Hoje no Corinthians, Gabriel levou até socos na costela na 4ª divisão de SP

Emanuel Colombari

Do UOL, em São Paulo

Em 2008, o volante Paulinho era jogador do Pão de Açúcar na quarta divisão do Campeonato Paulista. Dez anos depois, era titular da seleção brasileira na Copa do Mundo disputada na Rússia. Marcou até um gol, na vitória por 2 a 0 sobre a Sérvia.

A ascensão na carreira foi relembrada por ele em texto publicado no dia 1º de julho pelo site Players Tribune. No relato, citou a passagem de 2008 como um testemunho frente às críticas que recebia pela passagem pelo Guangzhou Evergrande entre 2015 e 2017 – até então, sua primeira.

"As pessoas disseram que a minha carreira estava acabada quando eu fui para o Guangzhou Evergrande, mas… Bem, quando eu estava andando de ônibus na quarta divisão no Brasil (sic), ninguém sabia quem eu era. Eu estava no túmulo, cara. Estava morto pro mundo", descreveu.

Mas foi do "túmulo" citado por Paulinho que surgiram alguns outros jogadores de relativo destaque no futebol nacional nos últimos anos. Um deles, em trajetória semelhante, também deixou a quarta divisão paulista para brilhar no meio-campo do Corinthians: o volante Gabriel.

"Eles davam soco na costela, joelhada"

Nascido na cidade de Campinas (SP) em 10 de julho de 1992, Gabriel começou a jogar bola no condomínio onde os pais moravam. Dali, foi para escolinhas de futebol e, mais tarde, para o futsal da Ponte Preta. Durante a adolescência, foi selecionado para as categorias de base do Paulínia, clube fundado em junho de 2004 e que buscava jogadores em formação na região.

A ascensão ali foi rápida. Disputou a categoria sub-15 em 2007 e a categoria sub-17 em 2008 e 2009. No último ano, chegou às finais do Campeonato Paulista da categoria, caindo diante do Olé Brasil na decisão. Autor de 15 gols na competição, Gabriel ganhou uma vaga no time do Paulínia que disputaria a quarta divisão do Campeonato Paulista em 2010.

Acervo pessoal
Gabriel (primeiro agachado à esquerda) foi jogador na quarta divisão paulista em 2010

A competição começou de maneira positiva para o meio-campista. Disputou 13 dos 14 jogos da primeira fase, sendo 12 como titular, e fez dois gols. O mais importante deles veio em 15 de maio, na terceira rodada, quando o Paulínia recebeu o Desportivo Brasil e venceu: 1 a 0. O time do técnico Evaristo Piza terminaria aquela fase na liderança com 31 pontos, um a mais que o próprio Desportivo Brasil.

Veio a segunda fase, contra Atibaia, Fernandópolis e São Vicente. Foram mais cinco partidas em seis rodadas, sem gols. O time avançou à terceira fase para enfrentar Guaçuano, Inter de Limeira e Santacruzense. Somaram-se então mais seis jogos (cinco como titular), outro gol, e a vaga da equipe nos quadrangulares de acesso à Série A-3 do Paulista de 2011.

Foi justamente na terceira fase que aconteceu o jogo que mais marcou Gabriel. Em 22 de setembro, pela quinta rodada, o Paulínia visitou o Guaçuano em uma partida cheia de expectativa e venceu por 2 a 0.

"Eles tinham um time muito forte e experiente. Na época, saía em jornais que o Paulínia tinha eu e o Cassinho, que crescemos na mesma comunidade, no mesmo bairro, chegamos ao clube juntos. Jogávamos eu e ele na meia. Um procurava o outro no jogo, fazia tabela, ia para cima", relembra Gabriel.

"Os caras falavam que iam pegar, bater na gente. Nosso time ficava na bola parada, espetado para puxar o contra-ataque. O juiz não via, eles davam soco na costela, joelhada. Foi uma guerra, mas foi um jogo em que a gente pegou a bola e falou: 'Vamos deitar em cima desses caras'. Jogamos muito. Fiz um gol nesse jogo", completou. Jailton abriu o placar daquele jogo aos 33 min do primeiro tempo, enquanto Gabriel fez o segundo dez minutos depois.

Reprodução

Na quarta fase da competição, os oito times remanescentes foram divididos em dois grupos. O Paulínia teve Inter de Bebedouro, Primavera e Taboão da Serra em sua chave – da lista, apenas o Primavera não subiu. Na outra chave, Velo Clube, Inter de Limeira e Santacruzense conseguiram o acesso, eliminando o Nacional.

Ao longo da campanha do acesso, o Paulínia fez 32 jogos. Gabriel disputou 31 (sendo 27 como titular) e marcou três gols. Assim como Paulinho havia feito dois anos antes pelo Pão de Açúcar, Gabriel também conseguiu a promoção de divisão.

"No meu primeiro ano no profissional, subimos para a Série A-3. Foi um ano especial para mim, eu tinha 17 anos. Disputei a 'Bezinha' no profissional, fui muito bem", relembra Gabriel. "Fui muito feliz, aprendi muito."

Botafogo ou Paulínia? "Não pensei duas vezes"

Aos 18 anos, Gabriel desceu para o time júnior do Paulínia que disputaria em casa a Copa São Paulo de 2011. Seu time foi o anfitrião do Grupo U, que teve ainda Rio Preto (SP), Botafogo (RJ) e Nacional de Patos (PB). Logo na estreia, o time paraibano foi presa fácil: 4 a 0.

Só que a coisa não saiu como esperado para a equipe anfitriã, que perdeu por 2 a 0 para o Rio Preto na segunda roda. Na terceira, o time teria a dura missão de vencer o Botafogo, que tinha quatro pontos (um empate por 2 a 2 com o Rio Preto e uma vitória por 6 a 2 sobre o Nacional).

Na terceira rodada, o Rio Preto venceu o Nacional por 4 a 2 e avançou. Paulínia e Botafogo empataram por 2 a 2 e foram eliminados na fase de grupos. Só que aquele empate acabou abrindo portas para Gabriel, autor de um dos gols da partida em cobrança de pênalti.

"Nós sempre tivemos times para chegar muito longe na Copinha. Infelizmente, as coisas não davam certo, e gente não passou da primeira fase nesse ano. O time tinha eu, o Fabinho (hoje no Liverpool), o Cassinho (meia do São Bento), o Guilherme Pitty (meia-atacante do Zaria Balti, da Moldávia). Tínhamos uma equipe muito forte. Os jogadores que tínhamos poderiam chegar mais adiante e se destacar mais. Eu era capitão do time, acabei jogando muito bem essa Copinha. Fizemos grandes jogos, especialmente contra o Botafogo", conta Gabriel.

"O Eduardo Hungaro era o treinador do Botafogo, depois veio a ser o treinador da equipe principal em 2014, na Libertadores, e eu acabei jogando com ele. Ele conta uma história em que o dirigente do Botafogo chegou nele e falou: 'Quem você gostou do Paulínia? Tem uns quatro que se destacaram, mas você precisa escolher um, porque a gente não tem dinheiro para contratar os quatro'. Ele disse: 'Eu gostei do (camisa) 8, o Gabriel, que é o motorzinho do time. Tudo passa por ele ali. Eu quero ele para o meu time'. Isso eu me lembro até hoje."

Era o momento de decidir: jogar a Série A-3 pelo Paulínia entre os profissionais ou acertar com o Botafogo, mas para jogar nas categorias de base até o final do ano?

"Não pensei duas vezes. Era o momento mesmo de eu sair, porque eu já estava com 18 anos, ia fazer 19 no meio do ano. Falei: 'É meu momento, preciso respirar novos ares, vestir a camisa de um clube grande, que era meu sonho", contou Gabriel.

Na chegada ao Rio de Janeiro, porém, Gabriel sentiu um pouco a decisão. "No Paulínia, a gente tinha uma estrutura muito grande, muito forte. Quando fui para a base do Botafogo em Marechal Hermes, o clube estava passando por uma dificuldade muito grande, e eu até senti um pouco", reconhece. "Mas o que pesava mesmo para mim era o peso da camisa. Falei: 'Vou ficar, vou chegar ao profissional, aí muda tudo'."

Em janeiro de 2012, Gabriel foi promovido pelo técnico Oswaldo de Oliveira ao time profissional. Ficou três anos na equipe, até chegar ao Palmeiras em 2015. No clube alviverde, conquistou a Copa do Brasil de 2015 e o Campeonato Brasileiro de 2016. No Corinthians, conquistou o Brasileiro de 2017 e o Paulista em 2017 e 2018.

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