UOL Esporte Handebol
 
13/03/2009 - 07h00

Técnico diz que seleção feminina de hanbebol é desafio maior que a Cruz Vermelha

Maurício Dehò
Em São Paulo
O dinamarquês Morten Soubak viveu dentro de uma guerra e até trocou de país perseguindo o sonho de ser técnico de handebol. Nesta semana, ele recebeu o que classifica como maior desafio de sua vida: comandar a seleção feminina brasileira de handebol, substituindo o espanhol Juan Oliver. Desafio maior até que seu trabalho com a Cruz Vermelha, na década de 1990, quando cuidava de refugiados do conflito no território da então chamada Iugoslávia.

DINAMARQUÊS ASSUME O COMANDO
Divulgação
Morten Soubak foi apresentado na seleção feminina ao lado do espanhol Javier Garcia Cuesta, que comandará o time masculino
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O técnico dinamarquês em ação com seu ex-time, o Pinheiros, com o qual ganhou títulos como da Liga Nacional e do Paulista
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Logo depois de sua experiência ajudando vítimas da guerra, entre 1992 e 1995, ele teve uma passagem de menos de um ano pelo Brasil, antes de voltar definitivamente ao país em 2005, já com experiências em seleções de base em seu país. No comando do Pinheiros, comandou um dos clubes mais fortes do país e colecionou títulos, como da Liga Nacional e do Campeonato Paulista.

Agora, volta a trabalhar com mulheres - o que já fizera na Dinamarca, comandando inclusive a veterana goleira Chana em um clube-, e tem um objetivo de respeito, que é levar o handebol brasileiro ao seu primeiro pódio em um Mundial. A melhor chance será em dois anos, quando o campeonato será sediado no Brasil.

Leia a entrevista com o novo técnico, que conta seus episódios do passado e, diante do novo desafio, mostra-se empolgado e afirma com seu forte sotaque que nasceu "no país errado".

UOL Esporte: Muito antes de você assumir este compromisso na seleção brasileira, você trabalhou ainda na Dinamarca com a Cruz Vermelha. Como foi isso?
Morten Soubak: Este trabalho aconteceu na época da guerra na Iugoslávia, nos anos 90. Havia muitos refugiados da Iugoslávia que foram para diversos países da Europa, entre eles a Dinamarca, onde eu ainda vivia. Em Copenhague, havia um dos centros para os refugiados morarem, um navio que não andava mais e recebia cerca de mil pessoas. Ali, meu primeiro trabalho foi como coordenador de esportes para adultos e adolescentes.

UOL Esporte: Como funcionava esse serviço?
Soubak: A ideia era que eles voltassem para a Iugoslávia quando a guerra acabasse, mas eles acabaram ficando. Eu coordenava a parte de esportes. Tinha o lado da prática, com futebol, basquete, handebol. Depois ajudávamos as pessoas a entrarem nos clubes para jogarem, além de darmos aulas de inglês e dinamarquês. As histórias eram muito tristes, de pessoas que chegavam em estado de choque. Algumas sabendo que tinham famílias em perigo e outras que já tinham familiares mortos.

UOL Esporte: Você já trabalhava com o handebol?
Soubak: Neste período, entre 1992 e 1995, eu era ao mesmo tempo técnico de um clube de handebol. Mas a Cruz Vermelha é onde eu trabalhava mesmo, já que mesmo o handebol sendo profissional, não dava recursos para eu me sustentar. Comecei no handebol ainda criança, quando jogava. Depois morei um tempo nos Estados Unidos e, na volta, entrei numa faculdade de esportes, conseguindo o diploma como técnico de futebol e handebol. Comecei a trabalhar como técnico e gostei no início, era uma nova experiência. Gostava de trabalhar com times de base, que tinham garotos muito talentosos. Senti saudade de jogar, mas não tinha como conciliar as duas coisas.

ENTENDA A GUERRA DA IUGOSLÁVIA
A guerra civil da Iugoslávia aconteceu na década de 1990, quando os diversos povos que habitam a região dos Balcãs, na Europa, passou a lutar pela independência. Entre os povos que lutaram estavam os sérvios, os bósnios e croatas, no que gerou um conflito, também na região de Kosovo.

A Croácia declarou independência em 1991, o que deu início à maior guerra vista na Europa desde o fim da Segunda Guerra Mundial. O conflito abriu caminho para um embate ainda mais violento da Bósnia, a partir do ano seguinte, chegando à criação de países como a Montenegro e Sérvia.
UOL Esporte: E a vinda para o Brasil, como aconteceu?
Soubak: Fui chamado pela mesma pessoa que foi meu diretor do Pinheiros. Em 1995, ele me convidou para ser técnico do time de Osasco e fiquei entre nove e dez meses antes de voltar para a Dinamarca. Em 2005 ele me chamou para voltar e concordei, comecei a treinar o Pinheiros.

UOL Esporte: Você teve dificuldades de adaptação?
Soubak: Na primeira vez lembro que era muito diferente para mim. A cultura, o problema da língua. E o time era formado por muitos amadores, gente que às vezes faltava porque tinha que ficar no trabalho... Eles tinham talento, condições de jogar, mas era um time ainda amador. No Pinheiros foi totalmente diferente. Um clube de alto padrão, com motivação para chegar lá em cima e ganhar títulos. Inclusive foi bem mais rápido para eu falar melhor português.

UOL Esporte: Por que você decidiu trocar seu país pelo Brasil?
Soubak: Eu me apaixonei pelo Brasil, adoro o povo daqui. Acho que nasci no lugar errado (risos). Não era uma discussão muito difícil para decidir. Cheguei aqui com um grande sorriso e hoje é com muita emoção que chego à seleção.

UOL Esporte: Como você se sente assumindo este posto. Era algo que você já almejava?
Soubak: Ganhar a oportunidade de trabalhar com a seleção brasileira é uma grande honra. Obviamente vou entrar no trabalho com ainda mais força. Quero trabalhar com todas as categorias, para tentar ajudar as seleções a conseguir melhores resultados em todos os aspectos.

UOL Esporte: No Pinheiros, foram quatro anos trabalhando com o time masculino. Qual a diferença de pegar a seleção feminina?
Soubak: Na verdade, não é diferente para mim. Há alguns anos eu estava com time feminino aqui no Pinheiros. Então a maior diferença é entre ser técnico de clube e de seleção. Só vou ter as jogadoras algumas vezes durante o ano, não é o mesmo contato com os seus jogadores de clube. Ainda mais aqui, na nossa seleção feminina, que tem a maioria das jogadoras na Europa. Pelo menos ainda poderei contar com as juvenis e juniores que atuam aqui.

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UOL Esporte: Esse fato de as melhores jogadoras estarem em sua grande maioria fora do país prejudica ou beneficia a seleção?
Soubak: Eu acho que o que levantou a seleção nos últimos anos é que temos muito mais jogadoras nos times europeus. Mais ainda agora, que temos várias que jogam por boas equipes. Jogar na Europa não significa nada se você fica no banco de um time ruim. Tem de ser um bom time e isso está acontecendo atualmente.

UOL Esporte: Como você fará para acompanhá-las?
Soubak: Estou vendo três caminhos. Tenho de pedir para as próprias jogadoras mandarem informações, utilizar os acessos que já tenho por lá e ir assistir aos jogos ao vivo, aproveitando para conversar com elas. Conhecer, saber como está o clube, os treinos. É necessário para sabermos quem temos e quem tem qualidade para entrar no time. Este ano será importante porque preciso ver também jogadoras mais novas, das bases, que em um ou dois anos integrarão o time no Mundial e nas Olimpíadas.

UOL Esporte: Tanto no masculino quanto no feminino, o Brasil ainda peca nos momentos decisivos. Como trabalhar para evitar este tipo de problema?
Soubak: Este é um assunto difícil, que acontece a cada jogo. Treinar isso é complicado, precisa-se muito do lado psicológico para essa decisão nos segundos finais. Mas é claro que não é uma novidade. Tecnicamente, seria uma boa ideia treinar isso agora, que temos calma para fazer. Mas acho que as jogadoras mais experientes, que já estiveram muitas vezes neste tipo de situação, conseguem com o tempo decidir o que é certo e o que é errado nestas horas.

UOL Esporte: O Brasil sediará o Mundial feminino de handebol, em 2011, tentando superar a sétima colocação de 2005. Isso pode ajudar?
Soubak: Fora da quadra, acho que ter um Mundial no Brasil, o primeiro na América, dá uma grande motivação, será de grande ajuda para nós. Em Santa Catarina, que sediará os Jogos, espero que os torcedores possam fazer uma boa parte nos jogos do Brasil e espero que levantem o time ainda mais na competição. Ainda vamos ter agora um período para treinar forte e concluir o time que vai jogar o Mundial de 2011 e o dos Jogos Olímpicos de 2012. Mas a primeira prioridade é o Pan-Americano no mês de julho, que classifica para o Mundial deste ano, na China.

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