Decademia de futebol

Palmeiras se isola como maior campeão brasileiro da história com roteiro de cinema

Danilo Lavieri e Leandro Miranda Do UOL, em São Paulo
Arte/UOL

"Quem tem mais, tem 10!", já avisa o funk criado para comemorar o título histórico. que caiu na boca dos alviverdes durante a comemoração que varou a madrugada de segunda-feira (26). Comemore muito, torcedor do Palmeiras. Com uma trajetória digna de filme, o Palestra abriu vantagem como o maior campeão do país ao conquistar o décimo título brasileiro de sua história. Deyverson, Dudu, Felipão, Willian Bigode... Que elenco - e roteiro - de cinema!

Usando mais do que nunca o conceito de um bom elenco, o técnico revezou sua equipe, escalou 26 jogadores diferentes em 21 jogos e conseguiu a maior sequência invicta da história dos pontos corridos. A conquista segue o script de todo bom filme: ótimos protagonistas, bons coadjuvantes e uma equipe de apoio de dar inveja.

A trama com final feliz é composta por várias histórias dentro e fora de campo, com direito a ação nos bastidores e muito, mas muito dinheiro investido. Todas elas são contadas neste especial preparado pelo UOL Esporte.

Os poderosos chefões

Para que tudo dê certo e aconteça como o planejado, o Palmeiras sempre teve a presença de três poderosos "chefões", que davam todo o apoio necessário para Felipão e companhia. Leila Pereira, dona da patrocinadora Crefisa e conselheira do clube, não poupou esforços ao disponibilizar recursos para contratações lá atrás, na formação da equipe, antes mesmo de o técnico chegar. Até mesmo em estrutura ela investiu. Tudo para que o elenco tivesse um suporte. Foram mais de R$ 100 milhões gastos.

Diretor executivo de futebol, Alexandre Mattos é a outra cabeça da turma. O diretor foi responsável por comandar as negociações com toda a verba fornecida pelo patrocinador. No ambiente, também age como um segundo paizão, dando bronca e multa nos indisciplinados, além de carinho aos que estão em boa fase.

Tudo isso feito com o aval do presidente Maurício Galiotte, que sonhou dia e noite com ao menos uma conquista em 2018 para que seu projeto ganhasse ainda mais força. Campeão, ele foi reeleito para o próximo mandato de três anos à frente do Alviverde

O menino maluquinho

"Às vezes, solta o chip da minha cabeça, não sei o que acontece". A frase foi eternizada por Deyverson, o Menino Maluquinho do time. Marcado por simulações, expulsões e atitudes que irritam até o torcedor palmeirense, ele conseguiu um fôlego com o novo treinador. Foram nove gols em 17 jogos sob o comando de Scolari. Antes da chegada do técnico, o atacante havia entrado em nove jogos e não tinha conseguido balançar a rede em nenhum deles.

Para tentar dar jeito no atacante contratado por R$ 20 milhões, Felipão fez de tudo. Conversou no treino, no jogo e fora do expediente. Deu bronca no vestiário e em coletiva, para que todos soubessem de seu incômodo. Pediu ajuda para outros jogadores, seus companheiros de comissão e para a diretoria. Precisou até proibir Deyverson de dar entrevista e pediu a colaboração da imprensa.

Deu certo: o "Menino Maluquinho" fez o gol que garantiu o decacampeonato no jogo decisivo contra o Vasco.

No grupo, ele tem seu espaço reservado por conta do carisma: é conhecido como Mc Deyvinho por gostar muito de cantar e dançar funk. Para que o talento artístico continue com espaço, no entanto, será necessário que o "menino do bem amadureça", como gostam de dizer os diretores.

Última viagem a Vegas

Fernando Prass, Jailson e Edu Dracena podem ter feito a sua última "viagem" no Brasileirão com a camisa do Palmeiras. Veteranos, eles têm o contrato se encerrando em dezembro e ainda não abriram conversas para a renovação.

Os três, no entanto, foram fundamentais para evitar que o grupo caísse nas armadilhas da ansiedade e sentisse a pressão pela conquista. No dia a dia, mesmo que não estivessem sempre em condições de jogo, os veteranos sempre conversaram com os mais jovens e ajudavam Felipão a manter o rumo do seu estrelado elenco.

Além do trio, Jean é mais um que virou um homem de confiança do treinador. Polivalente, foi escalado como lateral, meia, volante e até ponta. Com contrato até o fim de 2019, no entanto, ele tem a segurança de que terá, a princípio, mais um ano para tentar aumentar a sua coleção de títulos pelo clube.

À procura da felicidade

Dudu estava um pouco cabisbaixo quando encontrou Felipão. Como um verdadeiro pai que faz de tudo para ajudar seu filho, bem ao estilo do filme À Procura da Felicidade, o treinador voltou a se aproximar do atacante, a exemplo do que já havia feito no Grêmio, e conseguiu extrair o melhor do camisa 7. O segredo? Amor e carinho. Não é à toa que todas as comemorações de gol do atacante terminam com abraço entre os dois.

Chamado de "Baixinho" pelo treinador, o jogador virou símbolo da época de fartura que vive o torcedor palmeirense, que tanto sofreu até 2015. Foi justamente neste ano que ele disse não a Corinthians e São Paulo e desembarcou na Academia de Futebol para marcar história no clube.

Líder de assistências da equipe e xodó da torcida, Dudu conquistou o terceiro título nacional em quatro anos vestindo o verde, consolidando ainda mais a sua imagem de ídolo e justificando os esforços feitos pelo clube para que ele negasse as ofertas milionárias que vieram da China. Resta saber se as próximas propostas recheadas de dinheiro não seduzirão novamente o atacante.

Meu Malvado Favorito

Se tem alguém que divide opiniões na torcida do Palmeiras, esse é Felipe Melo. Desde as jogadas que vão do espetacular ao inconsequente dentro de campo até as opiniões polêmicas fora dele, o volante é o tipo de jogador diante do qual é impossível ficar indiferente. Ele sabe disso e, ao melhor estilo "ame ou odeie", não faz questão de agradar. Mas pelo que jogou nesse Brasileiro, certamente agradou.

Assim como o supervilão Gru foi aos poucos amolecendo seu coração graças à influência de suas três filhas, o "Pitbull" alviverde também foi amansando ao longo da temporada. Recordista de cartões amarelos da equipe, ele mudou de comportamento especialmente após a expulsão logo aos 3 minutos de jogo contra o Cerro Porteño na Libertadores, que quase pôs a perder uma classificação que parecia tranquila. Um papo com Felipão e uma multa da diretoria fizeram o volante colocar mais a cabeça no lugar e se concentrar em jogar futebol a partir dali.

E futebol, ninguém pode negar, Felipe tem de sobra. A qualidade na saída de bola e nas inversões de jogo, sempre presentes, foram incrementadas com alguns gols importantes, incluindo um dos mais bonitos da campanha do deca, feito na vitória sobre o Fluminense. Isso tudo sem deixar de lado, claro, o vigor característico na marcação. O camisa 30 já citou até Sergio Ramos, ídolo do Real Madrid, para dizer que não se importa em tomar cartões se o time for campeão. Sendo assim, o final não poderia ter sido mais feliz.

Duas Mentes Brilhantes

Não existe fórmula para a vitória no futebol, mas uma cabeça pensante no meio-campo é um ingrediente que quase nenhum técnico dispensa ao formar uma equipe campeã. O Palmeiras se dá ao luxo de ter não apenas um, mas dois jogadores de alto nível com esse perfil no elenco. Quando Lucas Lima chegou no começo do ano como a principal contratação para a temporada, a pergunta era quem seria o principal armador do time. Ele ou Moisés? A resposta foi dada em campo: os dois.

Moisés carrega a camisa 10 e, apesar de ele próprio não se considerar um armador clássico, caiu como uma luva na proposta de Felipão, ajudando a pressionar na marcação na frente e entrando na área para finalizar. Já Lucas Lima, depois de receber até vaias da torcida, ressurgiu com o novo treinador, recebeu uma nova liberdade para circular pelo campo e foi um dos melhores jogadores do time no Brasileiro, acrescentando belos gols ao seu conhecido arsenal de passes e assistências.

Com duas mentes brilhantes como essas, o rodízio de Felipão ficou mais fácil. Moisés e Lucas Lima são jogadores que exemplificam perfeitamente o que o treinador costuma dizer sobre o elenco alviverde: "Posso colocar qualquer um de olhos fechados".

O exorcismo de Bruno Henrique

Ninguém no Palmeiras deu uma volta por cima em 2018 maior do que Bruno Henrique. É até difícil de lembrar, mas esse mesmo jogador, que hoje é capitão do time e um dos nomes mais festejados, era não mais do que um reserva que compunha elenco até o começo do ano. Pior ainda: para boa parte da torcida, a identificação do volante com o Corinthians, seu ex-clube, era uma pedra no sapato. Ele precisou passar por um "exorcismo" para cair nas graças alviverdes.

O teste de fogo veio em março, em vitória sobre o Junior Barranquilla na Libertadores, ainda sob o comando de Roger Machado. Escalado de surpresa como titular, o volante imediatamente despertou reações de fúria na torcida. Mas respondeu em campo com dois gols e uma grande atuação. Não saiu mais do time e, com Felipão, consolidou ainda mais sua importância.

Rapidamente a imagem dele cometendo um pênalti em derrota do ano passado para o Corinthians ficou para trás. No lugar dela, nasceu o Bruno Henrique do Verdão: um volante moderno, dinâmico, forte na marcação, excelente no passe e autor de gols decisivos. Um líder dentro e fora de campo, que chegou até a ser cogitado na seleção ao longo do ano. Agora, quem diria, não dá para imaginar o Palmeiras sem ele.

O Zorro

Ele não é um dos heróis mais badalados do cinema. Não tem superforça, uma armadura tecnológica ou poderes sobre-humanos. Mas tem espírito de equipe, muita destreza para finalizar seus adversários e, claro, um belo bigode. Estamos falando obviamente de Willian, o artilheiro do campeão Palmeiras no Brasileirão.

Quando você precisar dele, pode acreditar que ele estará lá para resolver. Dedicação é a palavra que define a temporada de Willian em 2018. O atacante reinventou sua rotina, mudando com atenção especial a alimentação, sono e exercícios, para fazer um dos melhores anos da carreira. Jogou muito, em quantidade e qualidade, e em vários lugares, sempre atendendo a necessidade da equipe.

Ponta direita, atacante pela esquerda, centroavante: Willian deixou sua marca de todas as maneiras na campanha do decacampeonato. Um dos jogadores que mais simboliza o espírito de raça palmeirense, o xodó da torcida ganhou uma renovação de contrato no meio do ano e, aos 32 anos, vive um dos melhores momentos da carreira em um elenco recheado de estrelas. Alguém aí ainda duvida do Bigode?

Os penetras bons de bico

Se no meio do ano alguém dissesse no Palmeiras que Luan e Gustavo Gómez seriam dois pilares importantíssimos da conquista do título brasileiro, certamente receberia olhares de estranheza. O primeiro estava em baixa no clube e a ponto de ser negociado, mas ficou a pedido de Felipão, enquanto o segundo foi uma aposta alta de Alexandre Mattos para subir o nível da zaga. Como dois bons "penetras", os dois entraram na festa alviverde, se enturmaram rapidamente e, agora, ninguém imagina a comemoração sem eles.

Contratado no ano passado por R$ 10 milhões com dinheiro da Crefisa, Luan demorou para engrenar no Palmeiras. Só decolou de vez com Felipão, que chegou a afirmar que não havia zagueiro igual a ele no Brasil. Graças ao rodízio implantado pelo treinador, recebeu oportunidades seguidas de jogar no Campeonato Brasileiro e enfim mostrou sua qualidade, formando uma das melhores duplas da competição ao lado de Gómez.

O paraguaio, aliás, é um caso à parte. De perfil sério e um jogo duro, mas leal, conquistou rapidamente a confiança de Felipão e da torcida e certamente terá seu empréstimo junto ao Milan renovado – ele tem uma cláusula automática baseada em número de jogos feitos. Hoje, já não é mais possível afirmar que ele e Luan são reservas. Se os donos da festa eram Antônio Carlos e Edu Dracena até Felipão chegar, o Palmeiras agora tem mais gente querendo subir no palco.

26 homens e um segredo

Como todo bom comandante, Felipão, que rodou o elenco e usou 26 jogadores no Brasileirão desde que assumiu o Palmeiras, tem os seus segredos. Um deles foi pressionar bastante o Flamengo, equipe que ele sempre considerou a maior ameaça para a sua conquista. Seu plano entrou em execução no final de setembro, na coletiva dada após a vitória por 2 a 0 sobre o Grêmio.

Na ocasião, o treinador ignorou completamente o esforço de seu departamento jurídico e disse em coletiva que o efeito suspensivo concedido a Mayke e Diogo Barbosa só aconteceu pela vontade de um dos auditores do Superior Tribunal de Justiça Desportiva, o que não era verdade. Fez tal cena para insinuar que os laterais seriam julgados mais para frente para que se tornassem desfalque apenas dias depois, justamente contra o Flamengo. Jogar contra tudo e contra todos é uma especialidade do gaúcho.

O plano de insinuar um favorecimento ao time da Gávea teve seu auge na entrevista após a vitória sobre o Ceará, quando ele disse que os juízes tinham até uma lista pronta para aplicar cartões amarelos nos atletas que estavam pendurados. Os gritos ganharam eco nas palavras do diretor Alexandre Mattos e do presidente Maurício Galiotte. Na ocasião, ele perdeu nomes como Lucas Lima e Bruno Henrique para o jogo do Maracanã. Seu desabafo, inclusive, gerou uma punição.

Após o empate no Rio de Janeiro, Felipão saiu de cena, mas deixou a sua "semente" plantada contra um novo alvo: o Internacional. Galiotte e Mattos passaram a sempre reclamar em público de problemas com arbitragem e não perderam a chance de alfinetar os gaúchos.

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