBF", se disse "consciente do desgaste de imagem que a confederação sofreu nos últimos anos", sem falar nas práticas que levaram o ex-presidentes José Maria Marin e Marco Polo del Nero à prisão e ao banimento do futebol, respectivamente. Mais do que isso, Caboclo agradeceu de forma efusiva a figuras polêmicas e ligadas à gestão Del Nero.

Um dos agradecimentos foi ao ex-presidente Augusto Carlos Nunes de Lima, o Coronel Nunes. Homem de confiança de Del Nero, assumiu o cargo quando o então presidente foi suspenso e depois banido do futebol. Nas poucas vezes em que aparecia, Nunes se envolvia em polêmicas. Foi o caso quando contrariou acordo entre as confederações e federações sul-americanas para votar no trio EUA-México-Canadá e votou no Marrocos para sede da Copa de 2026. Durante o mandato de Nunes, Del Nero manteve influência no alto da pirâmide do futebol brasileiro.

Outro homenageado foi Gustavo Dantas Feijó. Além de vice-presidente da CBF, Feijó é também prefeito de Boca da Mata, Alagoas, pelo MDB, e acusado pelo Ministério Público de participar de uma organização criminosa que teria desviado R$ 28 milhões dos cofres públicos. Seu afastamento do cargo público foi pedido em ação de improbidade administrativa em março deste ano.

Uma das principais medidas anunciadas por Caboclo foi a criação de um "conselho de craques", composto por Cafu, Ricardo Rocha, Jairzinho, Careca, Muricy Ramalho, Carlos Alberto Parrera, Zinho, Gilberto Silva e Juninho Paulista, Pretinha e Michael Jackson. Ainda não estão claras as atribuções do novo órgão, mas a iniciativa tem similares em um passado recente: Del Nero, em 2015, anunciou o Conselho de Desenvolvimento Estratégico, que contaria com Gilmar Rinaldi, Dunga, ex-técnicos da equipe nacional, treinadores de clubes, atletas campeões mundiais, jornalistas e profissionais de saúde esportiva, para debater "assuntos ligados à evolução da equipe". O discurso, na época, de um órgão consultivo para ouvir especialistas e enriquecer o debate, era similar ao atual.

Dentre os membros do conselho, Juninho Paulista se tornará diretor de desenvolvimento. Ao lado de Leonardo Gaciba, que assume a comissão de arbitragem, é uma das poucas caras novas anunciadas na posse de Caboclo. A enorme maioria da diretoria da CBF, até segunda ordem, permanece, inclusive nomes de confiança de Del Nero, como Carlos Eugenio Lopes, no jurídico, Gilnei Botrel, no financeiro, dentre outros.

Hoje no Rio, a Conmebol anunciou que pretende investir 94% do seu faturamento recorde de 500 milhões de dólares no futebol previsto para 2019 no futebol - 470 milhões, equivalentes a 1,8 bilhões de reais - através de melhoras em premiações, infraestrutura e investimentos. Ao longo dos próximos anos, é nos ações para melhorar o futebol brasileiro que será medida a distância entre o discurso de nova CBF e a realidade.

Se é prematuro qualquer julgamento, é também nítido, nestes dois primeiros dias com Caboclo na presidência da CBF, que a busca para reverter o desgaste de imagem nos últimos anos vem acompanhada ainda da relutância em se distanciar, de forma pública e contundente, dos agentes causadores deste desgaste.

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