Por que CT não foi interditado por falta de alvará antes de incêndio?
Falta de alvará, documentos, série de explicações e uma espécie de jogo de empurra. Três dias depois do incêndio que matou dez meninos das categorias de base do Flamengo, uma pergunta segue sem resposta dos envolvidos.
Se o Ninho do Urubu não tinha a documentação necessária - segundo a prefeitura, pelo menos três delas -, por qual razão não foi interditado de fato, não apenas através de multas e demais ações?
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A reportagem do UOL Esporte questionou durante todo o último fim de semana os órgãos envolvidos nos últimos dias para explicar os motivos que mantiveram o Ninho do Urubu aberto mesmo sem a documentação necessária para funcionar. Poucas respostas, muitas dúvidas. Por fim, uma semelhança: ninguém explica o que mantinha o CT funcionando.
O que diz a Prefeitura do Rio, responsável por liberar a área

Da mesma forma, também não havia permissão para a construção de um dormitório e a instalação de contêineres na área que foi atingida pelo incêndio. Por que, então, não houve fiscalização?
A prefeitura informou que conforme expresso na legislação (Lei 3.800 de 1970), só é exigida a vistoria presencial dos técnicos da Secretaria Municipal de Urbanismo em dois casos: quando da conclusão da obra para a emissão do habite-se, que não era o caso do CT do Flamengo; e em caso de denúncia, o que não ocorreu.
A dúvida persistiu. E a reportagem questionou o poder municipal do Rio de Janeiro novamente: quem deveria fiscalizar, então?
Segundo a prefeitura, parte do papel é da Secretaria Municipal de Fazenda no que diz respeito ao alvará de licença para o estabelecimento. Como o clube estava funcionando sem o devido alvará, foi autuado, o que gerou um edital de interdição.
A partir daí, as demais multas se deram em função da desobediência àquele edital. A administração municipal informou que a Fazenda cumpriu a legislação ao interditar o Ninho do Urubu - medida descumprida pelo Flamengo -, já que o alvará não foi concedido por ausência de apresentação do certificado do Corpo de Bombeiros. No entanto, a Secretaria de Fazenda não tem o poder de interditar por questões de segurança.
O que diz o Corpo de Bombeiros

O Flamengo se justifica. Internamente, o discurso repete parte do que o Corpo de Bombeiros informa e diz que a corporação esteve lá por quatro vezes em 2018, viu o contêiner diversas vezes e nunca constatou irregularidade. Logo, ainda que não estivesse no projeto original, o local foi visto pelos homens que fiscalizaram.

Pergunta sem resposta
A reportagem questionou novamente a prefeitura após as respostas, mas não obteve retorno. A dúvida permanece: Quem poderia interditar o CT? Prefeitura e Secretaria nunca se limitaram em ir além da multa, uma vez que já sabiam da infração? Só poderiam vistoriar com obra própria ou denúncia?
Dúvida segue no Flamengo
O UOL Esporte também entrou em contato com o Flamengo e não recebeu resposta até o fechamento da matéria sobre as multas e interdições. Durante 14 meses a Secretaria Municipal de Fazenda atuou de forma diligente e tentou fechar o Ninho do Urubu, mas as determinações dos Fiscais foram ignoradas, diz a prefeitura. Em cima disso, o Flamengo não cumpriu a determinação por qual motivo? O clube preferiu pagar as multas?
Gestão Bandeira se mostra inconformada
Embora não conceda entrevistas, a diretoria anterior do Flamengo, responsável por grande parte das obras no CT, se mostra inconformado com a prefeitura, segundo apurou o UOL Esporte.
Segundo eles, nunca foi avisado que havia uma interdição do CT como alega em notas a prefeitura. A argumentação é de que o CT não era clandestino e, sim, público e notório que funcionava todos os dias sob os holofotes de televisões. Então, argumentam os dirigentes, porque não fecharam a instalação?
Outra alegação é de que a diretoria rubro-negra teve vários encontros com o prefeito Marcelo Crivella desde a primeira autuação e ele nunca mencionou nenhum problema em relação ao CT. Há a lembrança inclusive de que houve um jogo em parceria entre Flamengo e município, em 2017, para reversão da renda para restaurantes populares.
Tecnicamente, a argumentação é de que o único alvará que faltava era a licença final do Corpo de Bombeiros. E que, apesar disso, nunca houve interdição. Outro argumento é que o próprio centro administrativo da prefeitura até pouco tempo não tinha a mesma licença que faltava ao Flamengo. Apesar da falta de documentos, integrantes da antiga gestão alegam que tudo foi feito para garantir a segurança de funcionários e jogadores.
As respostas são poucas. Os questionamentos, muitos. Por ora, tudo que se sabe é que os documentos apresentados pelo Flamengo em pronunciamento no último sábado não representavam garantias de funcionamento.
Treino "normal" sem autorização

Ainda que os órgãos informem que a licença atual permite apenas obras, e não o funcionamento do centro de treinamento, o elenco estará lá na hora prevista. Como foi no último sábado. E, sem interdição, como se projeta para os próximos dias.
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