Mais que um gol perdido

Deivid foi herói na Turquia, onde ainda é celebrado. No Brasil, títulos e artilharias não apagaram um rótulo

Gabriel Carneiro Do UOL, em São Paulo
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Deivid conta com bom humor uma história que aconteceu há cinco anos, quando ele já tinha parado de jogar bola. Como auxiliar técnico do Flamengo, fez uma visita à Turquia ao lado de Gabriel Skinner, então gerente de futebol, para conhecer a estrutura de um lugar para a pré-temporada. No avião a caminho de Istambul, o ex-atacante ouviu um grupo de pessoas chamando sua atenção.

Deivid, Deivid, I love you, Deivid. Chelsea! Chelsea!"

Pelo Fenerbahçe, Deivid fez um gol inesquecível nas quartas de final da Liga dos Campeões da Europa, contra o poderoso time inglês, em 2008. Ele é muito ídolo por lá, protagonista de um dos maiores momentos da história do futebol turco. Foi nesse momento que entrou a parte irônica da história. Deivid nega a mágoa, mas ela está lá, no fundo: "O Gabriel virou e me falou: 'Cara, vai morar na Turquia. Lá os caras lembram o gol que tu fez. Aqui, os caras lembram o gol que tu perdeu'. Faz parte", dá de ombros o ex-jogador.

O gol que Deivid perdeu pelo Flamengo em 2012 (e toda a sua repercussão) é apenas mais um assunto desta longa entrevista do ex-atacante ao UOL Esporte. Ele também fala sobre as passagens, sem manchas e com títulos e artilharias, por Cruzeiro, Santos e Corinthians, conta a história de lutas e perdas e de sua família e suas diversas experiências no futebol - inclusive a frustrante demissão como técnico do Cruzeiro.

Aos 39 anos, tem orgulho de tudo o que construiu: "Chego nessa idade bem de vida, bem comigo mesmo, realizado. Então olho para trás e falo: 'Puta, valeu a pena, eu faria tudo de novo', e é isso".

Aqui embaixo está tudo o que ele faria de novo.

"Faz parte da profissão"

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Brincadeira sobre gol perdido rolou apenas sete anos depois

Foi na semifinal da Taça Guanabara de 2012. O jogo estava empatado até 35 do primeiro tempo. Léo Moura roubou a bola na entrada da área, fintou Rodolfo, foi até a linha de fundo e rolou para o meio. O goleiro Fernando Prass já tinha saído para abafar e Deivid se posicionou com perfeição na pequena área, na frente do gol, sem marcação e nem goleiro.

O atacante acertou a trave.

Ele não acreditou. Nem Prass, que já estava dando bronca na zaga. Deivid foi xingado pelos flamenguistas e aplaudido pelos vascaínos, que ainda comemoraram a classificação para a final. Naquele ano, o Fluminense foi campeão, mas esse lance se eternizou.

Deivid deu entrevista coletiva no dia seguinte. Ele sabia que ia ser o foco. Assumiu a culpa, se disse triste, mas falou que isso faz parte. Alguns dias depois, a produção da TV Globo quis que ele participasse de um quadro chamado Inacreditável Futebol Clube, uma "homenagem" a quem perde gols fáceis. O jogador se recusou. "Eu falei: 'Não, não estou aqui para brincar. Isso aqui não é uma brincadeira, é um trabalho sério e vocês querem tirar sarro'. Os caras ficaram chateados, mas era meu pensamento".

Deivid só vestiu a camisa do Inacreditável FC sete anos depois. Foi no quadro "Boleiragem", comandado pelo ex-jogador Roger Flores no SporTV. "Ele estava me ligando direto, falando que era um quadro novo, para eu fazer primeiro com ele. Ele é meu amigo, estava com um programa novo e eu fiz. É o preço de gostar de alguém".

Falar sobre isso não me magoa. Até porque já é cultural do brasileiro falar as coisas negativas antes das positivas. Eu coloco coisas melhores na frente

Deivid

Deivid, autor de 31 gols em 99 jogos pelo Flamengo

André Ricardo/UOL André Ricardo/UOL

Lance teve peso até na aposentadoria de Deivid

Depois de defender nove times em quase 20 anos de carreira, Deivid pendurou as chuteiras aos 35, pelo Coritiba. Foi cedo. Ele ainda tinha propostas de Botafogo, Bahia, Goiás, Vitória, Criciúma e do próprio Coxa para seguir no futebol. Hoje, conta que são três os principais motivos da decisão.

1 - A ausência no funeral da mãe: certos sacrifícios não valem a pena

"Eu perdi a minha mãe em 2009 e já foi um processo que me acelerou um pouquinho. Eu tinha quebrado minha perna no dia 7, durante a pré-temporada do Fenerbahçe. Fui operado na Alemanha, coloquei nove parafusos na fíbula (osso da perna) esquerda. E a minha mãe faleceu no dia 13. Eu não pude vir para o velório porque podia dar trombose, embolia, complicações. Então, é uma coisa que me marcou muito. Foi uma coisa que eu bati muito na tecla, falava: 'Ah, o quê que adiantou?' Ficar tanto tempo fora e não poder dar mais para a pessoa que fez eu chegar onde eu cheguei? Até onde o dinheiro é importante?"

2 - A passagem sem títulos e com rótulos negativos pelo Flamengo

"Eu vim para o Flamengo em 2010 e fiquei dois anos sem receber. E, dentro de campo, não aconteceu da maneira como eu esperava. Em todos os times em que eu joguei aqui no Brasil eu fui campeão. Então, você espera ser campeão também, espera marcar seu nome na história do clube. E não foi o que aconteceu. Teve até uma marca negativa (o gol perdido em jogo decisivo). Eu ainda consegui fazer 21 gols no ano, terminando como artilheiro junto com o Thiago Neves e o Ronaldinho Gaúcho. Mas esperava mais".

3 - A distância da família e o choro do filho enquanto morava em Curitiba

"Eu saí do Flamengo para o Coritiba e deixei minha família no Rio, fui morar sozinho em Curitiba. Meu filho na época tinha de 7 para 8 anos e me ligava chorando, falava que estava com saudade. Foi apertando. Também fiquei um ano sem receber lá. Eu falei: 'Pô, estou aqui no frio, sem receber, longe da minha família, o meu filho com saudade. Vale a pena?' Isso também deu uma acelerada. Fiquei treinando, tive algumas propostas, mas achei melhor encerrar e tomar conta dos meus negócios".

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Uma história moldada por perdas

Maria de Souza, mãe de Deivid, morreu aos 73 anos, por complicações cardíacas. Ela criou, nas dificuldades de uma casa de um cômodo no subúrbio do Rio de Janeiro, sete filhos. Deivid é o caçula. O pai da família morreu quando o filho mais novo tinha só nove meses, vítima de um ataque cardíaco. Em 2001, quando atuava pelo Santos, o jogador também perdeu uma irmã mais velha, Magda, por problemas no coração aos 33 anos. Deivid foi moldado pela dureza da vida.

"As minhas perdas também me fortaleceram. Eu sei que o rumo natural da vida é a gente morrer e outros virem, então passei a encarar a vida de verdade. Eu sempre fui muito determinado. Para quem já passou pelas dificuldades que eu passei na vida, a responsabilidade de jogar no clube A ou B não me assustava".

Deivid vendeu pastéis, churrasquinho e pipoca nas ruas para ajudar no orçamento de casa quando era criança. Conciliava com os treinos na escolinha Frutos da Terra, em Nova Iguaçu. Quando foi treinar no time profissional da cidade, era comum não ter dinheiro para a passagem.

Hoje eu tenho três filhos e eles sabem de toda a história do pai, da história da avó. Então, quando eles veem um apartamento desse aqui, a gente sabe que não foi fácil de ter. Por isso que eu dou valor a cada centavo. A cada coisa que eles me pedem eu mostro o quanto foi difícil de ter

Sobre a história da família...

Eu também sempre conto a história da avó, porque a avó deles foi muito forte. Criar sete filhos com R$ 500 por mês e fazer um dos filhos virar o que virou é uma coisa que é para se chamar a atenção. A nossa infância marca, me marcou muito a minha infância, a pobreza e tal

...e as dificuldades da infância

"Era milho hoje ou pão amanhã"

Almeida Rocha/Folhapress Almeida Rocha/Folhapress

No começo de carreira teve até carro arranhado em Santos

"Eu cheguei no Santos em 1999 para fazer um teste. No mesmo dia, uma pessoa me falou: 'Cara, tu não vai passar, não, porque o atacante aqui é bom pra caramba e tem muita moral'. Eu falei: 'Então beleza'. E comecei a trabalhar na minha, sozinho. Acabou eu ficando e ele sendo mandado embora".

Deivid se destacou na Copa São Paulo de Juniores de 1999 pelo Joinville e acertou com o Santos na sequência, a princípio para o time júnior. Já jogou pelo time principal no mesmo ano: "O Pelé e o Ramos Delgado me viram treinar na base, fiz três gols. O Pelé me tirou do treino e mandou ir para a Vila assinar contrato. Assinei e em outubro subi para o profissional com o Paulo Autuori. Estreei em novembro e fiz dois gols no Cruzeiro. Não saí mais". Ou melhor: saiu em junho de 2001. Para o Corinthians.

"Eu botei o clube na Justiça. Na verdade, o clube me colocou na Justiça, porque acabou o contrato e eu saí livre. Eu queria ser valorizado. Veio um monte de medalhão na época, ganhando absurdos. Meu aumento ia ser quase nada. Eles me desafiaram, disseram que eu não tinha para onde ir, mas eu tinha proposta. Do Corinthians e do Cruzeiro. Eu fui ficando, o Vanderlei Luxemburgo me ligando e quando acabou, eu acertei com o Corinthians", relembra o atacante, que viveu uma batalha jurídica de pelo menos cinco anos com o Santos. Fora os perrengues...

Eu não podia andar em Santos. E minha esposa é daqui. Eu vinha pegar ela e a gente ia jantar em São Paulo, porque eu chegava em restaurante de Santos e ninguém me servia, arranhavam meu carro, chamavam o meu sogro de mercenário...

Fernando Santos/Folha de S. Paulo Fernando Santos/Folha de S. Paulo

360º

Deivid rodou para ser campeão no mesmo lugar

Fernando Santos/Folhapress Fernando Santos/Folhapress

Corinthians

Deivid foi apresentado pelo Corinthians em julho de 2001. A passagem foi marcante, e não só pelos 99 jogos, 37 gols e três títulos. Foi com as luvas recebidas neste contrato que ele comprou uma casa para a mãe. Em campo, brilhou mais sob o comando de Carlos Alberto Parreira. No fim de 2002 combinou um aumento que não houve. Abriu mão de valores que tinha a receber do clube.

Paulo Fonseca/Folha Imagem Paulo Fonseca/Folha Imagem

Cruzeiro

Novamente indicado por Luxemburgo, já chegou como ídolo. Em 2002, no primeiro jogo das quartas de final do Brasileirão, ele tinha marcado quatro gols pelo Corinthians contra o Atlético-MG. Deivid estreou pelo Cruzeiro no clássico e fez um gol. Ele ficou no clube de fevereiro a julho de 2003, foi campeão mineiro, da Copa do Brasil (como artilheiro) e esteve na campanha do Brasileiro com 15 gols.

AFP AFP

Bordeaux

"Se eu tivesse a experiência que tenho hoje não teria ido." Os franceses pagaram 5,1 milhões de dólares ao Cruzeiro e acertaram a contratação do então artilheiro do Brasil. Ele saiu do país no auge e jogou menos do que esperava. Isso além da gravidez da esposa, que teve a 1ª filha do casal em outubro. Deivid acha que se tivesse esperado poderia ter ido para um centro maior.

Reuters Reuters

Santos

Uma enquete na internet indicou: 99% da torcida era contra a contratação em 2004, quando a mesma diretoria contra quem ele batalhou na Justiça procurou o Bordeaux. Santistas não foram ouvidos e o atacante chegou em maio. Terminou o ano campeão brasileiro e com 21 gols (além de oito anulados erroneamente). Em julho de 2015 foi vendido pelo Bordeaux ao Sporting. Saiu ídolo.

AFP AFP

Consagração no futebol turco

Deivid jogou um ano no futebol português até ser comprado pelo Fenerbahçe em agosto de 2006. "Lá eu virei ídolo mesmo", ele admite.

A palavra não é exagerada. Foram quatro temporadas na Turquia e três títulos. Outro feito que entrou para a história foi na temporada 2007/2008 da Liga dos Campeões da Europa. Pela primeira vez na história, um clube do país chegou às quartas de final do maior torneio de clubes do mundo. O time era dirigido pelo brasileiro Zico e contava com Deivid, Alex, Roberto Carlos e Edu Dracena, além dos quase brasileiros Lugano e Maldonado. Em Istambul, o Fener venceu o Chelsea de virada por 2 a 1 no jogo de ida. Deivid foi o autor do gol da vitória aos 36 do segundo tempo, em lindo chute de direita, de fora da área.

O Chelsea venceu o jogo de volta em Stamford Bridge por 2 a 0, gols de Ballack e Lampard, mas não evitou que o elenco do Fenerbahçe fosse recebido como herói na volta para casa. Alex era o grande ídolo da geração, hoje tem até estátua do clube, mas todos os outros brasileiros colheram frutos desses tempos de glória.

A história do clube tem muito jogador brasileiro. É impressionante a identificação. Desde a época de Didi, Lazaroni, Parreira, Zico... E os jogadores, o Washington passou por lá, o Simão, eu, Alex, Edu Dracena, Marco Aurélio, Vederson, Roberto Carlos. Aí o Lugano, que é brasileiro (risos), Maldonado

Sobre os 38 gols em 108 partidas...

Marcou muito, é o maior time da história do clube. Marcou época, o clube nunca tinha passado da primeira fase da Champions League e chegamos nas quartas de final. Então marcou história. E ainda foi um prazer trabalhar com o Zico, é um cara sensacional, fiquei tremendo quando conheci

...em sua passagem entre 2006 e 2010 no Fener

Fatih Saribas/Reuters Fatih Saribas/Reuters
Reprodução/Instagram Reprodução/Instagram

Relação com o Fener ainda não acabou: agora é como empresário

Deivid deixou o Fenerbahçe em agosto de 2010 para defender o Flamengo, clube que torcia na infância. Depois, atuou pelo Coritiba até anunciar sua aposentadoria, em abril de 2014. Já são cinco anos fora dos gramados, mas a relação com o clube turco continua. Agora nos bastidores, como empresário.

"Estou conversando muito com o Fenerbahçe, de a gente trabalhar em conjunto, de levar alguns jogadores e monitorar outros para eles aqui no Brasil. Tivemos uma conversa recente em São Paulo e as coisas estão indo da forma como eu planejei quando eu estava jogando lá. Estou feliz, olhando o mercado brasileiro", diz.

Deivid gerencia a carreira de alguns jovens jogadores do futebol brasileiro, como Kaiky Naves, meia do sub-17 do Palmeiras, e jogadores em clubes como Vitória, Criciúma, Mirassol eConfiança. Ele ainda estampa a marca da empresa Deivid Sports na camisa dos times de base do Jabaquara, de Santos.

Washington Alves/Light Press/Cruzeiro Washington Alves/Light Press/Cruzeiro

"Pausa" como técnico

O plano A de Deivid depois de parar de jogar não era ser empresário. Ele queria mesmo é ser treinador. Concluiu todas as licenças do curso de formação da CBF, fez estágios com Abel Braga e Geninho, fez fonoaudiologia para vencer a gagueira e ser mais assertivo em declarações e trabalhou desde o ano da aposentadoria como assistente técnico. Ao lado de Vanderlei Luxemburgo, esteve no Flamengo e no Cruzeiro. Continuou na Raposa depois da demissão de Luxa e trabalhou ao lado de Mano Menezes. Até que Mano saiu para a China em 2016. E Deivid foi efetivado.

O primeiro trabalho como técnico durou só até abril. Foram 18 partidas, com 11 vitórias, cinco empates e duas derrotas. Sim, apenas duas derrotas - e em uma delas o time foi dirigido por Pedrinho, seu auxiliar. Aproveitamento de 70%. O Cruzeiro de Deivid avançou em primeiro lugar e invicto no Campeonato Mineiro, mas caiu para o América-MG nas semifinais. O treinador pagou o preço da eliminação.

"É uma coisa que eu gosto, está no sangue, eu me preparei e estudei. Só que tem muitos amadores trabalhando no meio do futebol. O profissional te contrata, mas ele não tem a certeza que você é o treinador. Então você perde dois, três jogos, ele te manda embora. Ele não tem convicção. Fica muito difícil conseguir colocar o que você pensa, o que você estudou, o que você preparou, o que você jogou durante vinte anos", desabafa o treinador.

Quer dizer... "Eu dei uma parada na carreira de treinador. Me deixou chateado. Para ficar igual cigano eu achei melhor dar uma pausa e ter novos projetos. Eu tinha 36 anos na época em que eu assumi. Diziam que era muito jovem, não tinha experiência. O Vanderlei Luxemburgo, com 60 e poucos anos, é ultrapassado, eu, com 36, sou jovem, então o quê que é? A experiência está em você pegar vinte clubes, não ganhar nada, aí você é experiente. Tu não ganhou nada, mas tu é experiente", desabafa Deivid, que também teve passagem de 28 partidas pelo Criciúma em 2017.

"Mandado embora com 1 derrota"

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Aos 39 anos, Deivid escolheu Santos para morar agora que ninguém sai riscando seu carro.

Ele faz viagens frequentes a Istambul e Lisboa para tocar os negócios, mas a base é no Brasil. É casado, tem filhos de 15, 13 e nove anos e curte "esse lado família". "Eu não tive um pai na minha vida, então faço para eles tudo o que não tive." A escolha pela cidade para viver não é à toa: aos sábados e domingos, ele está na praia jogando futevôlei com um grupo de amigos. "É uma terapia. O cara que vive com um salário mínimo convive com o que ganha milhões e o papo é o mesmo, somos todos iguais", reflete o ex-jogador.

Ele também frequenta os times em que jogou. Está direto no Fener, é ídolo do Cruzeiro, bem recebido no Corinthians, visita o Flamengo e frequenta a Vila Belmiro para ver o Santos. "É o legado que tu deixa. Não tenho antipatia de torcida nenhuma. Essa é minha história."

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