Várzea tem lendas como a do atacante que ganhou casa para trocar de time

Bruno Doro
Do UOL, em São Paulo

  • Divulgação

    Lance do Adega na Copa Kaiser 2011: time manteve só 9 jogadores da equipe

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Imagine a cena: atual campeão do principal torneio da modalidade, uma equipe vê um de seus principais jogadores trocar de time. Essa transferência vira assunto de conversas acaloradas nas mesas de bar e o valor oficial do negócio nunca é descoberto. Parece coisa de futebol profissional, certo? Mas essa é apenas mais uma lenda do mercado da bola da várzea, que envolve um atacante, dois times e um apartamento.


Na várzea, tem jogador que mora na favela. E se o cara der um barraquinho um pouco maior, ele vai trocar de time

Tião, técnico do Classe A (time do jogador acima), sobre o mercado da bola da várzea

A história envolve dois times pesos-pesados do futebol amador. O primeiro é o Classe A, da Barra Funda, atual campeão da Copa Kaiser, o principal torneio da várzea paulista e que envolve quase 200 equipes da Grande São Paulo só na primeira divisão. O segundo é o Adega FC, apontado por muitos representantes de times como o que melhor contratou para a edição 2012.

Tudo começou ainda no ano passado. O Adega não conseguiu chegar à final e passou a buscar reforços. Um dos alvos era do Classe A. A aproximação foi feita, a troca de time foi definida e os rumores começaram a aparecer: o jogador, que não terá o nome revelado já que a reportagem não tem a confirmação dos valores do negócio, teria aceitado um apartamento para trocar de time. Outra versão é de que o novo time teria bancado algumas parcelas atrasadas da casa que o atleta está comprando em um conjunto habitacional.

A verdade? Bem, o mercado da bola da várzea é informal, sem vínculos legais entre os envolvidos ou confirmação de valores. Em um universo em que os negócios são fechados no aperto de mão, a reportagem ouviu o que os dois times tinham a dizer (e não escolheu lado): "Nós realmente perdemos o jogador e o que ele disse é que os pagamentos do apartamento dele seriam resolvidos na troca de time. É uma pena perder o jogador, mas a amizade continua", diz o técnico do Classe A, Sebastião Lucas de Almeida, o Tião.

"A gente até dá risada quando acontece uma coisa dessas. Sabemos que as pessoas estão comentando isso, mas posso garantir: não estamos pagando tudo isso não", diz Marcelo Mernick, do Adega, que arrisca uma explicação: "Às vezes, o jogador não tem coragem de dizer que quer trocar de time e acaba aumentando muito a proposta. Acho que foi isso que aconteceu. Afinal, não somos time profissional para dar apartamento".

Falam que a gente formou um Dream Team com dinheiro. Não é verdade. A gente só apresentou um projeto sério para as pessoas

Marcelo Mernick, dirigente do Adega

Real ou não, essa história mostra como o mercado da bola do futebol de várzea é tratado com seriedade pelos envolvidos. Na Copa Kaiser, por exemplo, nenhum atleta pode jogar por duas equipes na mesma edição. Quando dois times tentam inscrever o mesmo jogador, por exemplo, a organização exige uma carta do atleta, escrita por próprio punho e com firma reconhecida, dizendo qual time vai defender. Como o torneio é anual, a escolha dos jogadores ganha importância. Assim como os negócios.

"Olha, já ouvi muitas coisas desse mercado. Ouvi essa história do apartamento, mas não sei se é verdade. Já ouvi falar de times dando carro para levar jogador, dando televisão. Até mesmo pagando gesseiro para fazer o forro na casa do cara", conta Marcelo Nunes, dirigente do Carrão.

Normalmente, os times com poderio econômico maior pagam "luvas" para contratar os destaques de outras equipes. O valor não é revelado, mas pode passar dos R$ 1.000,00. Além disso, o pagamento aos atletas é comum: R$ 600,00 por mês, R$ 200,00 por jogo ou até bônus por performance (como R$ 100,00 por gol, por exemplo).

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Copa Kaiser de futebol amador
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