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Quem é Aboubacar, o 'sangue africano' que se salvou pela seleção de vôlei

Abouba vibra em partida contra Cuba pela semifinal do vôlei no Pan - Wander Roberto/COB
Abouba vibra em partida contra Cuba pela semifinal do vôlei no Pan Imagem: Wander Roberto/COB

Demétrio Vecchioli

Do UOL, em Lima (Peru)

05/08/2019 04h00

Em uma época na qual a seleção brasileira tem Yoandy Leal, um jogador nascido em Cuba, como craque, Aboubacar Dramé pode dar a impressão de também ter vindo de fora. Mas o jeito brincalhão e o sotaque candango não enganam: o posto de 2,02m de altura é um legítimo brasileiro, ainda que o sangue africano que corra nas suas veias só tenha chegado do lado de cá do Atlântico há três décadas.

"Meu pai veio para trabalhar na embaixada [do Mali] e trouxe minha mãe. Eles gostaram e construíram minha família aqui. Tiveram duas filhas, depois eu e minha irmã mais nova. A gente é brasileiro, né? Somos brasileiros, mas com sangue africano", diz Aboubacar, chamado por todos de Abouba.

Ele foi o destaque de uma campanha ruim do time B da seleção brasileira de vôlei nos Jogos Pan-Americanos. Comandada pelo gaúcho Marcelo Fronckowiak, a equipe passou raspando pela primeira fase e caiu na semifinal contra Cuba. Neste domingo (4), levou o bronze sobre o Chile. O time principal, do cubano/brasileiro Leal está focado no Pré-Olímpico da semana que vem.

No Pan, apesar da campanha aquém do esperado, o time tem sido muito assediado em Callao, cidade vizinha a Lima onde acontece o torneio de vôlei. Abouba é o mais elogiado e também um dos mais simpáticos. De sorriso fácil e largo, tira foto com os fãs e distribui autógrafos, aproveitando a fama repentina em sua primeira chance na seleção.

Abouba chamou a atenção por seu desempenho no Pan: um ponto positivo em campanha ruim - Alexandre Loureiro/COB
Abouba chamou a atenção por seu desempenho no Pan: um ponto positivo em campanha ruim
Imagem: Alexandre Loureiro/COB

Morador da periferia de Brasília, ele foi formado em um projeto social da cidade-satélite de São Sebastião. Jogou no time universitário da Upis e só foi se profissionalizar aos 22 anos. Pela Superliga, passou por Minas Tênis Clube, Canoas e Taubaté, pelo qual se destacou na temporada passada. A partir de setembro, vai defender o time italiano do Vibo Valentia.

Abouba vai levar para a Itália um debate necessário sobre racismo no esporte. "Já vivi muita situações em que eu não achava que era racismo e depois eu fui entender que era racismo. Tento levar minha raça para onde vou. Em tudo que eu faço, tento dizer que o negro é capaz também. Não é a cor que vai diferenciar a pessoa. Sou negro com orgulho. Recebo muitas mensagens de pessoas que dizem que sou exemplo e sou muito feliz."