Jeróme Valcke beija Ricardo Teixeira em encontro dos dois no Rio de Janeiro, em 2010
Andrew Jennings, jornalista da BBC inglesa, já fez críticas contra a Fifa, o COI (Comitê Olímpico Internacional) e seus dirigentes. Agora, um dos poucos repórteres vetados em eventos das duas entidades voltou sua lente de contato para Ricardo Teixeira e a Copa do Mundo de 2014. E avisa: não confia na veracidade das críticas da entidade à organização da Copa-2014. Em entrevista exclusiva ao UOL Esporte, o repórter escocês contou que Ricardo Teixeira, presidente da CBF, é muito próximo de Jeróme Valcke. Para ele, o duelo verbal dos dois não passa de teatro para aumentar os custos.
O repórter Andrew Jennings, famoso crítico da Fifa, não crê nas críticas feitas à organização de 2014
“Nós vimos Valcke passar meses dizendo: ‘O Brasil tem de se apressar’. Isso pode ser verdade, mas eu acho que a motivação vem do amigo dele, Ricardo. Quanto mais pressão se coloca no Brasil, quanto mais falam ‘Vamos, comecem a construir, quero ver paredes crescendo’, mais fácil fica para as construtoras elevarem os custos. É nessa hora que as empreiteiras dizem: ‘Bom, estamos trabalhando com o cronograma apertado, indo o mais rápido que podemos, mas isso custa mais dinheiro’”, disse Jennings, autor do livro "Jogo Sujo", editado no Brasil pela Panda Books.
Na conversa, o repórter da BBC ainda falou sobre a investigação de João Havelange pelo COI, que está em curso, e sobre a possível queda de Joseph Blatter. Para ele, nos próximos meses podem emergir denúncias que derrubariam o atual presidente da Fifa, especialmente no que diz respeito a compra de votos para a escolha das sedes da Copa do Mundo de 2018 e 2022.
Leia a íntegra da entrevista abaixo:
UOL Esporte: Há um mês, você disse que Blatter não duraria mais um ano na Fifa. Você continua acreditando nisso?
Andrew Jennings: Ele tem de cair no próximo ano. Os escândalos estão muito grandes. Ele não comenta, mas o resto do mundo está comentando... Agora a Fifa está em uma situação complicada. E Blatter é responsável por isso. Ele poderia comandar melhor a Fifa, mas ele não escolheu isso. E tem mais escândalos a caminho. Ele sabe e eu sei que há mais escândalos na mira. Nós estamos esperando especialmente pela investigação da Justiça suíça sobre a corrupção [da ISL, empresa de marketing ligada à Fifa nos anos 1990 e que foi pega pagando propina a diversos dirigentes]. Em um ano, vamos saber quais são as pessoas envolvidas. Sabemos que Blatter está envolvido, sabemos que dois brasileiros estão envolvidos, isso vai vir a público, e eles vão ficar envergonhados.
UOL Esporte: A Justiça suíça vai mesmo liberar os nomes?
Andrew Jennings: Achamos que eles vão, porque isso já aconteceu antes, quando o Supremo Tribunal suíço decidiu que era interesse público liberar os nomes. E eles acham que é o caso desta vez. Os promotores já disseram que sim. As três partes investigadas é que estão gastando dinheiro com advogados para evitar a divulgação. Não temos problema com o Estado, só com os caras malvados.
UOL Esporte: Existem dois brasileiros envolvidos?
Andrew Jennings: Existem dois, e acho que vocês e maioria dos brasileiros já ouviram falar deles. Um é João Havelange, e o outro é Ricardo Teixeira. Eles são citados no relatório, admitiram ter recebido propina. Quando eles conseguiram a confidencialidade, tiveram de admitir que receberam o dinheiro e tiveram de devolver parte dele. Nós, da BBC, e outros jornais suíços, estamos pressionando para que o relatório seja divulgado. Mas eu ia achar ótimo se o governo brasileiro dissesse: ‘Nós gostaríamos de saber se tem algo contra o sr. Teixeira’. Nós [da BBC] sabemos o que há no relatório, e eles [governo] têm de saber, porque Teixeira está no Comitê Organizador.
UOL Esporte: Qual é o tamanho do escândalo da briga pelas sedes de 2018 e 2022?
Andrew Jennings: É difícil dizer. Eu acompanho isso há mais de vinte anos, e às vezes você encontra números grandes como US$ 100 milhões. Eu não sei. O que o Qatar pode ter pago para ter a Copa de 2022? Bom, as nossas fontes nos dizem que estamos falando de US$ 1,5 milhão para alguns dos membros africanos do Comitê Executivo. Então, se eles [Qatar] tiveram dez votos, estamos falando de US$ 20 milhões. Não é tanto dinheiro para o emir do Qatar. Nós não sabemos se alguém foi pago. O que nós sabemos é que US$ 1,5 milhão foram acertados entre três membros africanos do Comitê Executivo da Fifa e as pessoas do Qatar, porque tínhamos alguém no local da transação. Nós não sabemos se o dinheiro foi pago, mas sabemos que foi negociado.
UOL Esporte: Pode ser o maior escândalo da história da Fifa?
Andrew Jennings: É difícil dizer, porque é uma família de escândalos, todos estão relacionados. Você vê o escândalo de Mohammed Bin Hamman [candidato à presidência da Fifa que foi afastado do pleito por comprar votos], que foi pego dando US$ 1 milhão de propina para os países pequenos do Caribe no Congresso da Fifa. Aí você pensa: se Bin Hamman, do Qatar, foi pego com bolsas de dinheiro para a eleição da Fifa, o que garante que ele não fez o mesmo no processa de escolha da sede da Copa de 2022? E aí vem a Rússia. Se as pessoas da Fifa aceitaram dinheiro para eleger o Qatar em 2022, por que não aceitariam da Russia por 2018?
UOL Esporte: O COI está investigando João Havelange. Qual deve ser o resultado desse inquérito?
Andrew Jennings: Eu acho que o COI está comprometido com uma investigação séria. Por causa dos escândalos do passado, eles tinham de mostrar que sabem lidar com escândalos. Então, eu acho que eles estão bem dispostos a expulsar Issa Hayatou, o presidente da Confederação Africana e vice-presidente da Fifa. Nós o pegamos recebendo propina e ele está na lista de pagamentos da ISL. Eu acho que Lamine Diack, presidente da Federação de Atletismo também. Provavelmente nós temos Havelange, mas eu sei o que a defesa vai dizer. Ele vai apelar: ‘Olha, eu estou muito velho, isso aconteceu há 15 anos, eu não lembro da data. Você disse que eu recebi propina? Eu não me lembro’. O que você pode fazer com um homem de 95 anos? Você não pode bater nele e dizer: “Vamos, sim, você pode lembrar”. Mas ao menos ele vai sair marcado. Ele confessou que recebeu propina. Aquilo vai envergonhá-lo.
UOL Esporte: Nos últimos meses vimos a Fifa, especialmente Jeróme Valcke, criticar duramente a organização da Copa do Mundo de 2014. Qual é a relação entre Valcke e Teixeira?
Andrew Jennings: Íntima demais. Eu acho que talvez eles estejam fazendo amor juntos. Eu não me importo. É um assunto pessoal, é a vida deles. Se eles querem ser amantes, não é problema nosso. Deixa eles, essa é a uma sociedade livre. No entanto, se eles também estão lidando com o dinheiro da Fifa e o dinheiro dos impostos, então eu fico preocupado. Muito preocupado. Nós vimos Valcke passar meses dizendo: ‘O Brasil tem de se apressar’. Bom, isso pode ser verdade, talvez vocês estejam devagar. Mas eu acho que a motivação vem do amigo dele, Ricardo. Quanto mais pressão se coloca no Brasil, quanto mais falam ‘Vamos, comecem a construir, quero ver paredes crescendo’, mais fácil fica para as construtoras elevarem os custos. É nessa hora que as empreiteiras dizem: ‘Bom, estamos trabalhando com o cronograma apertado, indo o mais rápido que podemos, mas isso custa mais dinheiro’. E o Sr. Teixeira: ‘Oh, muito obrigado. Oh, espere um pouquinho...’ [gesticula como se enfiasse dinheiro nos bolsos]. E disseram que Teixeira e Valcke passaram as férias juntos... De novo, não é ilegal, mas eu não gosto de ver que ele está apressando o Brasil para dar ao amigo dele mais dinheiro de impostos. Eu não acho essa uma situação legal. Esses conflitos não deviam estar acontecendo.
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