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Brasileirão vive primeiro ano após fim da exclusividade da Globo nas transmissões: o que vai mudar?

Chico Silva e Gabriel Carneiro Do UOL, em São Paulo
Lucas Figueiredo/CBF

O ano em que tudo mudou

A Globo é detentora dos direitos de transmissão do Campeonato Brasileiro há mais de 30 anos. O reinado começou com a criação do Clube dos 13, em 1987, para negociar interesses comerciais e políticos dos grandes times de futebol do país. SporTV e Premiere também dominaram os mercados de TV fechada e pay-per-view, e outros canais só puderem exibir em acordos de sublicenciamento, como Manchete, Band, Record e Fox Sports ao longo do tempo.

Mas tudo mudou em 2019: a programadora americana Turner fechou negócio com sete clubes que estarão na elite do Brasileiro e transformou o mercado.

A confusão aumenta porque em agosto do ano passado a Turner anunciou o fechamento dos canais Esporte Interativo na TV por assinatura e todo o conteúdo migrou para canais de filmes, a TNT e o Space, além de serviços de streaming ou por assinatura, como Esporte Interativo Plus e UOL Esporte Clube.

No pay-per-view também há novidades recentes. O Premiere faz venda direta de jogos (sem necessidade que o usuário seja assinante de uma operadora de TV a cabo) há menos de um ano. Por fim, a TV Globo ainda negocia acordo para exibir as partidas do Palmeiras, na TV aberta e no Premiere, e do Athletico, no PPV, ampliando a colcha de retalhos dos direitos de transmissão do Campeonato Brasileiro em 2019.

Quem está no meio desse fogo cruzado é o torcedor. Ao mesmo tempo em que ganha cada vez mais opções para ver futebol (e tenta ser conquistado por elas) ele se depara com preços elevados, pulverização de serviços e uma certa dificuldade para entender como é que tudo vai se desenrolar.

Mas, como diz o meme, "torcedores, calma". Aqui nós tentamos explicar.

O nó da TV fechada

Saiba que canais vão transmitir quais jogos e os confrontos que podem ficar fora da sua TV

Reprodução/SporTV Reprodução/SporTV

SporTV

Transmitirá jogos entre os seguintes clubes: Atlético-MG, Avaí, Botafogo, CSA, Chapecoense, Corinthians, Cruzeiro, Flamengo, Fluminense, Goiás, Grêmio, São Paulo e Vasco. Na primeira rodada serão transmitidos dois jogos. Na segunda, somente um. O "cardápio" é de 156 partidas, mas há cláusula limitadora de dois jogos por rodada, o que reduz o número de exibições.

Reprodução/Facebook Reprodução/Facebook

TNT/Space

Transmitirá jogos entre os seguintes clubes: Athletico, Bahia, Ceará, Fortaleza, Internacional, Palmeiras e Santos. Estão previstas 42 partidas, mas há limite contratual de no máximo dois jogos por rodada, a exemplo do SporTV. Em rodada com três jogos dos times sob contrato, algum não poderá ser exibido. Além disso, em regra, os jogos não serão transmitidos para as cidades em que estão sendo realizados.

Reprodução/TV Reprodução/TV

Fora do ar

Há 182 jogos que não serão transmitidos porque são embates entre times SporTV e TNT. Entre os clássicos paulistas, por exemplo, só Corinthians x São Paulo e Palmeiras x Santos estarão na TV. Grêmio x Inter não será transmitido. Além disso, há 80 jogos que o SporTV não poderá mostrar pela limitação de dois jogos por rodada. Portanto, 262 partidas (69%) do Brasileirão estarão fora da TV fechada.

Alê Cabral/Agif Alê Cabral/Agif

Na TV aberta, o desafio é o Palmeiras

Atual campeão ainda não fechou com a Globo e 26 jogos do Brasileirão podem ficar TOTALMENTE fora da TV

O Palmeiras é o único dos 20 times da elite do Campeonato Brasileiro que não assinou acordo com TV aberta e pay per view. O atual campeão brasileiro fazia parte de uma resistência ao acordo com o Grupo Globo, que ruiu quando Bahia e Athletico debandaram, respectivamente, em janeiro e março. Há conversas semanais entre o clube e a emissora, mas o acordo ainda não está próximo de ser colocado no papel.

São citadas (pelo Palmeiras) "diferenças de conceito" para a demora no desfecho. Uma nova proposta é esperada nos próximos dias e a segurança da emissora é o fato de ter sido a única a fazer proposta na TV aberta.

Mesmo assim, a indefinição faz com que, na véspera da primeira rodada do Brasileirão, o torneio corra o risco de ter, no mínimo, 26 jogos completamente fora da TV, seja ela aberta, a cabo ou pay-per-view. Como o Palmeiras não tem acordo, nenhum jogo contra os 13 participantes Globo/SporTV do campeonato seria mostrado. É um caso parecido com o do Athletico, que fechou apenas com a Globo e não com o Premiere - sempre que a TV aberta optar por transmitir outro jogo que não o do Athletico (quando enfrentar um time do SporTV), a partida do clube entra na mesma zona fora do ar que as do Palmeiras.

Mas porque a demora para fechar, se a Globo é a única que fez propostas pela TV aberta? O entrave mais conhecido é a cláusula de redução do valor pago pela Globo aos times que fecharam com a Turner para TV fechada. É uma espécie de multa, porque a emissora alega que muitos torcedores deixarão de ver jogos na TV aberta e no PPV em nome da TNT. A Globo considera que isso é um prejuízo. Já o Palmeiras vê que as reduções apontam para uma queda de quase 30% no que foi arrecadado no último pacote e que, portanto, não vale a pena fechar.

O clube não descarta negociar jogo a jogo com a Globo, sempre que houver interesse de transmissão. Mas, por enquanto, transmissão de jogos do Palmeiras é mesmo só na TV fechada. E só contra Athletico, Bahia, Ceará, Fortaleza, Internacional e Santos.

Cesar Greco/SE Palmeiras Cesar Greco/SE Palmeiras
Divulgação/CBF Divulgação/CBF

Premiere ganha companhia

O Grupo Globo lançou serviços de pay-per-view (dedicados à venda de programação avulsa na TV por assinatura) em 1996, com o Premiere. Em 2012, colocou no ar o site "premierefc.com", primeira plataforma de exibição de futebol ao vivo via web no Brasil. O pioneirismo seguiu no ano passado, quando o conglomerado lançou o serviço de venda direta do Premiere - até 2018, era necessário ser assinante de uma operadora de TV a cabo para ter a opção de assinar o PPV do futebol.

Hoje, é possível comprar o Premiere Play direto pelo site da Globo, por R$ 79,90 mensais, ou por meio de parceiros, como Sky, Net, Vivo, Oi, Claro e Algar, por valores entre R$ 79,90 e R$ 109,90 em um pacote mais completo, em HD e com as Séries A e B do Brasileirão. Por enquanto, o Premiere só não tem direito de exibir os jogos de Palmeiras e Athletico. São 74 partidas num universo de 380.

Há outra novidade em 2019, que é a inclusão de dois novos serviços de streaming no cardápio do torcedor: Esporte Interativo Plus e UOL Esporte Clube. O aplicativo do grupo Turner tem planos mensal (R$ 19,90) e anual (R$ 13,90) e também é vendido diretamente, sem necessidade de assinatura do TNT. Serão exibidos os jogos entre os clubes que assinaram com a Turner.

O futebol também faz parte de um serviço lançado em 2018 pelo UOL, que ainda reúne conteúdo ilimitado da ESPN (como Campeonato Inglês e NFL) e a coluna UOL de Primeira, com informações em primeira mão dos bastidores do futebol. O serviço oferece um mês grátis e depois cobra R$ 39,90 mensais. O pacote só com EI Plus sai por R$ 19,90 mensais e o com só ESPN custa R$ 21,90.

1ª rodada do Brasileirão: onde ver

Sábado, 27/4

16h
São Paulo x Botafogo (Premiere)
19h
Chapecoense x Internacional (Premiere)
Atlético-MG x Avaí (Premiere e SporTV)
21h
Flamengo x Cruzeiro (Premiere)

Domingo, 28/4

11h
Grêmio x Santos (Premiere)
16h
Ceará x CSA (Premiere)
Bahia x Corinthians (Globo e Premiere)
Athletico x Vasco (Globo)
19h
Palmeiras x Fortaleza (TNT, EI Plus e UOL Esporte Clube)
Fluminense x Goiás (Premiere e SporTV)

Para resumir...

  • 380

    É o número de jogos do Brasileirão

  • 38

    Passarão por praça na Globo

  • 76

    Devem ser exibidos pelo SporTV

  • 42

    Serão exibidos pela TNT + serviços

  • 306

    Serão exibidos pelo Premiere

  • 262

    Não passarão na TV fechada

  • 74

    Não passarão no Premiere (todos, menos Athletico e Palmeiras)

  • 26

    Número mínimo de jogos que, hoje, ficaram completamente fora da TV

Divulgação Divulgação

Turner promete novidades no som e manutenção do estilo "emotivo"

Entrevista com Fábio Medeiros, vice-presidente de esportes da Turner na América Latina:

Como a Turner conseguiu se tornar a primeira empresa fora o SporTV, na TV paga, a transmitir o Campeonato Brasileiro?
"Foi um projeto que nasceu há muito tempo, quando percebemos uma oportunidade que numa época parecia bem improvável. Era um sonho bem distante. Mas a gente foi construindo aos poucos. Começamos a nos envolver com futebol brasileiro com a Copa do Nordeste. Ali percebemos que havia uma janela para novos projetos. Em 2014 começou a ficar mais real, já com o suporte financeiro muito forte da Turner, que entendeu a possibilidade e a oportunidade que isso poderia trazer. Eles entraram no Esporte Interativo antes mesmo da compra de 100% do canal. Desde então começamos a conversar sobre projetos futuros. Isso naturalmente não teria sido possível sem o investimento deles. A gente sabe que o futebol local é sempre o principal direito do país. Até mais importante que o da Champions League por exemplo. Vai além da racionalidade do torcedor. Por mais que o time dele esteja ruim, ele quer vê-lo jogar."

O que o torcedor dos sete times que assinaram com vocês irá ver de novo a partir de domingo?
"A gente sempre teve um pouco esse negócio de trazer o torcedor para dentro da transmissão. Desde a Copa do Nordeste mostramos mais a torcida, aumentamos o som da arquibancada. Uma das novidades é que vamos fazer um tratamento sonoro diferente. Para isso, a ideia é fazer uma operação de áudio assistida. Vamos abrir o microfone no ataque de cada time para ver qual lado da torcida está vibrando mais. Queremos que o torcedor se sinta dentro do estádio. Outra coisa é que cada um dos 20 times do Brasileirão terá um torcedor-símbolo na programação e nas transmissões dos jogos."

Então o estilo "emotivo" dos jogos da Liga dos Campeões, que para muitos não passa de gritaria, vai continuar no Brasileiro?
"Esse não tem muito como mudar. É a parte mais difícil. Transformar a vida das pessoas através da emoção do esporte é o que nos faz acordar todo dia. Esse é o nosso DNA e o grande responsável pelo sucesso do nosso engajamento. Fazemos desse jeito pois de fato acreditamos que aquilo muda a vida das pessoas, nem que seja por dez segundos. Não vamos agradar todo mundo nunca. Mas quando olhamos os resultados, toda semana quebramos o recorde de audiência na Champions League, parece que tem bastante gente concordando conosco. Então não tem como mudar."

Veja a íntegra da entrevista no blog UOL Esporte Vê TV.

Ricardo Borges/Folhapress Ricardo Borges/Folhapress

Globo: "A gente segue fazendo a mesmíssima coisa"

"O objetivo não é minimizar o fenômeno digital, muito pelo contrário. É a constatação que a gente segue fazendo a mesmíssima coisa: produzindo e oferecendo conteúdo, seja gratuitamente, em busca da audiência e da publicidade. Ou então cobrando em busca de receita específica ou mensal (...) eu temo que a gente esteja olhando muito para esse aspecto tecnológico, qual tipo de tela, a maneira de distribuição, quando a gente deve, pelo menos na mesma medida, cuidar mesmo, pelo bem da indústria, é da qualidade do conteúdo, do espetáculo e, principalmente, dos pilares comerciais para manter esse negócio de pé (...) Da perspectiva do consumidor, a evolução tecnológica trouxe da fato impacto no volume e na organização do conteúdo, da mesma forma que a TV a cabo anos atrás."

Fernando Manuel Pinto, diretor de direitos esportivos do Grupo Globo durante o evento "Somos Futebol 2019", da CBF

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