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No IML, corpos de atletas e de vítimas da guerra urbana exibem Rio caótico

Folhapress
Torcedores prestam homenagem às vítimas do incêndio que atingiu o alojamento no CT do Flamengo Imagem: Folhapress

Adriano Wilkson e Bruno Braz

Do UOL, no Rio de Janeiro

09/02/2019 04h00

Moradora do morro da Mangueira, Bianca Silva ouviu uma resposta inesperada ao perguntar na recepção do Instituto Médico Legal, no centro do Rio de Janeiro, sobre o paradeiro do filho Lucas, de 18 anos. Mais cedo, ela tinha recebido pelo WhatsApp a informação de que Lucas teria sido um dos 14 mortos da matança na comunidade do Fallet Fogueteiro naquela mesma manhã, e buscava saber se o corpo do garoto havia sido identificado.

"Você vai ter que voltar amanhã", disse um investigador da Polícia Civil no balcão do IML. "Por causa do ocorrido no Flamengo, a cota de corpos de hoje já foi atingida. Novos corpos só serão reconhecidos amanhã."

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A chegada dos dez cadáveres de adolescentes mortos no incêndio do centro de treinamento rubro-negro fez os funcionários do IML deixarem para depois a identificação das vítimas do que a PM classificou como um "confronto contra traficantes" na comunidade do centro do Rio. As duas tragédias aconteceram na mesma sexta-feira (8) em um intervalo de poucas horas.

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Zagueiro Pablo Henrique, de Minas Gerais, foi um dos mortos no incêndio do Flamengo Imagem: Rádio ZapNews

Na porta do instituto forense, familiares dos mortos na operação policial precisaram desviar de um batalhão de jornalistas a postos para registrar a chegada dos parentes dos jogadores. "Não somos do caso do Flamengo", eles diziam, abrindo caminho entre as câmeras e microfones.

No meio da noite de sexta, no estacionamento do órgão, chorou inconsolável o zagueiro do Vasco Werley, primo e mentor do também zagueiro Pablo Henrique, de 14 anos, que morreu no alojamento rubro-negro. Ali também chorou uma mãe que perdeu dois filhos na operação na Fallet Fogueteiro, um avô que tentava liberar o corpo do neto, e uma esposa, Miriam, que lutava para conseguir o atestado de óbito do marido Ricardo, assassinado e carbonizado, supostamente pelo próprio irmão.

"Aqui no Rio é uma tragédia atrás da outra", afirmou Monique, prima de Bianca, que buscava saber se o filho estava morto ou apenas sumido. Desde as primeiras horas da manhã, elas percorriam a cidade atrás do rapaz. No hospital Souza Aguiar, foram orientadas a ir ao IML. No IML, foram orientadas a esperar.

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Em três dias, a cidade registrou 6 mortes em decorrência das chuvas de quarta-feira, 14 após a operação da PM e outras 10 no incêndio no Flamengo, fora os óbitos que a imprensa não noticiou e aqueles corpos que esperam há semanas seu reconhecimento. Comentando a presença incomum de jornalistas, um funcionário do IML deu de ombros e classificou o número de cadáveres naquela sexta - cerca de 30, segundo ele - como "na média, normal".

"Bem-vindo ao Rio", ironizou um jornalista local a um forasteiro quando um veículo policial interrompeu o trânsito de uma avenida movimentada na frente do IML e dele desceu um punhado de soldados armados como se fossem entrar em guerra. A ação acabou resultando em uma inspeção banal. "Aqui não dá pra ficar mais", lamentou outro colega depois de listar uma sequência de tragédias cotidianas. 

Mas quem não pode sair se vira como dá.

Na 42ª Delegacia de Polícia, no Recreio dos Bandeirantes, duas garotas que não quiseram se identificar foram relatar a ocorrência de um crime. Uma delas havia sido agredida e ameaçada por um homem que dizia pertencer a uma milícia. Ao chegar na delegacia, não conseguiram atendimento porque todos os policiais estavam concentrados em recolher o depoimento de 14 jogadores e três funcionários do Flamengo, que são testemunhas no inquérito que apura as circunstâncias do incêndio.

"Estamos abandonadas", disse uma delas, vítima da agressão. "É por isso que muita mulher morre por aí", lamentou a outra. Elas disseram que tentariam prestar queixa na Delegacia da Mulher.

Enquanto isso, as famílias dos jogadores do Flamengo esperavam a identificação das vítimas do incêndio, que precisou ser feita pela análise de suas arcadas dentárias, dado o estado dos corpos. Quatro tiveram a identidade confirmada pelo clube ainda na noite de sexta. O trabalho deve ser concluído no fim de semana, o que liberará os funcionários do órgão para atuar nos óbitos da violência urbana.

O Flamengo ofereceu sua sede social para um velório coletivo. Em uma nota protocolar à imprensa, a Secretaria de Segurança Pública do Rio de Janeiro disse que requisitou documentos e imagens do circuito interno do Ninho do Urubu para "apurar responsabilidades" sobre o incêndio. A Prefeitura afirmou que o Flamengo não tinha alvará para utilizar aquele local específico em seu centro de treinamento como alojamento. 

Desde 2015 o Ministério Público vinha denunciando más condições nos alojamentos da base rubro-negra. De acordo com o vice-governador Cláudio Castro, as primeiras informações periciais apontam como possível causa um curto-circuito em um ar-condicionado no contêiner que alojava provisoriamente os jogadores da base do clube.

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